LIVRO E FILME
Jorge Oliveira desmente que os Caetés tenham comido o bispo Sardinha
Genocídio em nome de Deus desmascara uma farsa de cinco séculos que levou à morte de 80 mil índios
Em um livro e um filme, ambos intitulados Genocídio em nome de Deus, previstos para este ano, o jornalista e cineasta Jorge Oliveira está para desmascarar uma das maiores farsas dos últimos cinco séculos: a morte do bispo Sardinha na foz de Coruripe, no litoral de Alagoas.
O escritor e cineasta desmente que o bispo foi comido pelos índios Caetés depois que a sua nau Nossa Senhora da Ajuda afundou em 1564 com noventa tripulantes, com apenas três sobreviventes entre os náufragos. A história também será contada numa revista em quadrinhos produzida pelo jornalista Leo Villanova.
Com base em extensa pesquisa nos museus do Brasil e Portugal, Oliveira descobriu que a Igreja Católica e a Corte portuguesa usaram o suposto canibalismo para cometerem o maior genocídio contra os índios Caetés no litoral alagoano. O escritor vasculhou institutos históricos, analisou livros e concluiu que não existe um testemunho verdadeiro sobre a antropofagia dos índios alagoanos.
A Igreja encobriu um manto à chacina dos Caetés desde o descobrimento do Brasil, envergonhada com o genocídio, pois foi o papa Júlio II e o rei D. João III, de Portugal, que ordenaram a matança dos índios baseados em relatos falsos dos jesuítas e do segundo governador-geral do Brasil, Coelho Passos, desafeto de Fernandes Sardinha, e que teria sido o mandante da morte do primeiro bispo do Brasil, que foi jogado ao mar amarrado a barras de ferro. Sabe-se hoje que os Caetés eram naturalistas, também carnívoros, mas não adeptos de carne humana.
Trecho do livro
“Desculpe a minha ignorância, Caetés.
Desde criança fui educado a não gostar de índio. Quando fiz o primário no Grupo Escolar Antônio Pombo, no bairro do Prado, em Maceió, acostumei-me nas aulas de religião a ouvir a ladainha de um padre — igual àqueles que a gente beijava a mão respeitosamente — de uma história assustadora em uma praia de Alagoas, um colega seu, o bispo Dom Pero Fernandes Sardinha, tinha sido comido pelos índios Caetés. Que horror!
Assustava-me ouvir isso porque eu passava a maior parte do dia brincando na praia do Sobral, onde nasci e cresci. Tinha medo de encontrar com esses canibais e voltar para casa mutilado e com receio de ter que explicar para os meus pais que tive uma perna ou um braço comido por um índio. Não foi só esse pavor que gerou em mim ojeriza aos índios. Os faroestes americanos também contribuíram para isso. Eu assistia no Cine Colonial, no Prado, aos filmes dos ianques e torcia para a cavalaria comandada do exército do coronel George Custer estragalhar a balas os perversos e desumanos Sioux, Apache, Cherokee, Navajo, Cheyenne, Blackfeet e Comanche que atacavam as diligências dos colonos indefesos, matando homens, mulheres e crianças. Meus amigos e eu, naturalmente, levantávamos das cadeiras no cinema e batíamos palmas com entusiasmo quando o soldado corneteiro tocava o Cavalry Charge e todo o exército EUA descia das colinas do Texas para salvar os colonos atacados pelos selvagens. A lavagem cerebral do espetáculo dos heróis militares americanos me atormentou por muito tempo.
O meu comportamento de hostilidade aos índios, portanto, foi gerado por esses acontecimentos desde criança. Via nos índios um bando de malfeitores perversos, assassinos de mulheres e crianças. Por isso, nos filmes americanos torcia freneticamente pelo exército do coronel Custer no enfrentamento com os índios. Minha alienação juvenil era tão patológica que sentia na carne quando um dos soldados da tropa era atingido por uma flecha desses malvados índios, cujo efeito sonoro no filme era maior do que os canhões arrasadores do exército americano, dizimando-os.
Portanto, parafraseando um lugar comum: sou um produto do meio.
No grupo escolar tinha pavor das aulas de catecismo e entrava em pânico quando o padre Vicente, um homem de rosto esburacado, cara pestilenta, com uma imensa cruz dourada pendurada no pescoço, sempre com uma régua à mão para judiar das crianças perguntava ‘Quem é Deus?’.
Assim, para me livrar do castigo de ficar de joelhos sobre areia fina cortante, e da régua pesada do padre Vicente, eu fui forçado a aprender que ‘Deus é um ser todo poderoso, criador do céu e da terra’.
Aprendi a lição, mas jamais consegui me livrar daquela imagem de Lúcifer com chifre. A imagem do padre Vicente que ainda me perturba quando entro numa igreja distraído olho para o altar com Cristo sangrando na cruz exclamando: Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem!
Genocídio em nome de Deus, de certa forma, me conduz à realidade e reflexão, quando cura a minha ferida emocional da infância e me faz reconhecer a injustiça contra os índios. Mas, infelizmente, esse discernimento não me reconcilia com Deus, pois foi em nome Dele que os 80 mil índios Caetés alagoanos foram sacrificados com a cumplicidade da Igreja e dos jesuítas, mensageiros de Cristo, que tinham a obrigação cristã de protegê-los da selvageria dos homens brancos.
Genocídio em nome de Deus é um tributo aos meus traumas de criança e um pedido de desculpas aos Caetés alagoanos e a todos os índios do mundo dizimados pelo homem branco.”



