Conteúdo do impresso Edição 1368

CIÊNCIA

Polilaminina chega a Alagoas e abre nova esperança para pacientes com lesão medular

Primeiro alagoano incluído na pesquisa, Natalício Jordan integra grupo de 77 brasileiros que estão recebendo tratamento experimental
Por MARIA SALÉSIA 13/06/2026 - 06:00
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Nara Almeida
Médica Morghara Ferreira atuou para incluir o alagoano no tratamento
Médica Morghara Ferreira atuou para incluir o alagoano no tratamento

Alagoas passou a integrar um dos mais promissores estudos brasileiros na área da medicina regenerativa com a inclusão do taxista Natalício Jordan Correia Barros, de 32 anos, primeiro paciente do estado a receber a polilaminina, biofármaco experimental desenvolvido para estimular a regeneração de conexões nervosas lesionadas na medula espinhal. A aplicação foi realizada em 31 de maio, pouco mais de dois meses após ele sofrer uma grave lesão medular em consequência de um acidente de motocicleta ocorrido em 14 de março, em Maceió.

Com o procedimento, Natalício Jordan passou a integrar o grupo de 77 brasileiros incluídos no protocolo de uso compassivo autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A polilaminina é resultado de mais de duas décadas de pesquisas conduzidas pela cientista Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Laboratório Cristália.

A médica intensivista Morghana Ferreira, que atua há nove anos em Maceió e acompanha pacientes críticos há quase duas décadas, foi a responsável por conectar o paciente ao estudo. "Costumo dizer que a polilaminina foi o andaime e eu fui a ponte. Junto com a esposa dele, Vanessa, conseguimos ligar Jordan a uma possibilidade de tratamento que não existia para ele", afirmou.

Jordan sofreu uma secção medular completa na altura da vértebra T12, perdendo os movimentos e a sensibilidade da região do umbigo para baixo. Durante a internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a esposa, Vanessa Leodino, iniciou uma busca incansável por alternativas terapêuticas. Em uma das conversas com a equipe médica, fez uma pergunta que mudaria o rumo da história da família: "Seria possível receber a polilaminina?".

"Eu não tinha experiência com o protocolo, mas fui buscar informações. Quando percebi que ele preenchia todos os critérios exigidos e que não existiam outras alternativas terapêuticas disponíveis, iniciei o processo para tentar incluí-lo no estudo", relatou Morghana.

A partir daí começou uma corrida contra o tempo. Para participar do protocolo, o paciente precisa apresentar lesão medular completa classificada pela escala ASIA, estar clinicamente estável e receber a aplicação entre 24 horas e 90 dias após o trauma. Além disso, cada caso depende de autorização individual da Anvisa, processo que pode levar até 45 dias.

O tratamento

Produzida em laboratório a partir da laminina — proteína naturalmente presente no organismo e relacionada ao crescimento e à regeneração celular —, a polilaminina é aplicada diretamente na medula espinhal por meio de uma única injeção intramedular.

Todo o medicamento utilizado no caso de Natalício Jordan foi fornecido gratuitamente pelo projeto de pesquisa. Uma equipe especializada do Rio de Janeiro veio a Maceió para realizar o procedimento e acompanhar os primeiros passos do tratamento. O anestesiologista alagoano Pedro Ferro participou do procedimento como responsável pela anestesia do paciente durante a aplicação da medicação.

Segundo Morghana Ferreira, a etapa posterior à aplicação é tão importante quanto o próprio procedimento. "Os pacientes são avaliados após um, três, seis e 12 meses. Nos primeiros seis meses, encaminhamos relatórios periódicos à equipe responsável pelo estudo, informando qualquer alteração motora ou sensitiva observada", explicou.

Apesar da repercussão nacional e da expectativa criada em torno da polilaminina, a médica faz questão de destacar que o tratamento ainda está em fase experimental. Ela informou que a autorização concedida pela Anvisa em 2026 marca o início da primeira fase formal dos testes clínicos. Antes disso, a substância havia sido utilizada em um estudo preliminar com apenas oito pacientes. Um deles recuperou a capacidade de voltar a andar, mas o resultado ocorreu antes da atual etapa regulatória.

"É importante que a população compreenda que estamos falando de uma pesquisa científica. Ainda não sabemos quais serão os resultados finais. Trata-se de uma tecnologia inovadora e promissora, mas não podemos criar expectativas irreais", ressalta.

