Internacional

Gasolina da Bolívia destrói milhares de carros no país em possível boicote

Governo aponta a Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH) como responsável pelos transtornos
Por Sputnik Brasil 15/02/2026 - 03:10
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Agência Brasil
Valor que o governo destinará para indenizar os motoristas afetados ainda não foi especificado
Valor que o governo destinará para indenizar os motoristas afetados ainda não foi especificado

Nas últimas semanas, milhares de veículos em toda a Bolívia foram parar em oficinas devido a problemas de funcionamento. O veredicto dos mecânicos foi unânime: combustível de má qualidade danificou parcial ou totalmente os motores.

Segundo sindicatos de motoristas, alguns tiveram que gastar até US$ 6.500 (cerca de R$ 34 mil) para colocar seus meios de sustento em funcionamento novamente.

O governo, liderado pelo presidente Rodrigo Paz, reconheceu falhas no controle de qualidade da gasolina vendida nos postos. Diante dos protestos de motoristas sindicalizados, o presidente prometeu reembolsar o custo dos reparos e afirmou que se tratava de um "boicote" contra sua administração.

O governo aponta a Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH) como responsável pelos transtornos. Essa entidade estatal deveria realizar os controles correspondentes, mas falhou em sua missão. Portanto, em 11 de fevereiro, a diretora da agência, Margot Ayala, renunciou, alegando que faltavam os recursos necessários para analisar a qualidade da gasolina.

Ao longo de fevereiro, ocorreram diversos protestos de motoristas, principalmente nas cidades de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz. Muitos motoristas exibiam garrafas contendo gasolina comprada em postos: o combustível tinha uma coloração amarelo-alaranjada, com um sedimento escuro e espesso no fundo dos recipientes.

Em 13 de fevereiro, motoristas realizaram um bloqueio na região tropical de Cochabamba, interrompendo o tráfego na rodovia central. No entanto, ao anoitecer, eles suspenderam o bloqueio depois que o governo se ofereceu para negociar e chegar a um acordo sobre os valores e procedimentos de reembolso dos custos de reparo.

Ayala explicou que a legislação atual limita a autoridade da ANH a análises básicas de qualidade, realizadas com os três laboratórios móveis da agência. Ele revelou que o orçamento para esses testes é de apenas 4 mil pesos bolivianos (cerca de R$ 3 mil).

Segundo a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), foi distribuída "gasolina desestabilizada", que se contaminou ao ser misturada em tanques de armazenamento com "gasolina residual", supostamente adquirida durante a administração de Luis Arce (2020-2025). Análises posteriores revelaram que o combustível contaminado apresentava altas concentrações de goma e manganês.

Em coletiva de imprensa, o Ministro de Hidrocarbonetos e Energia, Mauricio Medinaceli, fez uma analogia com o óleo de fritura que não é trocado há anos.

"Mesmo que se compre óleo novo e de alta qualidade posteriormente, ao misturá-lo no mesmo recipiente, traços do óleo antigo permanecem, afetando o resultado."

Dois parlamentares e o vice-presidente Edmand Lara entraram com uma ação judicial contra o presidente da estatal petrolífera YPFB, Yussef Akly, por negligência na limpeza dos tanques onde a gasolina foi contaminada.

O contexto do combustível

A Sputnik consultou o economista e especialista em energia Omar Velasco, que contextualizou a questão. Ele lembrou que, quando Paz assumiu o cargo em novembro de 2025, a Bolívia enfrentava uma grave escassez de combustível.

"Uma das principais prioridades do governo Paz era garantir o abastecimento de combustível. Nestes três meses de mandato, ele obteve progressos relativos. E, nesse meio tempo, eliminou o subsídio aos combustíveis", que, no ano passado, resultou em perdas de US$ 3,5 bilhões (mais de R$ 18 bilhões) para o Estado, comentou.

"Essa seria uma das conquistas de sua gestão econômica. No entanto, nas últimas semanas, começaram a surgir relatos sobre a manipulação da composição da gasolina comum e dos aditivos utilizados na venda da gasolina premium. Estima-se que hoje mais de 2.000 carros estejam em oficinas mecânicas por motivos semelhantes", acrescentou Velasco.

