SAÚDE

Cansaço, peso e queda de cabelo: quando sintomas da tireoide são ignorados

Glândula que regula quase tudo no organismo humano ainda é alvo de diagnóstico tardio
08/03/2026 - 21:47
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Cansaço, ganho de peso e queda de cabelo: quando os sintomas da tireoide são ignorados por anos
Cansaço, ganho de peso e queda de cabelo: quando os sintomas da tireoide são ignorados por anos

Seis meses de cansaço que não passa, cabelo que cai com mais intensidade do que o normal, peso que sobe sem mudança de hábitos e um sono que nunca parece suficiente. Para muitas mulheres brasileiras, esse conjunto de sintomas é tratado como estresse, menopausa precoce ou simplesmente envelhecimento. O problema, na maioria dos casos, tem outra origem: a tireoide.

A glândula em formato de borboleta, localizada na base do pescoço, é responsável pela produção dos hormônios T3 e T4, que regulam o metabolismo, os batimentos cardíacos, a temperatura corporal, o ciclo menstrual, a fertilidade, a memória e o humor.

Quando ela para de funcionar como deveria, praticamente todos os sistemas do organismo sentem. O hipotireoidismo, condição em que a tireoide produz hormônios em quantidade insuficiente, afeta cerca de 18 milhões de brasileiros, segundo estimativas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

O número assusta menos do que o que vem depois: uma proporção significativa desses pacientes não sabe que tem a doença. E no Norte e no Nordeste, onde o acesso a serviços especializados ainda é menor do que nas capitais do Sul e Sudeste, a subnotificação é mais acentuada.

Uma doença que se esconde nos sintomas do dia a dia

O problema do hipotireoidismo não está apenas na sua prevalência. Está, sobretudo, na dificuldade de reconhecê-lo. Os sintomas são difusos e, com frequência, confundidos com outras condições.

Cansaço, queda de cabelo, pele seca, intestino preso, sensação de frio constante, ganho de peso sem causa aparente, sonolência, alteração de humor e dificuldade de concentração. Esses são os sinais mais comuns. O ponto crítico é que cada um deles, isolado, pode ser atribuído a dezenas de outras causas. Por isso, o diagnóstico demora.

Uma pesquisa conduzida em parceria com o Instituto Minds4Health mostrou que, em 65% dos casos, o diagnóstico do hipotireoidismo só aconteceu durante um check-up geral de rotina.

Apenas 30% dos pacientes foram ao médico por conta de algum sintoma específico. Isso significa que, para a maioria das pessoas com a doença, o caminho até o tratamento passa pela sorte de um exame de sangue pedido por outro motivo.

A principal causa do hipotireoidismo em adultos é a tireoidite de Hashimoto, uma condição autoimune que responde por aproximadamente 80% dos casos. Nela, o sistema imunológico ataca a glândula e compromete progressivamente sua capacidade de produzir hormônios. A doença afeta mulheres de 10 a 15 vezes mais do que homens, com maior incidência após os 40 anos.

Nódulos na tireoide: o que os dados dizem

O hipotireoidismo não é o único problema que a glândula pode apresentar. Os nódulos tireoidianos são extremamente comuns. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia estima que 60% da população brasileira vai desenvolver nódulos na tireoide em algum momento da vida.

A maioria desses nódulos é benigna. Dados de pesquisas clínicas indicam que apenas 5% do total de nódulos tireoidianos são malignos. O problema está em identificar esses 5% a tempo. Para isso, é necessário acompanhamento médico periódico, com exames de imagem como a ultrassonografia e, quando indicado, biópsia por punção.

O câncer de tireoide, por sua vez, tem mostrado crescimento de incidência no Brasil. Entre os anos 2000 e 2024, a incidência cresceu de forma linear e progressiva, segundo revisão publicada em periódico científico brasileiro com base em dados do INCA e do DATASUS. Para cada ano do triênio 2020-2022, foram estimados cerca de 11.950 novos casos de câncer de tireoide em mulheres no país.

Apesar do número, o prognóstico, quando o diagnóstico é feito no momento certo, é amplamente favorável. A taxa de sobrevida global para o tipo mais comum, o carcinoma papilífero, é estimada em 95%. O desafio, novamente, está na detecção precoce.

O Nordeste e o acesso ao especialista

As desigualdades regionais no diagnóstico de doenças da tireoide são documentadas. Estudos indicam que as regiões Sul e Sudeste concentram maior incidência registrada justamente porque há mais centros de diagnóstico disponíveis, mais ultrassons e mais endocrinologistas por habitante. No Norte e no Nordeste, as limitações estruturais levam à subnotificação.

Isso não significa que os casos sejam menos frequentes. Significa que parte deles nunca chega a ser diagnosticada. Para quem mora em Alagoas ou em outro estado nordestino com sintomas que poderiam ser de tireoide, a distância até um endocrinologista pode ser o fator decisivo entre tratar ou conviver com uma condição que se agrava silenciosamente.

