Conteúdo do impresso Edição 1373

CASO MALAQUIAS

Seis anos depois, mandante de crime permanece desconhecido

Ex-militar envolvido no assassinato do empresário será julgado na próxima segunda-feira
Arquivo
Kleber Malaquias foi morto em 15 de julho de 2020
Kleber Malaquias foi morto em 15 de julho de 2020

Em vez de um bolo de aniversário, uma memória de luto. A cena se repete todos os anos desde 15 de julho de 2020, quando o empresário e ativista político Kleber Malaquias foi assassinado a tiros em Rio Largo. Na quarta-feira passada, ele completaria 47 anos. Para a mãe, Evany Malaquias, a data continua marcada pela mesma pergunta que permanece sem resposta: quem mandou matar seu filho? "Hoje era para a família estar reunida comemorando o aniversário dele. Dói muito. Ainda dói muito. Eu só espero que a justiça seja feita", desabafa.

A dor da mãe atravessou seis anos sem diminuir. Ela lembra do filho como um homem dedicado à família, aos amigos e às denúncias que fazia sobre supostos casos de corrupção e criminalidade. "Meu Klebinho era um bom filho, um bom pai, amigo dos amigos. O dever dele era lutar pela verdade e pela justiça. Hoje eu não tenho mais meu filho. Criei com tanto carinho, cuidei com tanto amor. Tiraram a vida dele", afirmou, emocionada ao EXTRA.

Na próxima segunda-feira, 20, o Tribunal do Júri julgará o ex-policial militar Marcos Maurício Francisco dos Santos, acusado pelo Ministério Público de integrar o grupo responsável pela execução do crime. Segundo a denúncia do Ministério Público Estadual, ele teria participado do monitoramento da vítima e do repasse de informações aos executores, contribuindo para a concretização do homicídio. Com esse julgamento, praticamente todos os denunciados como participantes da execução do assassinato terão sido julgados. Já foram condenados o ex-policial militar Fredson José dos Santos, apontado como autor dos disparos, Edinaldo Estevão de Lima e os então policiais militares Marcelo Souza e José Mário de Lima Silva.

Apesar do avanço das condenações, o aspecto mais sensível do caso continua em aberto: a identificação de quem ordenou o assassinato. Na denúncia apresentada à Justiça, o Ministério Público sustenta que Kleber Malaquias foi vítima de um crime de mando, praticado em contexto político, em razão da intensa atuação pública da vítima na divulgação de denúncias envolvendo agentes públicos e supostas organizações criminosas. Entretanto, até hoje nenhuma pessoa foi denunciada como mandante da execução.

É justamente essa ausência que revolta Evany Malaquias. "É uma pena quando dizem que esse será o julgamento do último envolvido. Não é o último. Ainda existem os mandantes. A Polícia Federal sabe, os delegados sabem. Muita gente sabe quem são os mandantes e ninguém diz quem são. Quem são essas pessoas tão poderosas? Quem financiou isso? Quem pagou para tirar a vida do meu filho?", questiona. No dia em que Kleber completaria 47 anos, o maior presente esperado pela mãe não é simbólico. É uma resposta.

"Quem foi que mandou matar meu filho? É só isso que eu quero saber. Enquanto essa resposta não vier, a justiça ainda não estará completa", afirma Evany, cujo marido faleceu em 2023 e que segue transformando o aniversário do filho em um dia de memória, saudade e cobrança.

Denúncias com repercussão nacional

Antes de se tornar vítima de um homicídio que o Ministério Público classifica como crime de mando, Kleber Malaquias havia enfrentado personagens influentes da política e do Judiciário alagoano. Em 2016, seu nome ganhou repercussão nacional ao aparecer em uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, como testemunha em uma investigação que envolvia o então presidente afastado do Tribunal de Justiça de Alagoas, desembargador Washington Luiz Damasceno Freitas. Na reportagem, Kleber afirmou ter presenciado uma conversa em um restaurante na qual o magistrado, segundo seu relato, teria dado a ordem para "passar" o então juiz eleitoral Marcelo Tadeu Lemos de Oliveira. "Passar", explicou Kleber na entrevista, significava mandar matar.

A investigação da Polícia Federal apontava que Marcelo Tadeu seria o alvo de um atentado ocorrido em 2009, em que o advogado Nudson Harley Freitas acabou sendo morto por engano ao ser confundido com o magistrado.

O desembargador Washington Luiz sempre negou qualquer participação no suposto plano criminoso. Em entrevista ao próprio Fantástico, declarou ser "um homem de paz" e afirmou jamais ter ordenado a morte de quem quer que fosse. As acusações faziam parte de um conjunto de investigações conduzidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que apuravam suspeitas envolvendo o magistrado.

