Conteúdo do impresso Edição 1354

FONTES RENOVÁVEIS

Alagoas é o 4º maior gerador de eletricidade do país a partir da cana-de-açúcar

Energia solar aparece como principal frente de expansão graças ao alto potencial de irradiação
Por MARIA SALÉSIA 07/03/2026 - 06:00
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Reprodução
Produção de cana-de-açúcar chega a ultrapassar 20 milhões de sacas por ano
Produção de cana-de-açúcar chega a ultrapassar 20 milhões de sacas por ano

Alagoas se destaca no cenário energético nacional por possuir uma matriz fortemente orientada às fontes renováveis. Mais de 80% da produção primária de energia do estado é proveniente de fontes limpas — cerca do dobro da média brasileira. O desempenho coloca o estado como líder no Norte/Nordeste e o quarto maior gerador de eletricidade do país a partir da cana-de-açúcar, segundo o Balanço Energético de Alagoas (BEAL), o Balanço Energético Nacional 2025 e dados consolidados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

No campo da biomassa, o setor sucroenergético exerce papel central na transição energética estadual. Além da produção de açúcar e etanol, as usinas vêm investindo em inovação, especialmente na cogeração de energia elétrica a partir do bagaço da cana, ampliando a eficiência produtiva e contribuindo diretamente para a descarbonização da matriz. 

De forma complementar, o cultivo de eucalipto apresenta produtividade média de 50 m³ por hectare — uma das maiores do Brasil, segundo estimativas da Universidade Federal de Viçosa. A eucaliptocultura alagoana já supera 40 mil hectares plantados e se soma ao aproveitamento energético de resíduos sólidos urbanos em processos industriais.

A energia solar desponta como uma das principais oportunidades de expansão em Alagoas devido ao elevado potencial de irradiação, especialmente em áreas de menor valor fundiário, como Sertão e Agreste, sempre respeitando as normas ambientais. A irradiação média anual alcança cerca de 5,7 kWh/m² dia na região metropolitana, conforme o BEAL 2025 e o Laboratório de Modelagem e Estudos de Recursos Renováveis de Energia (Labren), reforçando a atratividade do estado para empreendimentos fotovoltaicos de grande porte. 

Na geração distribuída, todos os 102 municípios possuem sistemas fotovoltaicos que compensam créditos de energia para quase 76 mil consumidores.

Alagoas também apresenta condições favoráveis à implantação de parques eólicos, desde que atendidas as exigências de licenciamento ambiental. O potencial estimado é de aproximadamente 470 MW, considerando aerogeradores a 75 metros de altura e velocidade média dos ventos de 7 m/s. 

Segundo o Atlas Eólico de Alagoas e o BEAL 2025, esse cenário abre oportunidades não apenas para geração de energia, mas também para atração de indústrias fabricantes de equipamentos e para a formação de uma cadeia produtiva de serviços especializados. 

O gás natural — considerado combustível de transição energética — ocupa posição estratégica na matriz estadual e na complementariedade das fontes. Alagoas está entre os poucos estados que produzem o próprio gás, com reservas onshore e offshore, incluindo a bacia marítima Sergipe/Alagoas (SEAL).

Atualmente existem quatro pontos de entrega nos municípios de Pilar, Rio Largo, São Miguel dos Campos e Penedo. A produção é realizada pela empresa Origem e a distribuição pela Algás, que atende cerca de 90 mil consumidores entre residências, hospitais, indústrias, veículos e comércio.

Infraestrutura e investimentos

A secretária de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Sedics), Alice Beltrão, afirma que, para ampliar o escoamento da geração e reforçar a integração de Alagoas ao Sistema Interligado Nacional (SIN), está em andamento uma obra decorrente de leilão de transmissão da Aneel, com investimento de aproximadamente R$ 140 milhões. 

“Esse investimento fortalece a infraestrutura elétrica estadual e cria condições estruturantes para a expansão de novos projetos de geração, especialmente os renováveis”, destacou. 

Segundo a secretária, o avanço é decisivo diante do pipeline de projetos de geração centralizada, que soma cerca de R$ 5 bilhões em investimentos previstos. “Os empreendimentos possuem licenciamento ambiental preliminar e aguardam condições adequadas de conexão e escoamento para implantação, consolidando Alagoas como ambiente seguro e competitivo para novos investimentos”, afirmou.

O estado também integra uma agenda regional de inovação. Chamada pública recente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), voltada à descarbonização do Nordeste, indica potencial de até R$ 4 bilhões em recursos para projetos estruturantes envolvendo energias limpas, novos combustíveis, eficiência energética e tecnologias de baixo carbono.

Para o superintendente de Políticas Energéticas da Sedics, Bruno Macêdo, a iniciativa amplia oportunidades ao fortalecer a articulação entre setor produtivo, poder público e instituições científicas, posicionando Alagoas como protagonista na transição energética regional. 

Ele ressalta, porém, que a expansão enfrenta desafios. “Há cortes de geração determinados pela Aneel e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), conhecidos como curtailment. Eles decorrem de restrições operativas do sistema de transmissão e da necessidade de manter a confiabilidade do SIN em um país de dimensões continentais”, explicou.

Sistema elétrico alagoano

Alagoas possui sistema elétrico amplo, com subestações em média e alta tensão e extensas linhas de transmissão e distribuição. Dados da Aneel indicam 56 unidades de geração de energia somando 886 MW de potência outorgada entre empreendimentos hidrelétricos, termelétricos e fotovoltaicos.

Na distribuição, a concessionária Equatorial atende cerca de 1,3 milhão de consumidores em todo o estado.

Entre os principais ativos energéticos destaca-se a Usina Hidrelétrica de Xingó, no Rio São Francisco, responsável por aproximadamente 30% da energia gerada no Nordeste e cerca de 10% da produção nacional, evidenciando a relevância estratégica de Alagoas no SIN.

No cenário econômico, o Centro de Liderança Pública (CLP) registrou que o estado alcançou a terceira maior taxa de crescimento do Nordeste e a oitava do Brasil. O Banco do Brasil, em seu estudo Cenário Econômico, também apontou avanço do consumo, comércio e turismo, com crescimento do PIB de 3,9%, acima da média regional e nacional.


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