Política

Trump diz que não reabrirá Ormuz e que cada país deverá se virar sozinho

Presidente faz ameaça aberta contra alvos civis e estratégicos, como instrumento de pressão política
Por Brasil 247 31/03/2026 - 15:20
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Reprodução/Instagram/@realdonaldtrump
Donald Trump
Donald Trump

Depois de incendiar ainda mais o Oriente Médio com sua agressão ao Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a chocar o cenário internacional ao declarar que Washington não ajudará a reabrir o Estreito de Ormuz e que os países prejudicados pela crise terão de comprar combustível dos próprios Estados Unidos ou “lutar por si mesmos”. A informação foi publicada pelo Valor Econômico, com base em declarações feitas por Trump nesta terça-feira em sua rede social, a Truth Social.

A nova fala do presidente explicita, de forma brutal, a lógica de intimidação, chantagem e abandono que passou a marcar a conduta da Casa Branca sob seu comando. Depois de contribuir decisivamente para o agravamento da tensão regional, Trump agora se desresponsabiliza pelos efeitos da crise e transfere a conta política, militar e econômica aos demais países atingidos pelo colapso de uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta.

Ao comentar as dificuldades de países que dependem do fluxo energético e do abastecimento de combustível de aviação via Estreito de Ormuz, Trump sugeriu que essas nações recorram aos Estados Unidos. “Temos bastante”, escreveu, em uma formulação que transforma uma crise geopolítica de enormes proporções em oportunidade comercial para Washington.

Mas a declaração mais agressiva veio em seguida. Em vez de propor qualquer ação coordenada ou diplomática, Trump afirmou que os países afetados devem agir por conta própria, sem esperar ajuda dos EUA. “Criem coragem, vão até o estreito e simplesmente TOMEM. Vocês terão que aprender a lutar por si mesmos, os EUA não estarão mais lá para ajudá-los, assim como vocês não estiveram lá para nos ajudar”, escreveu o presidente.

A mensagem representa mais do que uma bravata. Ela funciona como uma confissão política. O governo que ajudou a empurrar a região para um cenário explosivo agora anuncia, em praça pública, que não pretende sequer administrar as consequências internacionais de sua própria escalada militar. Em linguagem direta, Trump diz ao mundo que os Estados Unidos podem atacar, ameaçar e desestabilizar, mas não pretendem assumir qualquer responsabilidade posterior.

A chantagem como método


Em outra postagem, Trump declarou que o Irã “foi, essencialmente, dizimado. A parte difícil já passou”. A frase sintetiza a visão de mundo de um governo que trata guerra, destruição e soberania nacional como peças de uma negociação coercitiva. Ao afirmar que o pior já teria passado, Trump ignora os riscos concretos de uma conflagração prolongada na região e tenta vender a ideia de que a devastação produzida por sua ofensiva teria resolvido o problema.

Na segunda-feira, ele já havia dado o tom do ultimato. Disse estar em “negociações sérias” com um “novo e mais razoável regime” do Irã, ao mesmo tempo em que ameaçou destruir a infraestrutura vital do país caso não houvesse acordo rápido e caso o Estreito de Ormuz não fosse imediatamente reaberto.

A ameaça foi explícita: “Se por algum motivo um acordo não for alcançado em breve, o que provavelmente acontecerá, e se o Estreito de Ormuz não for imediatamente ‘aberto para negócios’, concluiremos nossa adorável ‘estada’ no Irã explodindo e obliterando completamente todas as suas usinas de geração de energia elétrica, poços de petróleo e a Ilha de Kharg [importante centro de produção energética do Irã], que propositalmente ainda não atacamos”.

O teor da fala dispensa eufemismos. Trata-se de uma ameaça aberta contra alvos civis e estratégicos, formulada como instrumento de pressão política. Em vez de diplomacia, o governo Trump oferece coerção. Em vez de estabilidade, produz medo. Em vez de liderança internacional, entrega ao mundo uma política externa baseada na força bruta e na humilhação pública de aliados e adversários.

Ataques a aliados expõem isolamento de Washington


Como se não bastasse o ataque verbal ao Irã, Trump também decidiu atingir países europeus. Em outra publicação, atacou a França, acusando o país de não permitir o sobrevoo de aviões carregados com suprimentos militares para Israel. Em seguida, classificou os franceses como “MUITO INÚTIL” em relação ao Irã, que, segundo ele, teria sido eliminado pelos EUA “com sucesso”.

