EMPREENDEDORISMO
Mães atípicas reinventam vida profissional com pequenos negócios
Ideias e talentos surgem como forma de renda e terapia
A maternidade atípica é um desafio diário e representa a capacidade de se reinventar diante das dificuldades. Da venda de bolos à comercialização de roupas infantis, essas mulheres transformam suas habilidades, seja na cozinha ou no artesanato, em fonte de renda, enquanto buscam melhores condições de vida para os filhos.
Empreender, para essas mães, não é apenas sobre ser Microempreendedor Individual (MEI), mas uma forma de contar histórias em que modos inclusivos de viver e trabalhar criam oportunidades de renda e autonomia. Nem todas estão presentes ou têm visibilidade nas redes sociais e, ainda assim, o empreendedorismo reescreve mais um capítulo na vida dessas mães atípicas.
Empreendedorismo impulsiona autonomia
Com aproximadamente 400 famílias atípicas empreendedoras em Alagoas, segundo dados da Secretaria de Estado da Cidadania e da Pessoa com Deficiência, existem mães alagoanas que encontraram nos pequenos negócios uma forma de enfrentar a rotina, muitas vezes invisível aos olhos de fora, com o cuidado desafiador dos filhos.
Valdeangela Barbosa, mãe de Anthony, de 12 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 3, precisou se reinventar por necessidade. Diante da impossibilidade de manter um trabalho formal, realidade comum entre muitas mães atípicas, encontrou nas vendas outras alternativas de sustento, já que nem sempre conseguia atuar como cabeleireira devido às crises do filho, como destaca:
Com uma rotina desafiadora, Valde encontrou a fórmula de empreender com coisas simples. Desde a venda de kits de cosméticos a torresmos, ela consegue levar dinheiro para casa e não ficar parada. Além de celebrar pequenas conquistas para o filho como uma bola de pilates que ajuda na terapia dele, ainda assim não esquece dos momentos desafiadores:
Na capital alagoana, associações e grupos de mães atípicas têm se tornado espaços que vêm crescendo com acolhimento e oportunidades para geração de renda. Através de eventos e feiras inclusivas, as mães conseguem divulgar produtos, conquistar clientes e fortalecer pequenos empreendimentos. Além de incentivar o empreendedorismo, esses espaços também funcionam como rede de apoio, promovendo a troca de experiências entre mulheres que enfrentam desafios semelhantes no dia a dia.
Sem idade para empreender
Nadja Nascimento, de 67 anos, mãe de Giovanna, de 27, diagnosticada com encefalopatia bilirrubínica e paralisia cerebral, começou, em 2023, uma loja de roupas adultas e infantis. O Naninha Pijamas surgiu como uma forma de sustentar a filha, que não conseguiu ingressar no mercado de trabalho formal após concluir a faculdade.
“No momento em que Giovanna terminou sua faculdade de Biomédica e não encontrou acessibilidade e oportunidade para trabalhar. Foi nesse momento que eu pensei em montar a minha loja”.
Nadja faz parte da Associação Brasileira de Famílias Atípicas (Abrafae) e precisou reconstruir sua vida, empreendendo aos poucos com um pequeno negócio, que é o sustento da sua família.
Para ela, a escolha de vender pijamas está ligada a um significado afetivo e familiar. “Trabalhar com pijamas é uma lembrança afetiva. Me faz recordar da minha mãe, que gostava de fazer roupas de dormir para mim e minhas irmãs, e é muito bom transmitir esse sentimento nas minhas vendas”, relembra.
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O empreendedorismo surgiu, assim, como outra alternativa diante das barreiras enfrentadas por pessoas como sua filha no acesso ao trabalho formal. Mesmo aposentada, Nadja mostra que a idade não é um impedimento para quem deseja recomeçar e buscar autonomia financeira. A loja vem se tornando não apenas uma fonte de renda, mas uma possibilidade de criar oportunidades para Giovanna. O próximo passo agora é investir na divulgação para ter mais alcance.