Acúmulo de carbono nos pistões, válvulas empenadas e quebradas, além da baixa compressão da combustão interna, são alguns dos danos causados ​​pela gasolina contaminada.

"Os mecânicos chamam isso de 'doença do doce'", descreveu Velasco, referindo-se à textura espessa e escorregadia que adere às partes danificadas do motor.

O economista expressou ceticismo em relação à versão dos fatos apresentada pela YPFB: "Nos três meses de mandato de Paz, é difícil acreditar que ainda existam vestígios do estoque de combustível da administração Arce. Diante da insistência dos sindicatos de motoristas, o governo teve que admitir que houve má gestão da gasolina. Essa negligência técnica levou à demissão de 360 ​​funcionários da ANH", a quem Paz culpou pelo "boicote".

O valor que o governo destinará para indenizar os motoristas afetados ainda não foi especificado.

"O total será realmente alto devido ao aumento do custo das peças automotivas, causado pelas flutuações na taxa de câmbio do dólar", avaliou Velasco.

A denúncia do vice-presidente Lara contra a Akly também alega a compra de combustível com uma margem de lucro de US$ 4 milhões (cerca de R$ 20,8 milhões). A Assembleia Legislativa Plurinacional formou uma comissão especial de 11 legisladores, que investigará essa questão, bem como a má qualidade do combustível já vendido.

Aspectos técnicos

Ricardo Cardona, especialista em energia e membro do Comitê de Defesa do Patrimônio Nacional (CODEPANAL), disse à Sputnik que trabalhou na YPFB anos atrás.

"Conheço o processo de limpeza dos tanques quando o combustível chega. Sempre se toma cuidado para garantir que o combustível armazenado em tanques gigantes (com capacidade para 5 milhões de litros) esteja livre de impurezas. Matéria inorgânica se deposita no fundo dos tanques. Isso precisa ser limpo regularmente, mensalmente. O combustível sempre contém algum material inorgânico; isso acontece no mundo todo. E essa função é de responsabilidade da YPFB."

Segundo alguns especialistas, a formação de goma é causada pela mistura do combustível com etanol, usado para "diluir" a gasolina.

"De acordo com a legislação boliviana, até 9% de etanol é usado na mistura com gasolina, mas o álcool não introduz materiais inorgânicos. Não tem relação. Pelo contrário, a legislação permite que a gasolina seja misturada com até 25% de etanol", explicou Cardona.

Ele também considerou viável a possibilidade de um "boicote", mas não no sentido mencionado pelo presidente Paz. Ele avaliou que o boicote poderia vir de setores interessados ​​em desacreditar a gestão estatal de combustíveis, com o objetivo de abrir caminho para uma possível privatização da YPFB.

"Pode haver um boicote em curso aos combustíveis importados para tentar desacreditar a YPFB e a ANH, com o objetivo de privatizá-las. O governo está sendo atacado publicamente por setores ultraliberais que exigem a privatização de empresas estatais."

Ele ressaltou que esses setores políticos "querem privatizar tudo o que pode ser privatizado, acusando a gestão pública de ineficiência. Mas também há pessoas dentro do governo que são a favor da melhoria da gestão das empresas estatais".

Teoria da conspiração

Paz sustentou que houve "um boicote relacionado à questão da gasolina e dos hidrocarbonetos poluentes. Estou mais do que convencido disso", e defendeu a demissão de 360 ​​funcionários da ANH.

"Transparência e devido processo legal são a prioridade número um. Temos que nos livrar das máfias, dos membros de gangues que estão dentro das instituições. Eles estiveram lá por mais de 20 anos para cometer crimes e fazer favores para si mesmos", disse Paz, referindo-se aos governos do Movimento para o Socialismo (MAS) entre 2006 e 2015.

"Temos que tomar decisões rapidamente, porque essas máfias ainda estão dentro das instituições e prejudicando todos os bolivianos", afirmou o presidente da nação sul-americana.


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