Atualmente, o protocolo contempla apenas pacientes com lesões medulares agudas ou subagudas. A inclusão de pessoas com lesões crônicas dependerá dos resultados obtidos nas próximas fases da pesquisa.

Embora a possibilidade de voltar a andar seja o resultado mais esperado, especialistas lembram que ganhos aparentemente modestos podem representar mudanças profundas na qualidade de vida.

"Nos pacientes acompanhados anteriormente, muitos recuperaram sensibilidade e controle dos esfíncteres. Conseguir perceber quando a bexiga está cheia ou voltar a controlar a evacuação já representa uma transformação enorme para quem depende de sondas e cuidados permanentes", explicou Morghana.

Os resultados definitivos só poderão ser avaliados após um ano de acompanhamento. A médica reforça que a polilaminina não substitui o processo de reabilitação. "Não é apenas a medicação. O paciente precisa manter a fisioterapia, os exercícios e todo o acompanhamento multidisciplinar. A recuperação, se acontecer, será resultado da soma de todos esses fatores", completou a médica.

A busca da família mudou o rumo da história

A inclusão de Natalício Jordan no protocolo experimental não foi resultado apenas de critérios médicos. A persistência da família, especialmente da esposa Vanessa, teve papel decisivo para que o caso avançasse.

Segundo Morghana, a busca por alternativas começou ainda durante a internação na UTI. "Criamos uma relação muito próxima com as famílias dos pacientes. Vanessa pesquisou, questionou e não desistiu de procurar informações. A participação da família é essencial em todo esse processo", destacou.

Para a médica, o caso também deixa uma reflexão importante para outros pacientes e familiares. "Procurem informação de qualidade, conversem com os médicos e façam perguntas. Foi justamente uma pergunta feita por uma esposa dentro da UTI que abriu uma porta que parecia impossível."

Jordan está em casa e segue o acompanhamento previsto pelo protocolo autorizado pela Anvisa. Para Morghana, a experiência representa uma nova perspectiva para pessoas com lesão medular que, até pouco tempo, tinham apenas a reabilitação convencional como alternativa.

"A ciência precisa trabalhar para as pessoas, e não o contrário. Precisamos olhar cada paciente de forma individualizada. A polilaminina chega para mostrar que, mesmo quando parece que tudo acabou, ainda pode existir uma possibilidade."

Primeiro paciente de Alagoas e um dos 77 brasileiros incluídos no protocolo experimental, Natalício Jordan encara agora uma jornada sem garantias, mas sustentada pela fé, pela reabilitação e pelo apoio incondicional da esposa e da família.

"O mais difícil que o acidente tirou de mim foi a liberdade de fazer o que quero, na hora que quero, de ir para onde quero. Isso pesa muito. Minha cabeça é um misto de sentimentos, mas a polilaminina representa esperança. Depois de Deus, acredito que ela veio para ajudar muita gente e também pode me ajudar. Estou muito feliz, mas sou realista. Vou lutar até a última gota de suor. E, se por algum motivo eu não voltar a andar, vou enfrentar da forma que for possível", disse.

Apesar da cautela, a convicção permanece. "Nunca ouvi alguém me perguntar: 'e se você não andar?'. Todo mundo acredita que eu vou andar. E eu também acredito."

Enquanto aguarda os resultados do tratamento, o casal precisou adiar planos, como a viagem de aniversário programada para este mês de junho. Os sonhos, porém, continuam os mesmos: retomar a rotina, voltar ao trabalho, aos treinos e aos momentos simples do cotidiano.

"Queremos voltar a viver a vida da melhor forma possível. Ir ao cinema, treinar, sair para comer um sushi, fazer as coisas que sempre fizemos. Ainda não foi possível, mas vamos batalhar para que aconteça". A esperança também é compartilhada por Vanessa, que nunca soltou a mão de Jordan e segue dividindo com ele cada desafio, conquista e expectativa dessa nova etapa.

Entre a expectativa da ciência e a força da esperança, os próximos meses dirão a Jordan quais resultados a polilaminina poderá oferecer, mas uma certeza já acompanha essa trajetória: uma pergunta feita dentro de uma UTI abriu para essa família alagoana a possibilidade que antes parecia impossível.


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