Política

Congresso derruba veto de Lula à dosimetria e beneficia Bolsonaro

Parlamentares abrem caminho para redução de penas a condenados pelo 8/1
Por Redação 30/04/2026 - 15:49
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Agência Câmara
Oposição comemora aprovação do chamado PL da Dosimetria em dezembro de 2025 no Plenário da Câmara, sob protesto de deputados governistas
Oposição comemora aprovação do chamado PL da Dosimetria em dezembro de 2025 no Plenário da Câmara, sob protesto de deputados governistas

O Congresso votou para derrubar, nesta quinta-feira, 30, o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Projeto de Lei da Dosimetria para os condenados pelos atos do 8 de Janeiro e, assim, abriu caminho para reduzir a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na Câmara, foram 318 votos a favor da derrubada do veto, 144 votos contrários e 5 abstenções. No Senado, foram 49 favoráveis à derrubada e 24 contrários.


A votação começou pela Câmara. O placar foi 318 (não) contra 144 (sim), com 5 abstenções. Na sequência, foi a vez dos senadores: 49 votaram "não" (pela derrubada), 24 votaram "sim" (pela manutenção do veto).

Na sessão conjunta para análise da derrubada do veto à dosimetria, Alcolumbre decidiu que ficam prejudicados alguns dispositivos vetados no PL da Dosimetria que afrouxariam as regras de progressão de regime para outros crimes fora dos cometidos para o 8 de Janeiro, contradizendo o PL Antifacção, que endurece regras de progressão de regime.

Com isso, os parlamentares derrubaram todos os vetos de Lula, com exceção dos dispositivos que poderiam beneficiar condenados por crimes como feminicídio, milícia e crimes hediondos. Assim, ficam de pé as regras da Lei Anficacção, que determinam que pessoas condenadas por esses delitos tenham que cumprir ao menos 70% da pena para poder progredir de regime. 

Antes da votação, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), fatiou o projeto, excluindo os trechos que beneficiariam criminosos comuns ao reduzir o tempo para progressão de pena, mudança prevista no texto aprovado em dezembro de 2025.

Razões do veto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou o chamado PL da Dosimetria por entender que a proposta é inconstitucional e viola o interesse público ao reduzir penas de crimes contra a democracia.

“[O PL] daria o condão de aumentar a incidência de crimes contra a ordem democrática e indicaria retrocesso no processo histórico de redemocratização que originou a Nova República”, justificou o Palácio do Planalto.

Agora, o projeto seguirá para promulgação. Não haverá nova sanção presidencial nem possibilidade de novo veto sobre o mesmo texto. Após a publicação da lei, as defesas de condenados poderão pedir à Justiça a aplicação das novas regras.

Isso não significa soltura automática. A derrubada do veto criaria uma lei geral mais benéfica, mas a aplicação dependerá de análise judicial, caso a caso. Réus ainda em fase de recurso poderão pedir a aplicação da nova regra no próprio processo. Condenados com decisão definitiva deverão discutir o tema na execução penal.

Na prática, o texto vai produzir três efeitos principais:


1-revisão do cálculo de penas;
2-redução do tempo necessário para progressão de regime;
3-reavaliação de casos em que crimes tenham sido praticados no mesmo contexto.

O que muda no cálculo das penas

Um dos pontos centrais do PL da Dosimetria é mudar a forma de calcular penas quando há condenação por mais de um crime contra a democracia praticado no mesmo contexto.

Hoje, em condenações ligadas ao 8 de janeiro e à trama golpista, o Supremo Tribunal Federal admitiu a punição simultânea por crimes como tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Com isso, as penas podem ser somadas.

O projeto muda essa lógica. Quando os dois crimes forem praticados no mesmo contexto, passaria a valer a pena do crime mais grave, em vez da soma das penas. Na prática, isso pode reduzir a pena total de condenados por mais de um crime contra a democracia. A conta final, porém, continuará dependendo da Justiça, que terá de avaliar se os crimes ocorreram no mesmo contexto e como aplicar agravantes, atenuantes e demais regras da dosimetria.

Progressão pode ficar mais rápida

O projeto também altera regras de progressão de regime, isto é, a passagem do preso para uma forma menos rigorosa de cumprimento da pena, como do fechado para o semiaberto.

Esse é o ponto que mais alimenta o alerta de especialistas sobre efeitos além do 8 de Janeiro. O texto mexe na Lei de Execução Penal e prevê o cumprimento de um sexto da pena, equivalente a 16%, como marco básico de progressão em determinadas hipóteses.

Outros criminosos podem ser beneficiados?

Sim. Embora o debate esteja concentrado nos condenados pelo 8 de Janeiro, na trama golpista e em Jair Bolsonaro, especialistas alertam que o PL da Dosimetria também altera regras gerais da Lei de Execução Penal. Por isso, a derrubada do veto pode abrir caminho para benefícios a condenados por crimes sem relação com os ataques às sedes dos Três Poderes.

O principal ponto é a progressão de regime. O projeto estabelece o cumprimento de um sexto da pena (cerca de 16%) como marco básico em determinadas situações, o que pode reduzir o tempo necessário para passagem a regimes menos rigorosos. Parecer do consultor legislativo da Câmara Lucas de Oliveira Jaques aponta possível impacto até sobre crimes graves, como hediondos, feminicídio, milícias e organizações criminosas. A aplicação, porém, não seria automática: dependeria de pedido da defesa e decisão judicial em cada caso.


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