CULTURA

Como o Dia do Saci quer rivalizar com o Halloween no Brasil

Por Com BBC Brasil 31/10/2020 - 10:37
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Divulgação
Saci X Dia das Bruxas
Saci X Dia das Bruxas

Arteiro que só ele, o saci quer dar um jeito de se apropriar das abóboras do Halloween. E, como propagam os "saciólogos" Brasil afora, devorá-las feito escondidinho de carne-seca, numa receita nacional. É o que prega o jornalista e geógrafo Mouzar Benedito, um dos criadores da Sociedade de Observadores de Saci (Sosaci), instituição fundada em 2003 para não deixar morrer a cultura do personagem, o negro de uma perna só, cachimbo na boca e carapuça vermelha na cabeça.

Incomodado com a, nas suas palavras, "invasão cultural representada pelo Halloween no Brasil", ele e um grupo de amigos decidiram fundar a associação e lutar para que no mesmo dia se celebrasse o Saci. Criaram um evento em São Luiz do Paraitinga, no interior paulista, e mobilizaram para que a cidade instituísse, desde aquele mesmo ano de 2003, uma lei municipal determinado que o dia 31 de outubro seria do Saci.

A iniciativa acabou sendo replicada em outros municípios e, no ano seguinte, lei semelhante também foi aprovada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. "O Halloween foi imposto como uma coisa ideológica de propaganda, como marca do domínio da cultura dos Estados Unidos sobre nós", justifica-se Benedito, à BBC News Brasil. "Uma forma de domínio de um povo, de uma civilização, é mostrar e impor uma ideia de que a cultura do colonizador é melhor e maior do que a do colonizado."

Quando deputado federal, o historiador Chico Alencar (PSOL-RJ) apresentou projeto de lei pretendendo que a data se tornasse uma comemoração nacional. "O Halloween, que tem crescido nos centros urbanos brasileiros, é uma celebração que não tem nada a ver com a nossa cultura, com a nossa tradição. Quem adere ao Halloween aqui está fazendo uma pura imitação, é vontade de parecer desenvolvido a partir da concepção de que há povos desenvolvidos culturalmente e povos subdesenvolvidos", diz ele, à reportagem.

Alencar defende que o saci é um símbolo brasileiro. "Aquela figurinha perneta, ágil e brincalhona, assustadora para quem se julga muito sabichão e poderoso, que fuma o cachimbinho e vem no redemoinho com sua touca vermelho, que tendo uma perna só é ágil, é capoeirista, é o negro quilombola que foge de todas as armadilhas… É uma figura que precisa ser reconhecida e valorizada."

No entender de Benedito, quando a festa do Dia das Bruxas — que tem origem celta, disseminou-se pelo mundo mas acabou mais popular em países anglófonos — começou a ser trazida ao Brasil, pelas escolas de inglês, isso não representava problemas. "Porque é normal que uma escola de línguas queira inserir também o conhecimento da cultura do país", pondera.

"Mas aí começou a ter uma coisa meio impositiva, agressiva, imperialista. Em São Luiz do Paraitinga havia Halloween até em escolas rurais… Acho que hoje em dia, apesar de a festa do Halloween ainda estar forte, o saci já compete um pouco." Leia matéria, do jornalista Edison Veiga, na íntegra aqui.

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