LITERATURA

Sensibilidade sensorial muda rotina de escritora e inspira criação de livro

Natti Belém relata os desafios de conviver com a condição e as mudanças no dia a dia
Reprodução
Natti Belém conta sua experiência e os desafios da extrema sensibilidade
Natti Belém conta sua experiência e os desafios da extrema sensibilidade

O que antes era uma rotina marcada por estudos de idiomas, exercícios físicos, trabalho e treinos de tênis de mesa deu lugar a dias dentro de um quarto, com horários calculados até para ir ao banheiro ou tomar banho. A escritora alagoana Natti Belém passou a restringir sua rotina após sintomas que, segundo ela, se intensificaram durante uma investigação neurológica e evoluíram para uma hipersensibilidade sensorial. Sons do trânsito, barulhos de obras e outros estímulos passaram a ocasionar crises, fazendo do quarto um espaço onde conseguia permanecer com menos exposição aos ruídos.

Em entrevista ao EXTRA, Natti contou como a mudança na rotina influenciou sua escrita e deu origem ao livro Casulo de Leão – O que sai de um. A obra reúne reflexões surgidas durante esse período e parte da ideia de metamorfose para representar o processo vivido pela escritora.

Você conta que passou a viver praticamente dentro do quarto por causa da hipersensibilidade sensorial. Como essa mudança aconteceu e como era sua rotina antes desse período?


Devido a alguns sintomas, comecei uma investigação neurológica e evoluiu para essa hipersensibilidade. Eu sempre fui sensível, mas não no nível que estou agora. Onde eu morava, era muito barulhento, trânsito movimentado, reformas constantes em vizinhos e isso começou a desencadear crises mais frequentes (meu olho não abria, pernas falhavam, não sustentava o tronco, muito cansaço). A rota de fuga foi o quarto, selaram a janela, passei a ficar mais tempo nele. Eu tinha que observar os horários do trânsito para poder ir ao banheiro, tomar banho. Comer, era no quarto. Depois, nos mudamos, mas, tinha que ficar atenta aos horários do trem. E aos sons inesperados que surgiam da rua. Mesmo usando tampões, eu ainda consigo ouvir. Os headphones, eu não consigo, pois, minha cabeça pende (devido a outros sintomas). Não consigo ouvir músicas ou assistir vídeos. Antes, eu estudava idiomas, fazia exercícios físicos, trabalhava, tinha começado a treinar tênis de mesa, vivia de um lado para outro. Mesmo tendo alguns sintomas mais leves, eu ainda conseguia ter uma vida “mais normal”.

Em que momento você percebeu que as experiências que estava vivendo poderiam se transformar em um livro? Como e quando surgiu a ideia de escrever um livro sobre sua rotina?


Para passar por essa fase que estou passando, eu tenho acompanhamento psicológico e sempre gostei de escrever, então, tanto a minha psicóloga quanto os meus amigos em redes sociais me incentivaram a escrevê-lo. E eu sou muito reflexiva, então, esses momentos de crises e de investigação neurológica me causam várias ideias. E sei que muita gente passa por dificuldades de saúde e patologias raras que assustam, então, a disseminação de algo com otimismo vejo com muita importância.

Por que “Casulo de Leão – O que sai de um” foi o título escolhido para representar essa experiência?


Em um dos meus textos e conversas com meus amigos, saiu a ideia de metamorfose, se meu quarto, minha situação estava me preparando para uma transformação. E o que ele me faz experimentar, pensar, o que vai sair disso tudo.

O que o “casulo” representa para você? E por que um leão dentro dessa metáfora?


Representa um processo de transformação. Leão é minha referência desde criança, porque, eu sou leonina e tenho uma personalidade, de como a minha médica me falou e me marcou: “o seu perfil é de não desistir”.




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