OPINIÃO
Ah! Se fosse com vocês!
Médica conta situação do bairro do Pinheiro
À Braskem: Devolvam minha vida! Devolvam nossas vidas!
Trabalhei no Bairro Pinheiro, Hospital Sanatório, desde o dia 01/01/1977. Até que, no ano de 2005, com a construção do Centro Médico Sanatório, ao lado do hospital, transferi meu consultório para esse novo empreendimento.
Programada, organizada, determinada a trabalhar até os 85 anos de vida. Esses eram meus planos. Diariamente escolho viver e não penso em aposentadoria. Médico não ESTÁ médico. É! Gozando de boa saúde física e mental para enfrentar as vicissitudes da existência, trabalhar com prazer, viver a profissão, não perder o foco, não perder o chão. Não contava com a Braskem, a pedra no meu caminho.
As rachaduras no solo, os buracos, as crateras, o subsolo sugado e o chão engolido, a Braskem os colocou sob os nossos pés, nos nossos caminhos. Perdi meu chão! Perdemos nosso chão! É real, não é ilusão! O chão afundou, aqui não tem subsolo, foi para a China em forma de "sal-gema".
Preencheram as crateras com o que restou de nossas vidas, do nosso sangue. São 56.000 mil vidas. Gente com rosto, coração, sonhos e com história. São milhares de alagoanos sem teto, sem trabalho, sem vizinhos, sem amores, com a saudade profunda de suas calçadas e suas ruas afetuosas.
Com lembranças destruídas, deprimidas pelo dissabor. Amigos dispersos que nunca mais se encontrarão, pairando sem referências, sem esperança e acordados de súbito sem travesseiros, sem sequer ousar sonhar novos sonhos.
Afundaram nossas convicções, nossos quereres, nosso bem-estar, nossas escolhas, nossa fé. Tudo afundado nos poços da Braskem. Retiraram o Sal da Terra e nos deixaram insalubres, apáticos, incrédulos, adoecidos, machucados, magoados, doídos. E se fosse com vocês também? Ora! Somos gente, somos seres humanos.
E o que ganhamos da Braskem: 1 – Um programa de compensação "Você não vale nada"; 2 - uma central do cidadão -"tapa na cara"; 3 - a "bolsa esmola" do aluguel social. Agora, somos gente coisa nenhuma! No todo indivisível, os três favores assistenciais da Braskem significam: "Fiquem calados e felizes", "Aqui manda quem pode". "O poder, o poder do amigo, do amigo do amigo, de outros tantos amigos".
Não fomos ouvidos, não somos ouvidos e, agora, até proibidos de manifestar nossa dor. Para morar (note que não usei residir), o aluguel social é de mil reais por mês, não importa como você residia antes. Para manifestar-se, a vítima paga multa de 5 mil (cinco) mil reais por dia. Obedece ou "Odebrecht" quem tem juízo! Eles definem o destino de nossa gente, não ouvem nosso grito e não sabem onde é nosso lugar.
Fingem que não sabem de nada. É uma gente inumana. Assim, se retratam o queijo e os vermes. Nós? Somos gargantas sem voz. O poço de sal é muito profundo, não tem vento, não tem eco, o vento não uiva!
Antes da tragédia, ao acordar, falava com Deus (sou pretenciosa):- "Hoje acordei para viver este dia de minha vida plena, de minha vida eterna". Hoje, não consigo mais. Desse buraco de sal profundo, nem Deus consegue ouvir minha voz, nossas vozes.
Deus cansou da gente? Olhar para o ser humano hoje e conseguir vê-Lo em cada rosto, em cada lágrima, em cada sorriso desfeito, em cada face envergonhada e em cada coração sepultado, é muito difícil para mim. Sinto-me exaurida e vejo nossa gente sendo enterrada viva.
Não como seres humanos, mas como coisas que perambulam sem rumo pela cidade morta, sob os olhares indolentes da justiça e do poder público. Foi-nos dito pelo poder dos homens: "De agora em diante, perdestes a humanidade, sois apenas uma quimera, sois a mórbida insignificância de um mundo perdido".
Braskem, acionistas, autoritárias autoridades, justiceiros imbuídos de seus poderes, minúsculos em seu caráter, devolvam minha vida. Devolvam nossas vidas. Devolvam nossas esperanças, nossos sonhos, nossos rostos, nossos corações, nossa dignidade! NOSSA DIGNIDADE! DIGNIDADE!
O seu programa de compensação não vai resgatar do "fundo do poço" os nossos sentimentos, nossos amores, nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, nossos instintos, nossa FOME, nossas casas!
Ah! Se fosse com vocês!