A agressividade contra a França e a cobrança pública ao Reino Unido revelam o grau de degradação da diplomacia americana sob Trump. O que antes era apresentado por Washington como coordenação entre aliados passou a se converter em um repertório de insultos, imposições e ameaças. O resultado é a corrosão acelerada da credibilidade internacional dos Estados Unidos.

No caso britânico, Trump citou diretamente o país ao se referir aos que sofrem com falta de combustível de aviação em razão da crise em Ormuz. A observação veio acompanhada de ressentimento e cobrança política, em uma clara tentativa de exigir lealdade automática a aventuras militares conduzidas pelos EUA.

A postura evidencia um padrão: o governo Trump exige alinhamento, mas não oferece reciprocidade. Cobra engajamento, mas se reserva o direito de abandonar parceiros quando isso lhe convém. Ao dizer que os outros países terão de “lutar por si mesmos”, Trump desmonta, com as próprias palavras, qualquer pretensão americana de liderar uma ordem internacional minimamente estável.

Irã rejeita pressão e nega negociações


Do lado iraniano, a resposta foi de rejeição. O governo de Teerã afirmou que não há negociações em curso com Washington. Mesmo após conversas mantidas no domingo com os ministros das Relações Exteriores do Paquistão, Egito, Arábia Saudita e Turquia, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, voltou a classificar as propostas de paz dos Estados Unidos como “irrealistas, ilógicas e exorbitantes”.

A fala desmonta a narrativa apresentada por Trump e pela Casa Branca de que haveria avanços consistentes nas tratativas. Se, de um lado, Washington tenta vender a imagem de que pressiona para obter paz, de outro, seus próprios atos e ameaças indicam uma estratégia fundada na imposição militar e na submissão do adversário.

Na segunda-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que Trump pretendia chegar a um acordo com o Irã antes do prazo de 6 de abril, estabelecido por ele próprio na semana anterior. Segundo ela, as conversas estariam progredindo e o Irã falaria publicamente de forma distinta do que comunica aos americanos nas negociações.

Leavitt também afirmou que Trump cogitava cobrar dos países árabes os custos da guerra. “É uma ideia que sei que ele tem e algo sobre o qual acho que vocês ouvirão mais dele”, disse. A declaração reforça a lógica mercantil e imperial da atual Casa Branca: além de desencadear a crise, Washington ainda pretende repassar financeiramente aos demais atores regionais o preço da devastação.

Escalada militar amplia risco regional


Enquanto a retórica se radicaliza, a movimentação militar dos Estados Unidos no Oriente Médio também se intensifica. Segundo a Reuters, milhares de soldados da 82ª Divisão Aerotransportada, unidade de elite do Exército americano, começaram a chegar à região, somando-se aos milhares de marinheiros, fuzileiros navais e forças de operações especiais já enviados. A agência informou ainda que cerca de 2.500 fuzileiros navais chegaram ao Oriente Médio durante o fim de semana, enquanto o Financial Times noticiou no domingo que o Pentágono ordenou o envio de 10 mil soldados adicionais.

Esse reforço militar deixa cada vez mais evidente a contradição central do discurso trumpista. Ao mesmo tempo em que ameaça abandonar aliados e diz que cada país deve se virar sozinho, Trump amplia a presença militar americana e mantém a região sob permanente risco de explosão. Ou seja: os EUA não renunciam ao poder de intervenção, apenas recusam qualquer responsabilidade política e moral sobre os desdobramentos dessa intervenção.

Trata-se de uma combinação explosiva de belicismo, cinismo e oportunismo econômico. O governo americano incentiva a confrontação, tenta lucrar com a crise energética, ameaça destruir infraestrutura essencial de um país soberano e ainda humilha publicamente seus próprios parceiros internacionais.

Internamente, Trump chega a esse novo episódio de escalada cercado por desgaste político. Pesquisa recente da AP-NORC mostrou que sua aprovação geral gira em torno de 40%, enquanto 59% dos americanos avaliam que a ação militar dos EUA contra o Irã foi longe demais.

A declaração sobre Ormuz, portanto, não é apenas mais uma frase provocadora. Ela sintetiza um governo que perde apoio interno, compromete a imagem internacional dos Estados Unidos e transforma crises globais em instrumentos de coerção, negócio e propaganda. Ao dizer que o mundo deve comprar combustível dos EUA ou “lutar por si mesmo”, Trump não apenas abandona qualquer verniz diplomático. Ele confirma, de forma crua, que sua política externa se move pela força, pelo interesse imediato e pelo desprezo às consequências humanas e geopolíticas de seus atos.


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