EMPREENDEDORISMO

Ilha do Ferro: quando o fazer artístico vira negócio próprio

Movimento iniciado nos anos 80 transforma economia do povoado às margens do Rio São Francisco
Por Nara Almeida - estagiária sob supervisão 08/06/2026 - 13:33
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Nara Almeida
Dedé deixou de ser pescador e barbeiro para empreender com a arte que aprendeu com Seu Fernando
Dedé deixou de ser pescador e barbeiro para empreender com a arte que aprendeu com Seu Fernando

Em um lugar pequeno no sertão alagoano, habita o coração da arte onde nenhuma distância ou íngremes estradas de barro são suficientes para impedir um lugar de prosperar através da criatividade. Desfrutando apenas da imaginação e das matérias-primas da região, as possibilidades tornam-se infinitas. Com a força da arte, a realidade dos moradores é transformada.

Um vilarejo sereno e de irresistível fascínio, lá os moradores respiram arte. Tão calorosos quanto o clima, bordam e esculpem na calçada de casa e o tempo demora a passar. As obras de arte adornando a paisagem são convidativas. Assim, as portas estão sempre abertas para os visitantes.

A descrição faz parecer um quadro bucólico, vilarejo cenográfico ou passagem de um livro, mas não: a 250 km da capital alagoana e a 18 km centro do município Pão de Açúcar, no sertão de Alagoas, está o povoado Ilha do Ferro, com cerca de 300 habitantes. Além das casas sertanejas de fachadas coloridas e o espelho do rio, é a comunidade ribeirinha que faz a beleza do lugar.

Vida na Ilha do Ferro é a principal inspiração para os mestres artesãos - Imagem: Nara Almeida

Esculpindo a própria história

“Forte e firme”. Enquanto concede a entrevista, André Teixeira, conhecido Dedé,  entalha a frase num pedaço de madeira em formato de coração, que antes fora um barco que navegava no Rio São Francisco. Segundo ele “De arte para arte, o barco também é uma arte feita à mão.” A rotina de Dedé consiste em esculpir das 7 às 10 da manhã. Faz uma pausa para os passeios de barco, depois volta ao ateliê. No pôr do sol toma banho no rio para tirar o pó da madeira. Renovado e inspirado pelas águas do Velho Chico, fica até às 10 da noite criando.

Madeiras de barcos naufragados no Rio São Francisco servem de matéria prima para arte de Dedé - Imagem: Nara Almeida

Em seu refúgio, como resultado desse tempo, peças como casinhas que imitam as do povoado, bancos, pássaros, carrancas, totens e bonecos e mais outras criações surgem da madeira. Além dos corações, os capoeiristas são a assinatura de Dedé. Mesmo que não tenha domínio das letras, como o próprio diz, as frases são de sua autoria, ou melhor, de seu coração esculpidas em uma madeira carregada de história.

“As doidices, né? dizem que todo artista é doido, aí vem umas doideiras na cabeça e eu escrevo.” Esculpidas em um coração ficam ainda mais tocantes. O coração “depósito de sentimentos” é o mais pedido.

Mesmo que não se denominam dessa forma ou tenham feito cursos profissionalizantes, a maior parte dos moradores são artesãos e empreendedores. Desde os que ganham a vida com artesanato até a pessoa que transformou sua casa em um restaurante, pousada ou confecciona lembranças para turistas, oferece passeios de barco por conta própria. “Devido a tanto tempo que eu negocio, já aprendi sem precisar de curso,” diz Dedé, que antes de se encontrar na arte, já foi pescador, cabeleireiro, pedreiro e padeiro, profissões que o formaram empreendedor nato.

E assim como ser artista, ser empreendedor não é sobre ter dom, mas antes de tudo, visão. Por meio do artesanato as perspectivas de Dedé se expandiram: assim que teve condições, mudou seu ateliê que era afastado para o centro do povoado, para que tivesse mais visibilidade turística. Ele também percebeu que o fluxo de turistas tinha aumentado, mas havia poucos lugares para se hospedarem, e construiu com suas mãos — assim como o ateliê —, a pousada Corisco que administra com a esposa.

Desde sempre ressalta que é um discípulo de seu Fernando de quem era amigo e barbeiro. Antes achava que para fazer arte precisa de um dom do qual pertencia somente a seu Fernando. Quando ele faleceu, esculpir foi uma forma de manter viva a memória do amigo. Para sua surpresa, as primeiras artes que fez foram os bancos, marca de seu Fernando que cativou de primeira. Daí em diante, a arte se fincou em sua vida para nunca mais sair.

Por meio do artesanato as perspectivas de Dedé se expandiram - Imagem: Nara Almeida

Hoje, suas obras estão expostas em reconhecidos circuitos artísticos como as mostras da CasaCor, maior evento de design e arquitetura das Américas, e seguem viajando de galeria em galeria levando o encanto da ilha pelo mundo.

