Carambola 2026
Budah transforma vivências, racismo e resistência em potência no rap
Cantora e rapper capixaba se apresenta em Maceió no dia 14 de novembro
“Rima e poesia” é o significado da sigla RAP. Na verdade, o rap tem um significado mais profundo para uma comunidade. O gênero que nasce nas periferias do mundo e domina os fones de ouvido é um manifesto sonoro. Artistas como a capixaba Budah conseguem conectar ouvintes de todos os lugares a partir de letras incisivas capazes de mudar trajetórias.
Aos 29 anos, Budah é um dos nomes representantes do rap nacional. Seu estilo melódico, com influências de um repertório variado, diferentes referências e identidade própria, logo conquistou a cena musical.
No fundo, Budah sempre soube que seria artista. A música sempre esteve ao seu redor: vivia em um lar musical e seu pai era sambista. Cria do grafite e das batalhas de rima nas ruas de Vitória, de Brendha Rangel nasceu Budah. O apelido veio devido ao seu visual de coque e alargador.
No começo da carreira, trabalhou em lanchonete e vendeu perfume na praia para conseguir fazer suas primeiras gravações. Ela conta que momentos como esse ajudam a manter-se fiel a si mesma e a lembrar de tudo o que alcançou.
Já conhecida na comunidade do rap de Vitória, sua primeira música autoral, “Neguin”, lançada em 2017, expandiu fronteiras locais e viralizou. Em 2019, a faixa “Licor” marcou uma mudança: “Ali alguma coisa me atravessou de um jeito diferente e eu tive certeza de que era aquilo que eu queria para a minha vida”.
Em 2024, o álbum Púrpura foi uma estreia e tanto — com feats de Delacruz, TZ da Coronel e MC Luanna, o projeto sensual externava suas vivências com o amor.
No dia 14 de novembro, Budah sobe ao palco do Carambola com a turnê de seu novo álbum, FREQUÊNCIA LUNAR. Ela conta que saiu da zona de conforto. Um álbum conceitual baseado nas fases da lua, com sonoridades que vão do boom bap ao pop, as músicas seguem a linearidade de uma noite na pista de dança, começando no pôr do sol e terminando ao amanhecer.
O rap passa por uma revolução feminina. Antes conhecido por ser um estilo musical masculino, hoje as mulheres o dominam, mas a batalha contra a desigualdade de gênero e de raça continua: “Hoje tenho ainda mais vontade de falar sobre quem eu sou, sobre as minhas vivências, meus sentimentos e situações do cotidiano, porque sei que do outro lado pode ter uma mulher que está passando pela mesma coisa. E se ela consegue se enxergar em mim e pensar que também pode ocupar os lugares que sonha, isso já valeu tudo!”.
Confira a entrevista exclusiva em que Budah reflete sobre manter a essência em meio ao racismo e à força do rap de mudar mentalidades e ser referência para outras meninas negras.
1-Você já trabalhou em lanchonete e vendeu perfume na praia para conseguir fazer suas primeiras gravações. Olhando para trás, o que você traz dessa versão do passado para a sua vida e carreira de hoje?
BUDAH: Acho que principalmente a coragem e a vontade de não desistir dos meus sonhos. Parece clichê falar sobre acreditar, mas na minha trajetória isso faz muito sentido, porque eu realmente precisei acreditar em mim quando muita coisa ainda parecia distante. Também trago muito essa coisa de ser pé no chão, de lembrar de onde eu vim, da minha família e das pessoas que estavam comigo quando tudo começou. Acho que isso me ajuda a não perder a minha essência, independentemente de onde a música ainda possa me levar.
2-Você diz que “Todos sabiam que você ia ser artista”. Em qual momento específico a ficha caiu para você de que a música era o seu caminho?
