Silvano Raia: O Além-Fronteiras
João Batista Neto – médico e professor da Ufal
A história da medicina é frequentemente escrita sob o impacto de grandes epifanias, e sua trajetória é pavimentada tanto por descobertas científicas quanto pelas escolhas humanas. Em janeiro de 1989, o cenário da cirurgia brasileira estava em ebulição. O professor Silvano Raia acabara de realizar o primeiro transplante de fígado com doador vivo do mundo. Foi nesse contexto de efervescência técnica que muitos jovens médicos se viram magnetizados, imbuídos do desejo de replicar aquela excelência em seus estados de origem.
Relatos de quem viveu aquele período revelam a tensão entre o “delírio” juvenil e a realidade. Planejar a implantação de um programa de transplante hepático na Ufal, no final da década de 80, exigia uma coragem que ignorava as limitações estruturais da época. Como Dom Quixote, o médico jovem mirava o gigante dos transplantes, enquanto Sancho Pança, a realidade plena da infraestrutura e do suporte necessário, era deixado em segundo plano.
Naquela época, as escolhas de carreira eram encruzilhadas definitivas. Houve quem deixasse de lado o aperfeiçoamento em pâncreas com Célio Nogueira (UFMG), atraído pela mística do fígado. O conselho de Nogueira – “Já tem muita gente no fígado, venha para o pâncreas” – ressoava como um pragmatismo difícil de aceitar para quem estava hipnotizado pela fronteira final da cirurgia digestiva.
No entanto, o tempo e a disciplina acadêmica costumam filtrar o sonho, transformando o ímpeto em produção sólida. Anos depois, a conclusão de um mestrado com a análise da casuística da esofagectomia no megaesôfago avançado demonstra essa transição: do sonho do transplante para a maestria na cirurgia de alta complexidade. O megaesôfago exigia o mesmo rigor técnico que o fígado, mas com uma aplicação imediata na realidade assistencial.
No HU da Ufal, o desafio era transpor a técnica para a realidade assistencial, e concretizou-se na maestria da cirurgia do megaesôfago sem abrir o tórax, reduzindo morbidade e mortalidade. O rigor técnico exigido por Raia no fígado – a precisão vascular, o controle da homeostase e o enfrentamento da fisiologia extrema – foi o que nos deu (a mim e ao Dr. Marcos Nepomuceno) a audácia de realizar a esofagectomia trans-hiatal. Evoluindo até a esofagectomia videoassistida no megaesôfago avançado sob o comando do Prof. Fontan, foi a Ufal a primeira instituição no mundo a publicar estudo randomizado citado nos EUA, Europa e Ásia.
O “batismo de fogo” particular que vivi na USP em 1989 não foi um erro de percurso, mas o desenvolvimento de uma escola de pensamento cirúrgico em Alagoas, inaugurada pelos nossos Mestres, Dirceu Falcão e Rodrigo Ramalho. Silvano Raia, que recentemente nos deixou na última terça-feira de abril, não operava apenas órgãos; ele moldava caracteres médicos, como a fulgurante inteligência do professor e mentor Dirceu. Um médico rico, Silvano tinha um compromisso indelével com a medicina pública e espraiava aos quatro ventos em suas entrevistas: “– Se a população brasileira é oitenta/noventa por cento SUS, e você não atende esse público, quem está excluído é você”.
Aposentado, ele tomou o compromisso de fundar centros de transplante pelo país inteiro, e até os últimos quinze dias estava pesquisando xenotransplante para reduzir a fila estoica dos que aguardam um novo fígado. Doutora Celina, titular da Uncisal, também conviveu com o personagem, e ao saber de sua morte, assim se pronunciou: “Eu convivi de perto com este ser humano e suas contradições; narcisista, mente brilhante e muitos flashes de humanidade. Nos últimos anos ele alcançou a Sabedoria. Um profissional brilhante e pesquisador incansável que inspirou a formação dos maiores transplantadores de fígado de nosso país!”.
Psicanaliticamente, em entrevista biográfica para a Academia Nacional de Medicina, ele atribuiu esse sucesso à luta que empreendeu para ser o primeiro e assim conquistar o amor de seu pai, que tinha preferências por seu irmão e era advogado.
Entre o fascínio pelo fígado e a realidade técnica do esôfago, aprendemos que a excelência não reside apenas no órgão transplantado, mas na aplicação ética e rigorosa da ciência em favor do paciente. O legado da minha geração, que agora se retira do palco aos setenta anos, é o equilíbrio entre a audácia de sonhar com o impossível e a humildade de servir ao que é necessário: o paciente.
“He did his best” – eu fiz o meu melhor. Era como gostaria de ser lembrado, disse Silvano Raia, o Além-Fronteiras.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



