SAÚDE
Dor nas costas persistente pode custar caro ao trabalhador
Dores e problemas na coluna foram a principal causa de afastamentos do trabalho no Brasil em 2024
A dor nas costas aparece de manhã, some depois do almoço, volta à noite. Por semanas, o trabalhador convive com o desconforto achando que vai passar sozinho. Muita gente espera meses, às vezes anos, antes de procurar um médico.
Quando finalmente vai, o diagnóstico pode revelar uma hérnia de disco avançada, compressão de nervo ou degeneração vertebral que, detectada antes, poderia ter sido tratada de forma conservadora, sem cirurgia e sem afastamento prolongado.
Os números do Ministério da Previdência Social para 2024 deixam claro o tamanho do problema. Doenças relacionadas à coluna vertebral foram a principal causa de afastamentos do trabalho no país, responsáveis pelo benefício de mais de 205 mil segurados só por dorsalgia, o termo técnico para dor na coluna.
A hérnia de disco somou outros 172,4 mil casos, levando o total de afastamentos por problemas na coluna a ultrapassar 377 mil trabalhadores em um único ano.
Para quem trabalha no Nordeste, onde boa parte da força de trabalho está em atividades que exigem esforço físico, o tema não é abstrato. Construção civil, comércio, serviços domésticos e agroindústria figuram entre os setores com maior incidência de lesões musculoesqueléticas. A questão envolve saúde, mas também dinheiro e estabilidade familiar.
Por que a coluna vertebral é tão vulnerável
A coluna vertebral é formada por vértebras separadas por discos intervertebrais, estruturas de tecido cartilaginoso que funcionam como amortecedores. Com o tempo, o uso repetitivo, as posturas inadequadas e o sobrepeso desgastam esses discos.
Como aponta um especialista de coluna em Goiânia, quando parte do disco sai da posição e comprime as raízes nervosas, tem-se a hérnia de disco. Quando o desgaste é progressivo e generalizado, desenvolve-se a degeneração discal.
Conforme dados do IBGE, cerca de 5,4 milhões de brasileiros têm hérnia de disco. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 apontou que 23,4% dos adultos brasileiros relatam problema crônico de coluna, número que subiu para 33,9% após a pandemia, reflexo direto do aumento do sedentarismo e das horas em frente a computadores e celulares.
A OMS estima que a lombalgia afetou 619 milhões de pessoas no mundo em 2020 e que esse número pode chegar a 843 milhões até 2050. No Brasil, segundo dados da PNAD, doenças da coluna representam a segunda maior morbidade crônica da população adulta.
O erro mais comum: esperar a dor piorar
Médicos que atendem pacientes com problemas na coluna descrevem um padrão recorrente: a maioria chega ao consultório tarde demais. A dor foi tolerada por meses com analgésico, pomada ou repouso improvisado. Quando o desconforto passou a impedir o trabalho ou o sono, a consulta foi marcada.
O problema com essa conduta é que condições da coluna têm uma janela de tratamento. Uma hérnia de disco identificada precocemente pode ser tratada com fisioterapia, ajuste postural e, em alguns casos, bloqueio anestésico.
Quando o diagnóstico chega tarde, já com compressão de nervo, deficit neurológico ou dor irradiada para a perna, o leque de opções conservadoras se estreita e a cirurgia passa de possibilidade a necessidade.
Segundo revisão publicada no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences em 2024, o atraso no diagnóstico é uma preocupação constante em casos de hérnia torácica, exacerbado pela apresentação clínica atípica que frequentemente leva a diagnósticos incorretos ou tardios.
A equipe do COE, centro de ortopedia especializada com atuação em Goiânia, acrescenta que a mesma lógica se aplica às hérnias lombares: sintomas que parecem musculares podem mascarar compressão nervosa que, ignorada, evolui para déficit motor.
O custo para o trabalhador, e para quem contrata
Os dados do INSS revelam algo que muitos trabalhadores descobrem da pior forma: problema de coluna mal tratado tem data para cobrar a conta. Em 2024, mais de 3,5 milhões de brasileiros receberam benefício por incapacidade temporária. Dores na coluna e hérnia de disco somadas foram responsáveis por cerca de 10,8% de todos esses afastamentos.
O impacto financeiro direto é imediato: os 15 primeiros dias de afastamento ficam por conta do empregador, e a partir do 16º dia o INSS assume. Mas o custo real vai além.
Há a queda na renda, o período de recuperação pós-cirurgia, que em procedimentos abertos pode durar semanas, a fisioterapia necessária depois e o risco de que o problema se torne crônico se a reabilitação não for bem conduzida.