A boa notícia é que o diagnóstico do hipotireoidismo é simples e de baixo custo. Um exame de sangue que avalia os níveis de TSH e T4 livre é suficiente para identificar a alteração. O problema, como apontam especialistas do Departamento de Tireoide da SBEM, é que uma proporção significativa dos portadores da doença simplesmente não sabe que precisa fazer esse exame.

Quando buscar um endocrinologista especializado

Nem todo caso de tireoide alterada exige um especialista. Mas há situações em que a avaliação de um endocrinologista especialista em tireoide faz diferença direta no resultado do tratamento.

A primeira é quando o diagnóstico já está fechado mas o tratamento não está produzindo os resultados esperados. O hipotireoidismo é tratado com reposição de levotiroxina, mas ajustar a dose correta exige monitoramento regular e, em alguns casos, avaliação mais aprofundada dos fatores que interferem na absorção do medicamento. Cerca de 25% dos pacientes diagnosticados não fazem o tratamento da forma adequada, segundo dados do Instituto Minds4Health.

A segunda situação é quando há nódulos identificados em exame de imagem. Nesse caso, o endocrinologista é quem define o protocolo de acompanhamento, determina se a biópsia é necessária e avalia o risco de malignidade com base em critérios específicos, como o tamanho, as características ecográficas e o histórico do paciente.

A terceira é quando os sintomas persistem mesmo sem diagnóstico fechado. Hipertireoidismo, hipotireoidismo subclínico, doença de Graves e tireoidite de Hashimoto têm apresentações clínicas distintas e podem coexistir com outras condições endócrinas, como diabetes, síndrome dos ovários policísticos e distúrbios da hipófise. A avaliação especializada reduz o risco de diagnóstico equivocado.

O tratamento e o que esperar dele

Para o hipotireoidismo clínico, o tratamento é medicamentoso e contínuo. A levotiroxina é o hormônio tireoidiano sintético que substitui o que a glândula deixou de produzir. O objetivo é normalizar os níveis de TSH e T4 livre e, com isso, reverter os sintomas.

O processo de ajuste pode levar semanas. A dose inicial é calibrada pelo endocrinologista e reavaliada por exames de sangue periódicos. Em mulheres na gestação, o controle é ainda mais rigoroso, porque o hipotireoidismo não tratado aumenta o risco de complicações obstétricas e afeta o desenvolvimento neurológico do bebê.

Para o hipertireoidismo, as opções incluem medicamentos que reduzem a produção hormonal, iodo radioativo ou, em casos específicos, intervenção cirúrgica. A escolha depende da causa, da intensidade dos sintomas e do perfil do paciente.

Em qualquer dos casos, o acompanhamento não termina com a prescrição. A tireoide é uma glândula dinâmica, sujeita a variações ao longo da vida. Fatores como gravidez, menopausa, uso de outros medicamentos e mudanças no peso corporal podem alterar as necessidades hormonais do paciente. Daí a importância do retorno regular ao especialista.

O que o paciente pode fazer antes da consulta

Registrar os sintomas com precisão ajuda muito na consulta. Anotar há quanto tempo o cansaço apareceu, se houve mudança no peso sem mudança de hábitos, se há alteração no ciclo menstrual, se a queda de cabelo piorou e se existe algum histórico familiar de doença na tireoide são informações que o médico vai perguntar e que fazem diferença na condução do diagnóstico.

De acordo com a Dra. Camila Farias, profissional da endocrinologia com atuação em Goiânia, o autoexame da tireoide também pode ser feito em casa. A recomendação da SBEM é que mulheres, especialmente acima dos 40 anos, realizem o autoexame regularmente: com um espelho na mão e a cabeça levemente inclinada para trás, observar a base do pescoço enquanto engole saliva. Qualquer aumento de volume ou abaulamento na região merece avaliação médica.

Exames laboratoriais anteriores, especialmente os que incluem TSH e T4 livre, também devem ser levados à consulta para que o médico possa avaliar a evolução dos valores ao longo do tempo. Quando há nódulos previamente identificados, trazer o laudo da ultrassonografia facilita o trabalho do especialista.

Diagnóstico precoce muda o prognóstico

A tireoide raramente mata diretamente. Mas quando suas disfunções ficam sem diagnóstico por anos, os efeitos se acumulam. Hipotireoidismo não tratado aumenta o risco de doença arterial coronariana, anemia, alterações neurológicas e complicações em gestações. O câncer de tireoide, diagnosticado tarde, reduz as chances de um prognóstico favorável.

O dado que resume bem o cenário é este: o diagnóstico do hipotireoidismo custa pouco e é feito por exame de sangue simples. O tratamento, quando indicado, é acessível. O que falta, na maior parte dos casos, é que o paciente chegue até o especialista antes de acumular anos de sintomas que diminuem a qualidade de vida sem que a causa seja identificada.

Para quem reconhece sintomas que podem estar relacionados à tireoide, o primeiro passo é buscar avaliação médica. Quanto antes o diagnóstico for feito, mais simples tende a ser o caminho até o tratamento adequado.

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