91,3% DE MORTALIDADE

Alagoas registra maior taxa de óbitos no país entre pacientes intubados nas UTIs

Estudo mostra que apenas 8,3% dos internados conseguem a cura após necessitar de intubação
Por Tâmara Albuquerque 26/03/2021 - 09:39
Atualização: 26/03/2021 - 10:45
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Governo de São Paulo
Brasil apresenta maior taxa de óbitos de pacientes intubados nas UTIs
Brasil apresenta maior taxa de óbitos de pacientes intubados nas UTIs

O Brasil tem o pior resultado no tratamento de pacientes com covid-19 que precisaram ser internados em UTI com ventilação respiratória invasiva. No mês de fevereiro, 88% dos intubados morreram, segundo levantamento realizado pelo Poder 360 tendo como base os dados do Sivep-Gripe, do Ministério da Saúde. Em Janeiro, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) já havia alertado num estudo publicado na revista Lancet, que 80% dos pacientes intubados em 2020 morreram no Brasil.

O levantamento feito pelo Poder reproduziu para 2021 a metodologia do estudo da Fiocruz e constatou o agravamento do quadro. Em 10 estados das regiões Norte e Nordeste a mortalidade desses pacientes foi maior e Alagoas, entre eles, é o que mais registra óbitos. Considerando o período de março de 2020 a fevereiro deste ano, 91,3% dos pacientes intubados nas UTIs da rede hospitalar de Alagoas morreram. Apenas 8,3% foram curados.

Os cinco estados com pior desempenho, incluindo Alagoas, são Espírito Santo (91,2% dos pacientes foram a óbito); Paraíba (91,1%); Pará (90,3%) e Rio Grande do Norte (88,7%). A situação menos grave é registrada em Santa Catarina, onde ainda morrem 72,9% dos pacientes. 


O pesquisador da Fiocruz Fernando Bozza, autor do estudo original divulgado em janeiro, apontou que entre os fatores para a alta taxa de mortalidades dos pacientes intubados estão: UTIs lotadas; centros médicos sem condições de atendimento; profissionais sem experiência de intubação; burnout das equipes; falta de equipamentos; quebra de protocolos de boas práticas.

Bozza avalia que a situação tende a se agravar no país. “Vimos o colapso na região Norte e algum colapso na região Nordeste. Agora, estamos vendo uma evolução de colapso para todo o sistema de saúde brasileiro. Tem a sincronização da epidemia em todas as regiões e nas capitais”, afirma.

Segundo o pesquisador da Fiocruz, a piora do cenário poderá se dar de forma rápida. “A perspectiva para abril e maio é muito ruim. Se não aprofundar as medidas de contenção neste momento, veremos o colapso de sistema de saúde do Brasil como um todo. Não vai ter tempo hábil para o processo de vacinação fazer diferença. O que funciona é que as pessoas fiquem em casa e façam a sua parte”, diz.

Medicina Intensiva


O presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), Rodrigo Biondi, afirma em entrevista ao Poder360 que aumentar as restrições à circulação de pessoas é a única solução possível neste momento. “Não seria necessário lockdown se as pessoas respeitassem regras de distanciamento e de uso de máscaras. Mas elas não cumprem isso”, afirma.

Ele considera impossível aumentar o número de leitos de forma eficaz a curto prazo. Muitos dos que já foram implantados recentemente contribuem de forma precária para a cura dos pacientes. O maior problema, diz o médico, está na escassez de profissionais, incluindo médicos e enfermeiros. “No Reino Unido havia 1 enfermeiro por paciente antes da pandemia. Agora há 1 para 3 pacientes e eles dizem que é impossível trabalhar. No Brasil a legislação permite 1 para 10 e estamos com situações muito piores do que isso”, afirma.

Biondi diz na matéria que o percentual de morte de intubados que o Brasil atinge neste momento é algo inédito. “Normalmente a taxa fica entre 15% e 20%”. Destaca que muitos dos intubados não estão em UTIs, mas em enfermarias e até mesmo em unidades de atenção primária. “Eles são excluídos da contabilização da fila para entrar na UTI, mas não deveria ser assim”.

Bozza chama atenção para o fato de que a situação do atendimento atual dos casos mais graves piora a chance de sobrevivência, que já é baixa. “ A UTI tem uma capacidade de funcionamento considerando uma situação onde nem todos os doentes estão intubados. Quando você passa a ter todos os doentes intubados, a sobrecarga de trabalho é tanta que as pessoas não dão conta”, diz.

Segundo Biondi, em situações normais cerca de 40% dos pacientes de UTI são intubados. Atualmente há 100% de intubados em UTIs de covid, “A chance de erro aumenta muito”, afirma à reportagem.

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