xadrez político
Com Filho cotado para vice de Lula, diretórios do MDB defendem neutralidade
Manifesto reúne líderes que rejeitam apoio formal à reeleição do presidente
Um movimento articulado por diretórios estaduais do MDB deve levar o partido a adotar uma posição de neutralidade nas eleições presidenciais de 2026, afastando, ao menos neste momento, a possibilidade de integrar a chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como vice. A sinalização foi formalizada por meio de um manifesto entregue ao presidente nacional da legenda, deputado Baleia Rossi (SP), na terça-feira, 3.
O documento foi apresentado por representantes de 16 diretórios estaduais e defende que o partido mantenha “independência no processo eleitoral”, priorizando as disputas regionais e as composições para as eleições legislativas. A iniciativa partiu principalmente de diretórios do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, regiões onde há maior resistência a um alinhamento formal com o governo federal.
Apesar de o MDB ocupar atualmente três ministérios na Esplanada — Planejamento, Transportes e Cidades — a maioria das lideranças partidárias avalia que a neutralidade seria a estratégia mais adequada diante da diversidade de alianças estaduais da legenda. Nos bastidores, dirigentes afirmam que o grupo responsável pelo manifesto representa mais de 70% da base partidária.
Segundo o deputado federal Carlos Chiodini (MDB-SC), presidente estadual da sigla em Santa Catarina e vice-presidente nacional do partido, o objetivo é preservar a autonomia das seções estaduais. “O Brasil é muito grande, cada estado tem as suas particularidades. Queremos autonomia para lutar pelas pessoas com respeito às diferenças”, afirmou.
No Palácio do Planalto, a possibilidade de o MDB compor a chapa presidencial vinha sendo discutida como parte das articulações para ampliar a base política do governo. Nos bastidores, nomes da legenda chegaram a ser mencionados como potenciais candidatos a vice-presidente, entre eles a ministra do Planejamento, Simone Tebet, o ministro dos Transportes, Renan Filho, e o governador do Pará, Helder Barbalho.
O cenário também se relacionava às especulações sobre a eventual saída do atual vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para disputar o governo de São Paulo. Integrantes do governo chegaram a discutir a hipótese de Alckmin entrar na disputa estadual caso um partido de centro aceitasse compor a chapa presidencial com Lula.
A articulação interna do MDB, no entanto, reduziu as chances desse movimento. Lideranças partidárias afirmam que a decisão de manter neutralidade já é considerada praticamente consolidada dentro da sigla.
A divisão dentro do partido também se manifesta nos estados. Em alguns casos, diretórios que haviam apoiado Lula em 2022 mudaram de posição. No Espírito Santo e no Rio de Janeiro, por exemplo, o MDB integrou o grupo de diretórios que declarou apoio ao petista ainda no primeiro turno da eleição passada. Agora, dirigentes dessas seções estaduais assinaram o manifesto pela neutralidade.
No Rio de Janeiro, a situação ilustra a complexidade das alianças regionais. O MDB local deverá apoiar a candidatura do prefeito Eduardo Paes (PSD) ao governo estadual, nome que conta com o apoio do presidente Lula, mas sem alinhar formalmente o partido ao PT. O presidente estadual da legenda, Washington Reis, assinou o manifesto e, no cenário nacional, é esperado que participe de eventos políticos ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Por outro lado, parte dos diretórios do Norte e do Nordeste tende a manter proximidade com o governo federal. Em Alagoas, por exemplo, o presidente Lula deve apoiar o grupo político liderado pelo senador Renan Calheiros (MDB), que busca a reeleição ao Senado, e pelo ministro dos Transportes, Renan Filho, que articula candidatura ao governo estadual.
No Pará, a tendência é semelhante, com apoio ao governador Helder Barbalho. Já no Ceará, o PT anunciou apoio ao retorno do ex-presidente do Senado Eunício Oliveira (MDB) à disputa por uma vaga no Senado.
Em outros estados, as negociações seguem em andamento. Na Paraíba, por exemplo, há articulações para que Lula participe da campanha do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, ao governo estadual, em uma composição que pode incluir o senador Veneziano do Rêgo (MDB) e o governador João Azevêdo (PSB) na disputa pelo Senado.
No Planalto, a expectativa é que cenário semelhante ocorra no PSD, outro partido de centro com três ministérios no governo federal. Diretórios regionais da sigla, como os da Bahia, Pernambuco e Amazonas, já sinalizam que podem apoiar Lula nos estados, independentemente da posição nacional do partido, que reúne lideranças presidenciáveis de oposição como os governadores Eduardo Leite (RS), Ratinho Jr. (PR) e Ronaldo Caiado (GO).



