Será?
Ele abriu os olhos e o barulho da rua não era o de sempre. Não havia o roncado de um motor velho acelerando sem silenciador, nem o som de um buraco batendo seco na suspensão de um carro popular. O silêncio era calmo, cortado apenas pelo zumbido suave de um trem elétrico deslizando nos trilhos lá embaixo.
Olhou pela janela do apartamento em um bairro comum. As calçadas estavam inteiras, sem tropeços, limpas de ponta a ponta. Na esquina, uma ciclovia lotada de pessoas ia e vinha com capacetes, enquanto os carros paravam muito antes da faixa de pedestre, sem pressa e sem buzinadas.
Foi até a cozinha. A água da torneira saía cristalina e potável, pronta para beber direto do copo, sem filtro. Ligou a televisão para entender que dia era aquele. O jornal matinal não noticiava escândalos de corrupção bilionária ou hospitais transbordando no corredor. A pauta era sobre a nova meta de energia 100% limpa do país e a queda histórica no índice de evasão escolar.
Pegou o celular para checar as notícias rápidas do dia. E assistiu atonico a uma defilar de boas notícias:
Educação integral: As escolas públicas tinham tempo integral, laboratórios modernos e ensino técnico integrado de alto nível em todas as cidades.
Saúde eficiente: O sistema público funcionava com filas zeradas para exames complexos e atendimento rápido em qualquer posto de bairro.
Segurança e emprego: O salário mínimo garantia poder real de compra, a inflação estava controlada abaixo de 3% ao ano e os índices de criminalidade despencavam há uma década.
Infraestrutura verde: O transporte público interligava regiões metropolitanas inteiras com trens de alta velocidade e ônibus elétricos gratuitos.
Saiu na rua para ver com seus próprios olhos. Um jovem varredor de rua conversava com um policial civil com respeito mútuo, ambos recebendo salários dignos que permitiam pagar seus próprios planos de saúde e viajar nas férias. Ninguém parecia acuado. Ninguém olhava para os lados com medo de perder o celular no sinal vermelho.
O Brasil não era perfeito — nenhum lugar é. Mas a pobreza extrema havia virado nota de rodapé nos livros de história antiga. A riqueza produzida aqui ficava aqui, distribuída na base, transformada em serviços públicos que funcionavam para o rico e para o pobre com a mesma qualidade.
Voltou para casa com a sensação estranha de quem não sabia se estava sonhando ou se, finalmente, o futuro havia decidido nos dar uma chance.
O Despertar da Quimera
Um sobressalto arrancou-lhe daquele cenário ideal. O som suave do trem elétrico deu lugar ao barulho ensurdecedor de uma moto sem escapamento acelerando na sua janela. O teto do apartamento descascado pelo mofo o trouxe de volta à realidade. Não havia calçadas limpas, nem água pura na torneira, muito menos paz. O suor frio na sua testa confirmava o golpe: tudo não passara de um delírio passageiro. O Brasil real, violento e estagnado, o esperava do lado de fora com o peso de sempre. Olhou para o celular e a enxurrada de notícias matinais desenhou o verdadeiro e cruel retrato do nosso cotidiano:
Insegurança crônica: O medo constante de assaltos que faz o cidadão andar olhando para trás a cada passo na rua.
Saúde em colapso: Hospitais públicos com filas quilométricas, falta de médicos e macas improvisadas espalhadas pelos corredores sujos.
Educação sucateada: Escolas sem infraestrutura básica, professores despreparados e alunos que saem do ensino médio apenas semialfabetizados.
Transporte humilhante: Ônibus lotados, atrasados e frotas sucateadas que roubam horas preciosas de descanso do trabalhador.
Poder de compra destruído: Salário mínimo engolido pela inflação dos alimentos, transformando o supermercado em um ambiente de pura ansiedade.
Saneamento inexistente: Milhões de pessoas ainda convivendo com esgoto a céu aberto e falta de água tratada na periferia.
Carga tributária abusiva: Impostos altíssimos cobrados sobre o consumo dos mais pobres sem qualquer retorno perceptível em serviços públicos.
Crescimento sufocado: Burocracia extrema e falta de incentivo que destroem o microempreendedor e afugentam investimentos sérios.
Desigualdade abissal: Um abismo intransponível entre uma elite blindada e a maioria esmagadora da população que luta para sobreviver.
Violência urbana banalizada: Noticiários diários repletos de execuções, balas perdidas e a triste certeza de que a vida aqui vale muito pouco.
O Teatro Político e a Faísca da Mudança
A desgraça estrutural do país ganha contornos ainda mais trágicos quando ele olha para o horizonte das próximas eleições. O Brasil vive refém de uma dicotomia artificial friamente fabricada por Lula e Bolsonaro para blindar seus próprios projetos de poder. Esse duopólio macabro e parasitário sufoca qualquer tentativa de debate sério, assassinando o surgimento de novas vias políticas que ousem ameaçar o trono de ambos.
Ele e os demais eleitores estão diante de dois candidatos que carregam altíssima rejeição popular, duas figuras moralmente falidas que despertam mais rancor e repulsa do que qualquer rastro de esperança. Suas campanhas são palcos vazios, desprovidos de qualquer proposta concreta de desenvolvimento. Há uma ausência total de planos de estado; o que esses dois grupos vendem é apenas a ofensa mútua, a cortina de fumaça ideológica, a corrupção institucionalizada e o populismo mais barato, rasteiro e nojento.
Ele sabe com total clareza que esses dois líderes são os arquitetos chefes da mediocridade planejada da nação. Nenhum deles vai mudar a realidade do país porque ambos se alimentam do caos, da miséria intelectual, da ignorância das massas e da divisão violenta do povo. Pelo contrário, a permanência dessa polarização fingida vai piorar o que já parece insustentável, arrastando o Brasil para um abismo de atraso ainda mais profundo e irreversível. Eles não querem resolver os problemas estruturais; eles precisam perpetuar a dependência da população para continuarem posando como falsos salvadores da pátria.
Em vez de aceitar passivamente e continuar inerte, ele pegou o celular com as mãos trêmulas de indignação. Abriu um aplicativo de mensagens e criou um grupo de orientação ao eleitor focado em desmascarar as mentiras da velha política e debater saídas reais para o país. Em minutos, aquela simples iniciativa inicial começou a se multiplicar de forma avassaladora e geométrica, rompendo as barreiras virtuais e arrastando a adesão de muitos milhões de pessoas, conectadas pelo mesmo cansaço e pela mesma sede de mudança contra o status quo.
Olhando para a tela do telefone que piscava loucamente diante do crescimento daquela rede colossal de cidadãos, uma dúvida profunda assaltou sua mente: essa iniciativa de fato estaria acontecendo ou estaria ele sonhando ainda com uma reação democrática dos cidadãos?...
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



