SAÚDE

Mancha que não passa e ferida que não cicatriza: sinais de alerta na pele

Diagnósticos tardios de doenças de pele seguem sendo um problema de saúde pública no Brasil
08/03/2026 - 21:42
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Mancha que não passa, ferida que não cicatriza: quando a pele avisa que o problema é mais sério do que parece
Mancha que não passa, ferida que não cicatriza: quando a pele avisa que o problema é mais sério do que parece

Uma ferida no rosto que sangra toda vez que a pessoa esfrega o rosto. Uma mancha escura que apareceu há dois anos e foi crescendo devagar. Um nódulo no pescoço que o clínico geral mandou observar por mais alguns meses. Em muitos casos, esses sinais chegam ao dermatologista tarde. Às vezes tarde demais para um tratamento simples.

O câncer de pele é o tumor maligno mais diagnosticado no Brasil. Segundo o Instituto Nacional do Câncer, os tumores cutâneos não melanoma correspondem a 31,3% de todos os cânceres registrados no país.

Em números absolutos, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) documentou 72.728 diagnósticos em 2024, um aumento de mais de 17 vezes em relação aos 4.237 casos registrados em 2014.

Parte desse crescimento reflete avanços no registro e na identificação da doença, mas os especialistas alertam que o ritmo de expansão é real e não pode ser atribuído apenas a melhoras no sistema de notificação.

O problema não está só nos números. Está no tempo. E no tempo perdido antes do diagnóstico.

O que os dados mostram sobre o diagnóstico tardio

A Sociedade Brasileira de Dermatologia acompanhou, entre 2014 e 2025, o intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento em diferentes regiões do Brasil. Os resultados indicam que no Sul e no Sudeste a maioria dos pacientes começa a terapêutica em até 30 dias após a confirmação do caso.

No Norte e no Nordeste, a espera frequentemente ultrapassa dois meses. Dois meses em que uma lesão de melanoma pode aprofundar sua invasão nos tecidos e exigir procedimentos muito mais agressivos do que seriam necessários se o diagnóstico tivesse chegado antes.

Essa diferença regional não é só geográfica. Ela é também uma questão de acesso. Dados da SBD mostram que usuários do Sistema Único de Saúde enfrentam 2,6 vezes mais dificuldade para agendar uma consulta com dermatologista em comparação a quem utiliza a rede privada.

O exame clínico visual segue sendo a principal porta de entrada para o diagnóstico, o que significa que qualquer barreira ao acesso ao especialista atrasa diretamente a identificação das lesões.

Por que a pele pode enganar o paciente e o médico

Uma característica que torna o câncer de pele especialmente perigoso em termos de diagnóstico tardio é o ritmo lento de desenvolvimento da maioria das lesões.

O carcinoma basocelular, tipo mais comum de câncer de pele, cresce de forma gradual e durante longos períodos pode parecer apenas uma ferida que demora a cicatrizar, uma mancha rosada, ou um ponto elevado que o paciente associa a uma espinha. Sem dor e sem sangramento frequente nas fases iniciais, a tendência é aguardar.

O melanoma, por outro lado, é menos comum mas muito mais letal. Ele tem origem nos melanócitos, as células responsáveis pela pigmentação da pele, e pode se desenvolver a partir de uma pinta existente ou surgir em pele normal.

A Federação Internacional de Dermatologia estima que o melanoma representou cerca de 325 mil novos casos no mundo em 2020. No Brasil, as estimativas do INCA para o triênio 2023-2025 apontam cerca de 8.980 casos por ano.

Quando identificado em estágios iniciais, a taxa de cura ultrapassa 95%. Quando diagnosticado em estágio avançado, com metástases, o prognóstico muda de forma dramática.

O problema está em que tanto o paciente quanto o médico generalista podem subestimar a queixa. Uma lesão lenta, sem sintomas claros, raramente gera urgência. O paciente adia a consulta especializada.

O clínico, sem treinamento específico em dermatoscopia, pode interpretar a lesão como benigna e orientar apenas observação. O tempo passa. A lesão avança.

Acne, melasma e outras condições que também exigem avaliação especializada

O câncer de pele não é a única condição dermatológica que perde com o diagnóstico tardio. O Inquérito Epidemiológico da SBD 2024, que reuniu dados de 300 dermatologistas e mais de 26 mil atendimentos em todo o país, revelou que a acne foi o diagnóstico mais frequente nos consultórios privados, respondendo por 9,5% dos casos, com quase 80% dos atendimentos concentrados na rede particular.

O levantamento também identificou psoríase em 7,1% dos registros, uma doença crônica que, quando não acompanhada de perto, tende a se tornar mais difícil de controlar.

O melasma, caracterizado por manchas escuras que surgem principalmente no rosto, é outra condição que afeta significativamente a qualidade de vida de quem convive com ela sem tratamento adequado.

Sua origem costuma estar relacionada a fatores hormonais e à exposição solar sem proteção. Sem a identificação correta do tipo de melasma e sem o protocolo adequado, muitos pacientes usam produtos por conta própria que pioram o quadro antes de procurar o especialista.