O artesão que colocou a Ilha do Ferro no mapa

Alguns afirmam que a Ilha do Ferro — que na verdade não é uma ilha — foi batizada assim porque as terras pertenciam a uma família com o sobrenome Ferro. Outra teoria aponta para a forte presença da árvore pau-ferro na vegetação local. Apesar da origem do nome ser incerta, quem mudou a história do lugar tem nome e sobrenome: Fernando Rodrigues, o Seu Fernando da Ilha do Ferro.

“Eu não acho que meu pai é tão reconhecido. Eu queria que ele fosse muito mais. Porque se você chegou na Ilha do Ferro e não foi na Boca do Vento, você não foi na Ilha do Ferro, não descobriu a origem”, relata a filha do artesão. Dona Rejane Souza é um livro aberto cheio de memórias, tem orgulho e sabe de cor a história do pai. Junto de seu marido e netos, eles prolongam o legado familiar que se tornou a herança de um povo.

Dona Rejane é filha de Seu Fernando e também vive do artesanato - Imagem: Nara Almeida

A arte popular na região se revela como poética da resiliência. O povoado passava por dificuldades: na década de 80, a construção das barragens do Rio São Francisco prejudicou fortemente a pesca artesanal, o principal sustento dos moradores. Aos 40 anos, o pescador e filho de tamanqueiro precisou se reinventar. Recorreu às habilidades de esculpir que aprendeu com o pai e passou a confeccionar bancos e cadeiras com galhos e troncos da Caatinga.

Em meio a isso, o renomado fotógrafo alagoano Celso Brandão fazia viagens pelos interiores do estado quando conheceu Fernando. A visita redesenhou os caminhos do lugar. “E aí ele começou, e quem o descobriu foi o Celso, em 83. E quando comprou muitas coisas dele, ele continuou trabalhando. Depois disso, foi divulgando para os amigos e dizendo que precisavam conhecer um grande artista que tinha aqui, chamado Fernando”, Rejane conta com entusiasmo.

Inspirado pelo mestre, o povoado se viu autônomo. Mesmo sendo discípulos de Fernando, os artesãos incorporaram suas próprias identidades, mostrando que a Ilha do Ferro tem uma riqueza de talentosos artistas. Em homenagem a ele, foi inaugurado em 2017 o Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos, onde está o primeiro banco que fez, além de obras de cada artista. Plurais, cada um com sua assinatura Seu Valmir, seu genro, cria cadeiras que aprendeu com ele. Yangs faz bailarinos, Aberaldo os ex-votos e Dedé os capoeiristas.

Dona Rejane borda, esculpe e começou recentemente a fazer pinturas em peças de tecido e bolsas - Imagem: Nara Almeida

Dona Rejane borda, esculpe e começou recentemente a fazer pinturas em peças de tecido e bolsas. Tudo despretensiosamente, sem intenção de venda, no entanto, quem viu se agradou e ela já acumula encomendas.

O artesanato de madeira era considerado um trabalho para homens; as mulheres se ocupavam do bordado Boa Noite. Camille, neta de Seu Fernando, foi a primeira mulher a romper essa barreira e fazer artesanato em madeira, sendo prestigiada por seus lustres, cadeiras, bancos, acessórios e peças de bordado.

O Rio São Francisco é o quintal do ateliê, que leva o nome Boca do Vento porque está localizado no ponto de mais ventania do povoado. O espaço também tem um restaurante e chalé, e uma pousada está em construção. Seu Fernando faleceu em 2009, aos 81 anos, e infelizmente não conseguiu ver todo o impacto de sua arte.

De pai para filho

Seu Genaro se aposentou e agora vive do artesanato criando carrancas e árvores - Imagem: Nara Almeida

Às vezes, a própria natureza insinua que arte quer ser, como se passasse uma mensagem para o artesão. Tarcísio, de 21 anos, é da nova geração de artesãos; ele aprendeu o ofício com o pai, Seu Genaro, de 69 anos, com quem herdou a visão artística e que sempre o incentivou.

“Fiquei muito contente porque meus filhos continuaram naquela arte que eu fundei”, diz o Senhor Genaro. Em uma família de cinco pessoas, todas artistas, Seu Genaro gosta de fazer carrancas e árvores, Tarcísio faz peças do imaginário, e sua irmã é a responsável pelas pinturas.

Depois que Seu Genaro se aposentou do trabalho como gari, a única coisa que queria era se dedicar ao artesanato. Antes a renda era pouca, mas com o artesanato as condições melhoraram: ele conseguiu reformar a casa e construir seu ateliê. Mesmo com as propostas altas de venda, ele se recusa a sair da ilha.