A participação de Kleber na reportagem nacional reforçou sua imagem de denunciante. Nos anos seguintes, já concentrado em Rio Largo, ele passou a fazer transmissões ao vivo e publicar vídeos nas redes sociais denunciando supostos esquemas de corrupção na administração municipal. Entre os alvos de suas acusações estavam o então prefeito Gilberto Gonçalves, o ex-prefeito Toninho Lins e o ex-prefeito de Marechal Deodoro Cristiano Matheus. Kleber também registrou boletins de ocorrência relatando ameaças e um suposto atentado sofrido meses antes de ser assassinado, afirmando acreditar que corria risco de morte em razão das denúncias que fazia.

Emboscada e morte no dia do aniversário

Quando foi executado, em 15 de julho de 2020, no bar Casa da Buchada, na Mata do Rolo, em Rio Largo, dia em que completava 41 anos, o empresário já era considerado uma das vozes mais incisivas contra grupos políticos do município. Seis anos depois, a investigação conseguiu condenar praticamente todo o núcleo apontado como executor do crime, mas a principal pergunta permanece sem resposta: quem ordenou a morte do homem que passou anos denunciando pessoas poderosas? Segundo o Ministério Público, o assassinato foi motivado justamente pela atuação pública de Kleber na divulgação de denúncias envolvendo agentes públicos, corrupção e organizações criminosas.

Mas a maior reviravolta ocorreu quando a própria investigação passou a ser investigada. Em setembro de 2024, a Polícia Federal prendeu o delegado Daniel José Galvão Mayer, que havia atuado no caso. A pedido do Ministério Público, ele se tornou réu pelos crimes de fraude processual, revelação de sigilo funcional e abuso de autoridade. Segundo a denúncia, o delegado teria atuado para alterar o rumo das investigações, inserindo provas forjadas, ocultando documentos e tentando atribuir a autoria do homicídio a um policial militar que já estava morto, numa suposta tentativa de proteger os verdadeiros responsáveis pelo assassinato.

POLICIAL CIVIL SUSPEITO DE LIGAÇÃO COM MANDANTE

As investigações também alcançaram um policial civil, preso após denúncia do Ministério Público. Conforme a acusação, Eudson Oliveira de Matos mantinha contato telefônico com integrantes do grupo criminoso, apresentou movimentações bancárias consideradas suspeitas no dia do assassinato, prestou apoio logístico à execução e pode representar o principal elo entre os executores e o autor intelectual do crime. O nome dele integra um procedimento que tramita sob sigilo, justamente por envolver a linha de investigação sobre os possíveis mandantes.

Outro personagem importante é o delegado Lucimério Campos, primeiro responsável pelo inquérito. Durante o julgamento dos réus, ele declarou que, desde o início, tratou o caso como um crime de mando motivado pelas denúncias feitas por Kleber Malaquias. Também afirmou acreditar que sofreu interferência política que resultou em seu afastamento da investigação, embora tenha preferido não revelar nomes durante o depoimento.

O delegado ainda confirmou que Kleber vivia sob constantes ameaças em razão das denúncias que fazia contra políticos de Rio Largo.

Ex-militar autor de disparos foi condenado a 30 anos de prisão

No ano passado, o Tribunal do Júri reconheceu a participação de cada um dos acusados de forma individualizada. Apontado como autor dos disparos, o ex-policial militar Fredson José dos Santos recebeu a pena mais alta: 30 anos de reclusão em regime fechado. Os jurados acataram a tese do MP de que ele foi o executor da emboscada que tirou a vida de Kleber Malaquias. O então policial militar Marcelo José Souza da Silva, acusado de conduzir o veículo utilizado na ação e dar suporte ao executor, foi condenado a 24 anos de prisão em regime fechado, além de perder o cargo público. O Conselho de Sentença reconheceu, em seu caso, as qualificadoras da impossibilidade de defesa da vítima e do homicídio praticado mediante promessa de recompensa.

Já José Mário de Lima Silva, outro policial militar denunciado por integrar a organização criminosa que executou o plano, recebeu pena de 12 anos de reclusão, reduzida para 8 anos, 4 meses e 1 dia em razão do período em que permaneceu preso preventivamente. Também foi determinada sua perda do cargo de sargento na Polícia Militar. Como Alagoas não possui estabelecimento para cumprimento do regime semiaberto, a Justiça autorizou que ele respondesse em liberdade até definição sobre a execução da pena.

O quarto condenado foi Edinaldo Estevão de Lima, conhecido como "Galeguinho do Rádio". Amigo de Kleber Malaquias, ele foi considerado culpado por atrair a vítima para o local onde foi executada e por não alertá-la sobre o plano criminoso, apesar de, segundo o júri, ter conhecimento da emboscada. A pena-base foi fixada em 12 anos, mas reduzida para 8 anos de reclusão em razão de sua participação considerada de menor importância. Em razão do tempo já cumprido em prisão preventiva e da inexistência de unidade para o regime semiaberto em Alagoas, também foi autorizado a responder em liberdade.


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