Em todos esses casos, o tempo entre o início dos sintomas e a primeira consulta com um dermatologista costuma ser longo. Os dados do inquérito da SBD mostram que, na rede privada, 42,8% das consultas em 2024 foram primeiras avaliações.

Na rede pública, esse número cai para 31,3%, o que sugere que uma parte relevante dos pacientes do SUS chega ao dermatologista apenas em retornos, possivelmente já encaminhados por outros serviços de saúde após algum agravamento do caso.

O que verificar antes de marcar uma consulta dermatológica

Para quem está avaliando como encontrar um atendimento dermatológico qualificado, alguns critérios são relevantes. A formação do profissional é o ponto de partida.

A especialidade em dermatologia exige residência médica ou prova de título reconhecida pela SBD. Além da formação básica, subespecializações como dermatoscopia, cosmiatria e dermatologia cirúrgica indicam aprofundamento em áreas específicas.

A dermatoscopia, por exemplo, é uma técnica que permite ao médico analisar lesões pigmentadas com ampliação e iluminação especial, reduzindo de forma significativa os diagnósticos equivocados de melanoma.

Pacientes que buscam um acompanhamento completo, com avaliação clínica e estética integradas, devem considerar a formação e a estrutura da clínica antes de agendar. Consultar o perfil de uma médica dermatologista especializada, com formação sólida e equipamentos adequados, é o caminho mais seguro para quem quer ir além de uma triagem básica.

A frequência do acompanhamento também importa. Para pacientes sem histórico de lesões suspeitas, a recomendação geral dos dermatologistas é de pelo menos uma consulta anual para o chamado mapeamento de manchas.

Para quem tem histórico familiar de melanoma, pele clara, histórico de queimaduras solares repetidas ou grande número de pintas, a periodicidade pode ser menor.

O papel da tecnologia no diagnóstico precoce

A dermatologia passou por mudanças relevantes nas últimas duas décadas no que se refere a equipamentos de diagnóstico. A dermatoscopia digital permite não apenas analisar uma lesão em um momento específico, mas também registrar e comparar imagens ao longo do tempo, identificando alterações que o olho humano não captura em consultas avulsas.

O mapeamento corporal total, técnica em que todo o corpo é fotografado em alta resolução para comparação em consultas futuras, já está disponível em clínicas mais equipadas e representa um salto na detecção precoce de melanomas.

No campo dos tratamentos, tecnologias como laser ablativo, radiofrequência e fototerapia ampliaram o espectro de condições que podem ser tratadas com menor grau de invasão.

O que antes exigia cirurgia pode, em muitos casos, ser resolvido com procedimentos ambulatoriais de menor tempo de recuperação. O acesso a essas tecnologias, no entanto, segue concentrado no setor privado e em regiões com maior densidade de profissionais especializados.

Quando a suspeita deve levar à consulta imediata

Alguns sinais na pele pedem avaliação sem demora. Uma ferida que não cicatriza em até quatro semanas, mesmo sem causa aparente, é um deles. Sangramento recorrente em uma lesão, sem contato ou trauma direto, é outro.

Conforme destaca a Dra. Mariana Cabral, especialista em dermatologia radicada em Goiânia, pintas que mudam de forma, aumentam rapidamente de tamanho, apresentam bordas irregulares ou mais de uma coloração também entram na lista de alertas.

A regra do ABCDE da dermatologia resume esses sinais de forma prática. A corresponde a assimetria, B a bordas irregulares, C a cores variadas dentro de uma mesma lesão, D a diâmetro maior do que seis milímetros e E a evolução, ou seja, qualquer mudança perceptível ao longo do tempo.

A presença de um ou mais desses critérios em uma pinta ou mancha justifica a busca por avaliação especializada sem aguardar o próximo retorno de rotina.

Para condições como acne intensa, queda de cabelo repentina, urticária recorrente sem causa identificada ou surgimento de manchas com contornos definidos em diferentes partes do corpo, a recomendação também é não aguardar pela piora do quadro. O diagnóstico precoce nessas situações costuma reduzir o tempo de tratamento e evitar sequelas.

O diagnóstico cedo muda o tratamento

Os dados reunidos pela Sociedade Brasileira de Dermatologia ao longo dos últimos anos deixam uma conclusão clara. O acesso ao dermatologista, quando feito antes do agravamento do quadro, altera de forma substantiva o tipo de intervenção necessária.

Uma lesão identificada em estágio inicial exige procedimento local simples. A mesma lesão, dois anos depois, pode demandar cirurgia extensa, reconstrução e acompanhamento oncológico prolongado.

O crescimento expressivo nos diagnósticos de câncer de pele no Brasil, de 4.237 casos em 2014 para 72.728 em 2024, não é apenas um alerta epidemiológico. É também um indicador de que mais pessoas estão chegando ao especialista, o que é positivo.

O desafio que persiste é fazer com que esse acesso aconteça antes, nos estágios em que o tratamento é mais simples, menos invasivo e com maiores chances de cura completa.

Pele saudável não é apenas uma questão estética. É o maior órgão do corpo humano e o primeiro a sinalizar desequilíbrios que podem ter consequências sérias se ignorados por tempo suficiente.

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