Nascido e criado no lugar, ele acompanhou as mudanças e relata: Antigamente não era como hoje; cresceu muito, ficou evoluída. O povo de fora veio, se engraçou daqui e comprou terreno, o que gerou muita renda também. Mas agora, os próprios moradores, se quiserem comprar um terreno, não conseguem.”

Tarcísio, de 21 anos, é da nova geração de artesãos - Imagem: Nara Almeida

Tarcísio Melo, assim como o pai, não pensa em sair da ilha, mas sim em investir e expandir seu negócio, para que a própria população promova o turismo, sem perder espaço para pessoas de fora. “No futuro, eu penso em construir uma casa de hospedagem. Porque eu acho que o legal é ter moradores que consigam fazer isso.”

Turismo: oportunidade e ameaça

Num futuro próximo, será que o povoado calmo e pequeno terá perdido sua identidade devido ao turismo predatório? Já vimos esse capítulo antes, em São Miguel dos Milagres, e outros povoados que se expandiram devido à cultura e a paisagens singulares tiveram suas rotinas totalmente mudadas. Muitos se encantam com o povoado e acham que podem possuir parte dele. Para eles, a "ilha" é um parque de diversões a ser explorado. Mas para os moradores, é tudo o que eles têm.

A relação entre o turismo e a ilha é complexa: a projeção nacional coloca os habitantes em desvantagem, cresce a procura de pessoas de fora para investir em imóveis e os terrenos na região saltaram de valor. Ao mesmo tempo em que o dinheiro circula no artesanato, nos serviços das pousadas, no comércio, nos restaurantes, nos supermercados e nos passeios de barco, a elitização do local e a especulação imobiliária implicam na expulsão dos nativos para dar vez aos turistas.

O economista Elias Fragoso explica que o turismo em Alagoas não é guiado por políticas públicas, mas sobretudo pela iniciativa privada, que visa ao lucro, proporcionando um turismo predatório que resulta na expulsão de nativos e no desmatamento da área verde local. A Ilha do Ferro é um local pequeno e se torna um alvo frágil em sua infraestrutura.

“O que provavelmente não está acontecendo é a ação da municipalidade; o próprio Estado precisa fazer o que eu chamo de turismo de cuidados. Criar mecanismos, criar regramentos, de modo que a atividade cresça, mas não vire predatória para aquela região. Falta o cuidado institucional da prefeitura e da própria comunidade, que precisa também se organizar para defender suas raízes,” explica Elias.

Enquanto iniciativas privadas investem em espaços confortáveis para os visitantes, o governo fecha os olhos para as necessidades locais e as políticas públicas voltadas para a população são inexistentes. “A chegada pelo Rio São Francisco tem um esgoto que desce a céu aberto, a Ilha do Ferro é uma comunidade que não tem um campo de futebol, um ginásio de esporte. Então é um movimento de reprodução do capital, que chega para se apropriar, se reproduzir, para aumentar seus lucros. Mas, ao mesmo tempo, a comunidade em si, muitos moradores, principalmente aqueles que não se inserem no centro do circuito artístico, acabam não usufruindo”, relata Dirceu Dias, mestrando em geografia e pesquisador sobre a dinâmica territorial e a produção de arte popular aqui na Ilha do Ferro.

“De R$ 30 mil passaram para R$ 600 mil”

O medo de mais pessoas irem embora é comum entre a população. O artesão Dedé conta que observou essa mudança imobiliária e decidiu se precaver, comprando imóveis para garantir que seus familiares permaneçam na ilha. “Terrenos de R$ 30 mil passaram para R$ 600 mil. Quem vende não consegue comprar mais. Tenho três filhos, cada um tem seu terreno para construir, para não ter que sair daqui. Até os aluguéis aqui estão caríssimos.”

Além de tudo isso, Dirceu analisa que a procura do mercado pode desvincular a essência genuína das raízes do povoado: “Esta Ilha do Ferro, com o conteúdo desses moradores, com o modo de vida, com suas práticas, com seus saberes, com seus fazeres, sem dúvida vai deixar de existir, porque as novas relações que se pautam não são como aquelas que se desenvolveram há 20 anos, que eram relações orgânicas com o seu próprio território.”

Tarcísio faz parte da associação comunitária, local onde reivindicam alternativas para impedir tais danos à comunidade: “As pessoas que têm muito dinheiro acabam mudando a identidade do lugar. A gente luta para que o nosso povoado não mude. Que seja do jeito que ele é: simples, acolhedor e que recepcione as pessoas bem. Temos medo dos próprios moradores irem embora, e o povoado acabar, porque a ilha sem os moradores não é a ilha, não funciona”, finaliza.

Quem mora na ilha do ferro é artista, empresário, criador e com toda certeza, forte e firme.


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