BUDAH: A música sempre esteve muito presente na minha vida. Meu pai tinha banda, então dentro de casa sempre teve música, karaokê, todo mundo cantando junto. Depois comecei a fazer parte da cena cultural da música urbana de Vitória, mas ainda não tinha essa certeza de que conseguiria viver disso. A ficha caiu mesmo depois de lançar “Licor”, de toda produção que rolou pra essa faixa. Ali alguma coisa me atravessou de um jeito diferente e eu tive certeza de que era aquilo que eu queria para a minha vida.
3-Foi um disco feito para a noite e inspirado nas fases da lua. Quais foram as maiores inspirações para esse conceito e como foi a construção dessa sonoridade, foi de Badu até SZA?
BUDAH: Durante o processo, percebemos que as letras e as sonoridades pareciam acompanhar uma noite inteira, começando no pôr do sol e chegando até o amanhecer. Foi aí que o conceito de FREQUÊNCIA LUNAR ficou ainda mais claro para mim. E pra amarrar isso a gente pesquisou bastante sobre frequências sonoras e também sobre as fases da lua, como elas influenciam nossos ritmos, energia e momentos de introspecção. Musicalmente, eu também queria sair um pouco da minha zona de conforto, que sempre foi muito ligada ao R&B. Quis experimentar outras sonoridades como o boombap, afiar minha caneta e me mostrar de uma forma mais direta, que tem muito a ver com a mulher que eu sou hoje. Erykah Badu, SZA e outras referências que sempre fizeram parte do meu repertório estão ali, mas a gente também experimentou outros caminhos até chegar no resultado final.
4-Com o mercado cobrando faixas feitas sob para viralizar nas redes sociais, como você lida com essa pressão para se manter fiel à sua essência na cena do rap?
BUDAH: Gosto de ouvir muito a minha intuição e o meu instinto. Tenho uma equipe incrível que me apresenta ideias e caminhos, mas eu me envolvo 100% em tudo que faço. Em FREQUÊNCIA LUNAR, por exemplo, fiquei muito insegura em vários momentos porque estava me arriscando e mostrando outros lados meus. Só que fui com medo mesmo. Hoje, vendo a recepção do público, principalmente nos shows, tenho certeza de que foi a escolha certa. É o meu trabalho mais completo e eu não mudaria nada nele.
5-A música Meu Crime É Existir é uma exceção em meio a faixas dançantes. Qual a importância de falar sobre o racismo na sua obra e de que forma esse assunto ainda atravessa o seu cotidiano, mesmo com a fama?
BUDAH: “Meu Crime É Existir” fala de uma coisa que eu vivi e que continuo vivendo. Inclusive, a situação que inspirou a música aconteceu quando eu cheguei em São Paulo. Ser uma artista conhecida não faz com que o racismo deixe de me atravessar. Acho importante falar sobre isso porque grande parte do meu público é formada por pessoas negras, principalmente mulheres, e quando eu conto uma experiência minha, muitas delas se reconhecem também. Isso cria uma conexão entre a gente e, ao mesmo tempo, abre espaço para um debate que ainda é muito necessário. Infelizmente, não importa o tamanho do seu nome, o lugar que você ocupa ou o que você conquistou, o racismo sempre encontra uma forma de te lembrar que você é uma pessoa negra.
6-O rap tem uma força enorme de mudar mentalidades, especialmente para o público feminino e negro. Como você percebe isso?
BUDAH: Por muito tempo eu não tinha dimensão de que poderia ser referência para outras meninas negras. Quando comecei a receber mensagens, encontrar o público nos shows e perceber que elas se enxergavam em mim, entendi que a minha voz tinha uma importância que ia além da música. Isso também me fez entender melhor o meu propósito. Hoje tenho ainda mais vontade de falar sobre quem eu sou, sobre as minhas vivências, meus sentimentos e situações do cotidiano, porque sei que do outro lado pode ter uma mulher que está passando pela mesma coisa. E se ela consegue se enxergar em mim e pensar que também pode ocupar os lugares que sonha, isso já valeu tudo!



