Agência Brasil
Bolsonaro fracassou como garoto-propaganda da cloroquina
Os comprimidos de cloroquina e hidroxicloroquina, as duas apostas políticas do presidente Jair Bolsonaro para tratar a covid-19, mesmo sem comprovação científica, encalham nos estoques das secretarias de Saúde em municípios brasileiros. Alguns estados, no entanto, promoveram a devolução da droga ao Ministério. É o caso de Alagoas, que recebeu nada menos que 412 mil comprimidos, um dos maiores quantitativos enviados pelo governo aos estados, e que já devolveu à pasta 376.500 unidades.
O estado não respondeu se o restante 35.500 comprimidos da droga ‘milagrosa’estão estocados ou quanto desta parcela foi prescrita aos pacientes com sintomas da doença provocada pelo novo coronavírus. O fato é que outras 13 unidades federativas também optaram pelo desencalhe dos medicamentos devolvendo-os ao governo federal. Alguns estados receberam uma quantia tão grande de cloroquina e hidroxicloroquina que daria para um século de abastecimento.
Esses dados fazem parte de um levantamento realizado pelo portal Metrópoles, divulgado neste domingo,20.
No total, o Ministério da Saúde informa ter distribuído ao menos 5,9 milhões de comprimidos do remédio em todo o país. O Metrópoles consultou as 26 secretarias estaduais de Saúde, e a do Distrito Federal, e foi atrás das prefeituras das principais capitais brasileiras e grandes cidades do interior para mapear como estão os estoques do medicamento.
Procuradas há mais de uma semana, 16 secretarias estaduais de Saúde responderam (as outras 11 não se manifestaram). Juntas, elas receberam 4,715 milhões de comprimidos de cloroquina. Desse total, no entanto, 1,161 milhão de doses já foram devolvidas para o Ministério da Saúde, e 484 mil, estocadas (guardados para eventual futuro uso).
Segundo o levantamento, só os comprimidos efetivamente devolvidos, somados aos armazenados para qualquer eventualidade de súbito interesse pelo remédio, representam o não uso de quase 35% do total enviado pelo governo federal a todo o país – e com o balanço de 16 unidades federativas, não das 27.
“Mesmo nos 65% restantes, porém, os relatos são de quase total desinteresse pela substância advogada por Bolsonaro. Logo, os 2,449 milhões de comprimidos enviados (ou seja, não estocados nem devolvidos) por esses estados podem ainda estar parados nas inúmeras cidades brasileiras”, informa o portal.
Data de Validade
A apuração do Metrópoles também sinaliza que nos próximos meses pode haver uma nova enxurrada de remessas ao Ministério da Saúde de medicamentos pagos pelo governo federal em meio à campanha intensiva do presidente da República em defesa da cloroquina, e prestes a vencer.
No nordeste de Santa Catarina, Blumenau recebeu 36 mil doses do medicamento e, até 23 de novembro, apenas 89 foram consumidas pelos pacientes, segundo o jornal NSC Total. Na prática, mantido esse ritmo, a cidade da tradicional Oktoberfest precisaria de ao menos 100 anos para finalizar todo o estoque do remédio – a cloroquina enviada ao município, contudo, vence em maio de 2022.
Em Roraima, segundo dados da secretaria estadual, foram recebidas 262 mil doses de cloroquina (o governo federal informou que foram 420 mil). Isso é uma para cada três habitantes. Contando apenas as pessoas diagnosticadas com Covid-19 (o que não implica estarem tomando o medicamento), seriam quatro comprimidos para cada um. O estado não informa se devolveu alguma quantidade nem revela quantos foram efetivamente prescritos e retirados por pacientes.
O que o levantamento revela, de fato, é o total descontrole e politização do tratamento de uma doença que já matou mais de 186 mil brasileiros.
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