“Deixei de me sentir impotente”
Verônica Lopes, mesmo aposentada, começou a empreender em 2025, utilizando das suas habilidades gastronômicas para criar os Lanches da Vel. Mãe de uma cadeirante de 53 anos conta um pouco sobre o início da sua jornada:
Ela também mostra que conseguiu através do seu pequeno negócio ter sua autoestima de volta, como pontua: “Deixei de me sentir impotente”
A gastronomia continua mudando a vida de Verônica Lopes:
“Quando eu vendo, consigo comprar medicação. Quando faço feira e o movimento é bom, isso me ajuda, porque consigo repor material e comprar medicamentos que nem sempre estão disponíveis no posto. Alguns eu preciso comprar, principalmente quando faltam, e não são medicações baratas. Mas, quando consigo vender, é uma alegria, porque isso me ajuda bastante.”, conta Verônica.
A Abrafae é uma associação voltada para pessoas atípicas, fundada em 2023 por Luana Rodrigues, mãe solo de cinco crianças autistas dos níveis 1 e 2 e empreendedora. A partir de sua própria vivência e dos desafios enfrentados na maternidade atípica, ela criou uma rede de acolhimento e apoio para outras mães. Sua iniciativa acolheu mulheres como Nadja, Verônica e ValdeAngela, que mostram que empreender pode transformar vidas.
Empreendedorismo vira terapia
Quando se trata da saúde mental dessas mães, empreender surge quase como um resgate. Ao receber o diagnóstico do filho existe o medo, a incerteza sobre o futuro e os cuidados intensos que sobrecarregam mães, como explica Karllene Farias, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Entre o trabalho e o cuidado, também há um grupo de 10 mães atípicas que empreendem por amor. Amigas que deixaram seus empregos formais e se uniram para transformar pequenos negócios em um espaço em que não só alcança mais clientes, mas que vira um trabalho terapêutico. O grupo, criado há um ano, impulsiona a economia alagoana de maneira inclusiva.
Mércia Abreu, Gabrielle Nascimento, Maria Francesca e Cássia Fernandes são algumas das mães que fazem parte do projeto Empreender por Amor. Mães de Giovanna, Daniel Vinícius e Oliver, crianças com autismo níveis 1 e 2, criaram negócios que vão desde a venda de laços artesanais e produtos de cozinha até lojas de acessórios para PCDs.
Mães do Empreender por Amor mostram como os pequenos negócios são usados de modo a incluir os filhos no universo do empreendedorismo. Além de incentivar a autonomia, a participação nas atividades em eventos também contribui para o desenvolvimento e o tratamento dessas crianças.
O grupo de mães foi criado por Mercia, que relembra como o empreendedorismo entrou em sua vida:
Mercia Abreu, mãe de três meninos, entre eles Thiago de 12 anos, diagnosticado com autismo nível 1, fala sobre como foi preciso se reinventar após o diagnóstico do filho e abrir a "Sonho Meu":
Para muitas mães atípicas, empreender tem um papel terapêutico. Em meio à rotina desafiadora de cuidar de uma criança atípica, encontrar uma atividade que contribua para a saúde mental se torna essencial. Por isso, além da terapia, os pequenos negócios também ajudam a tornar a maternidade atípica mais leve em alguns momentos.
O que a lei garante às famílias
Embora mães atípicas relatem obstáculos constantes no acesso a terapias, educação inclusiva e atendimento especializado, reúne uma das legislações mais abrangentes sobre o tema. Na teoria, esse conjunto de normas assegura atendimento integral pelo SUS, cobertura obrigatória de terapias pelos planos de saúde, sem limite de sessões, matrícula em escolas regulares, oferta de profissional de apoio quando necessário, prioridade em serviços e acesso a benefícios sociais. A legislação também prevê direitos como o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) para famílias de baixa renda, além de isenções tributárias em determinadas situações e políticas de acessibilidade.