Para autônomos e trabalhadores informais, perfil prevalente em Alagoas e em grande parte do Nordeste, a equação é ainda mais dura. Sem a rede de proteção do INSS vinculada a emprego formal, qualquer período fora do trabalho representa perda direta de renda.
Quando o diagnóstico precoce define o tratamento
A diferença entre um tratamento conservador bem-sucedido e uma cirurgia de urgência, em muitos casos, está no tempo entre o início dos sintomas e a avaliação especializada.
Segundo ortopedistas que atuam na área, a maioria dos pacientes com hérnia de disco lombar melhora com tratamento conservador em até 12 semanas, desde que o processo seja iniciado cedo e acompanhado por profissional habilitado a distinguir os casos que precisam de intervenção cirúrgica daqueles que respondem à fisioterapia.
O problema é que avaliar uma dor nas costas não é simples. Sintomas parecidos podem ter origens distintas: tensão muscular, compressão discal, espondilolistese, estenose de canal.
Cada condição tem conduta específica. Por isso, a recomendação de especialistas é que dores que persistem por mais de duas semanas, que irradiam para as pernas ou que limitam os movimentos sejam avaliadas por um ortopedista com formação específica em coluna vertebral.
Cirurgia minimamente invasiva: o que mudou no tratamento da coluna
Nos casos em que a cirurgia é indicada, o cenário atual é bem diferente do que era há duas décadas. As técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia endoscópica da coluna, utilizam incisões pequenas, câmeras e instrumentos especializados que preservam a musculatura ao redor da coluna.
"O resultado é menos dor no pós-operatório, menor sangramento e retorno às atividades em tempo significativamente menor comparado às cirurgias abertas tradicionais", explica Dr. Aurélio Arantes, ortopedista especialista em cirurgias minimamente invasivas da coluna em Goiânia.
A cirurgia endoscópica de coluna, em particular, permite remover fragmentos de hérnia por um portal único, sem necessidade de afastar grandes grupos musculares. Para o trabalhador, isso significa menos dias afastado, menos dependência de analgésicos fortes no pós-operatório e retorno à vida funcional mais rápido.
Mas nem todo caso de coluna precisa de cirurgia, e esse é um ponto crítico. A indicação cirúrgica existe quando há comprometimento neurológico grave, quando o tratamento conservador foi tentado adequadamente por período suficiente sem melhora, ou quando há instabilidade vertebral que coloca estruturas neurológicas em risco.
Fora dessas situações, a conduta conservadora bem orientada costuma ser suficiente.
Como encontrar o especialista certo para tratar a coluna
A escolha do médico que vai avaliar a coluna não deve ser aleatória. Ortopedia é uma especialidade ampla, com médicos voltados a joelho, ombro, quadril, pé e coluna.
Para problemas na coluna vertebral, o mais indicado é um ortopedista com subespecialização específica na área, o que, no Brasil, é reconhecido pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e pela Sociedade Brasileira de Coluna (SBC).
Além da formação, vale verificar o volume de atendimentos e procedimentos realizados, pois médicos que operam mais coluna tendem a ter resultados mais consistentes e a estar mais atualizados nas técnicas disponíveis.
Quem busca referências pode consultar listas dos melhores especialistas em coluna disponíveis em centros de referência, onde é possível checar credenciais, vínculos institucionais e áreas de atuação específica antes de marcar uma consulta.
Outro ponto que especialistas recomendam: a segunda opinião. Antes de aceitar uma indicação cirúrgica, vale consultar outro profissional. Uma cirurgia de coluna, mesmo minimamente invasiva, é um procedimento sério. O paciente bem informado pergunta sobre alternativas, sobre a técnica proposta, sobre a taxa de sucesso do procedimento para o seu caso específico.
Dor nas costas não é fardo: é sinal de que algo precisa ser avaliado
Há uma cultura estabelecida no Brasil, especialmente em regiões onde o trabalho manual é predominante, de que dor nas costas faz parte do preço de trabalhar. Essa ideia custa caro.
Os dados do INSS mostram que o problema não é menor e que, quando chega ao ponto de afastar o trabalhador, geralmente já passou por uma longa fase em que poderia ter sido tratado com menos custo físico e financeiro.
A mensagem dos especialistas é direta: dor que persiste por mais de duas semanas, que piora ao tossir ou espirrar, que irradia para as pernas ou que acorda durante a noite precisa de avaliação médica. Não necessariamente cirurgia, mas de diagnóstico. Porque sem saber o que é, não há como tratar.
O custo de uma consulta especializada é incomparável ao custo de meses afastado, de uma cirurgia adiada até tornar-se emergência, ou de uma dor crônica que transforma o cotidiano em rotina de limitações.
Para a coluna vertebral, como para a maioria das condições de saúde, o tempo do diagnóstico é o que separa o tratamento simples do tratamento complicado.



