CINEMA
A Fabulosa Máquina do Tempo de Eliza Capai nos devolve à infância
Filme estreia 30 de julho e já tem destaque em vários festivais nacionais e internacionaisEliza Capai retorna a um terreno que já conhece: Guaribas, no Piauí, onde esteve em 2013 e 2021 para acompanhar a vida das mulheres dessa cidade que marcou o início do programa Fome Zero, atual Bolsa Família, programa do governo federal. Anos depois, em A Fabulosa Máquina do Tempo, a diretora revisita o lugar para ouvir um grupo de crianças e colocá-las no centro da narrativa.
A diretora Eliza Capai construiu uma carreira reconhecida por documentários que exploram questões de gênero e transformações sociais. Convidada a integrar a Academia do Oscar em 2025, a cineasta dirigiu produções como Tão Longe é Aqui, Espero Tua (Re)Volta, Incompatível com a Vida e a série documental Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, da Netflix.
Em A Fabulosa Máquina do Tempo, o reconhecimento se repete com a estreia mundial no Festival de Berlim, onde abriu a mostra Generation Kplus, conquistou o prêmio de Melhor Feito Técnico-Artístico no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e quatro Troféus Calunga no Cine PE, entre eles os de Melhor Direção e Melhor Longa-metragem pela ABRACCINE.
"Eu acabo gravando essas meninas e o grupo de amigas delas quando a gente volta, em 2024. A brincadeira da máquina do tempo envolvia elas voltarem ao passado e entender como era a vida das mães, das avós, e poder entrar nessa máquina do tempo e realizar os próprios sonhos. Cada um que vai assistir ao filme pode vê a sua própria máquina do tempo, porque ver um filme protagonizado por crianças, com a ludicidade que ele tem, de acompanhar as brincadeiras e criar junto com elas, nos permite também viajar nas nossas memórias. E as nossas memórias são uma máquina do tempo."
O olhar infantil desafia o mundo dos adultos
O documentário oferece uma viagem à infância dessas crianças. Ao ouvir as meninas: Manu, Sophia, Manuelinha, Alice, Larissa Manuela, Safira, Thaemmy e entre outras que vivem em Guaribas, Capai não as reduz a uma inocência. Ao contrário, fica evidente que elas têm muito mais a nos dizer do que nós teríamos a lhes ensinar.
Eliza Capai respeita o imaginário e o ponto de vista de suas personagens, confrontando-as aos dilemas do amadurecimento. Ao serem entrevistadas no filme pela diretora, as meninas são estimuladas a discutir a origem do mundo, as diferenças entre homens e mulheres, as profissões que sonham exercer e até a importância da religião.
O roteiro do documentário é elaborado a partir de oficinas de vídeo realizadas com as meninas e revela para elas como a câmera pode ser um espaço onde a imaginação não encontra limites: “A gente resolve acompanhar algumas dessas crianças filmando e entrevistando a própria mãe. Esse exercício da oficina vai sendo incorporado ao filme. Depois das entrevistas, elas iam brincar como forma de elaborar o que tinham aprendido”, ressalta Capai em entrevista ao EXTRA.
Capai volta a Guaribas para revelar essa outra infância, marcada pelo impacto do Bolsa Família e pela capacidade de poder fantasiar novos caminhos. No filme, a criatividade aparece como uma espécie de superpoder para elas, capaz de criar possibilidades para um futuro diferente. Se antes o sonho de muitas mulheres estava associado ao casamento, a diretora acompanha meninas que, ao brincarem com a máquina do tempo, projetam outros destinos, como serem enfermeiras, policiais ou atrizes.
Passado e futuro se contrariam
A Fabulosa Máquina do Tempo encontra sua força nas contradições que atravessam as crianças. Enquanto as meninas imaginam viagens ao futuro e se perguntam se ele já existe, as mães revelam o desejo de voltar ao passado e em mudar o rumo de suas vidas. Capai não tenta conciliar essas perspectivas nem impor uma interpretação sobre elas. Ao preservar o imaginário de suas protagonistas, a diretora elabora um retrato que vai além da infância e convida o espectador a refletir sobre o Brasil, suas desigualdades e seus contrastes, a partir da experiência dessas meninas, sem abrir mão do encanto e da leveza que acompanham toda a narrativa.

“A gente tinha muita curiosidade de entender o que significava a saída da miséria e o rompimento do machismo estrutural a partir da visão dessas meninas. Era um desejo de observar como elas, que são as mais afetadas por essa realidade, enxergavam essa situação. De alguma forma, elas foram nos conduzindo pro mundo delas e mostrando como compreendiam as coisas”
Ao explorar a utopia, o documentário também evidencia como a imaginação pode ser transformadora quando encontra coragem como as meninas para usá-la e fazer se aproximar da realidade. A própria Capai reflete sobre essa ideia: "Eu penso na Fabulosa Máquina do Tempo como uma possibilidade da gente sonhar mundos em que a gente queira que as nossas crianças vivam, em sonhar utopias e não distopias como o cinema muitas vezes faz", afirma.
Após percorrer festivais e conquistar reconhecimento internacional, A Fabulosa Máquina do Tempo estreia nos cinemas brasileiros em 30 de julho. A expectativa de Eliza Capai é que o público aproveite a experiência para se reconectar com a própria infância e com a capacidade de sonhar.
"Então eu espero que as pessoas tenham a oportunidade de assistir ao filme agora nos cinemas e se conectar com a criança que existe dentro de cada um de nós. Ser capaz de se conectar com o sonho, pensar como eu gostaria de viver, que planeta eu gostaria de deixar para crianças, e entender que isso é possível", destaca a diretora.



