Saúde mental
Em busca de pertencimento: a crise silenciosa da solidão masculina
Especialistas explicam como redes sociais transformam sofrimento emocional em audiência
Em poucos segundos, basta assistir a alguns vídeos sobre término de relacionamento, autoestima ou academia para que o algoritmo das redes sociais passe a sugerir uma enxurrada de conteúdos sobre masculinidade. Entre conselhos para conquistar mulheres, promessas de sucesso financeiro e fórmulas para se tornar um "homem de valor", milhares de jovens encontram algo que parecia faltar fora das telas: a sensação de serem compreendidos.
O fenômeno cresce em um momento em que pesquisadores de diferentes países alertam para o aumento da solidão masculina e seus impactos na saúde mental. Essa dificuldade em fazer amigos ou encontrar parceiros trata-se de uma geração que enfrenta obstáculos para construir vínculos profundos, falar sobre emoções e pedir ajuda quando o sofrimento aparece.
Essa vulnerabilidade encontrou nas plataformas digitais um terreno fértil. Enquanto alguns criadores oferecem diálogo, outros transformam frustrações individuais em discursos que estimulam ressentimento, hostilidade e desconfiança em relação às mulheres. Em comum, disputam a atenção de um público que busca respostas para dores reais.
A dificuldade em encontrar apoio reflete-se em estatísticas alarmantes: os homens concentram quase 78% das mortes por suicídio registradas no Brasil, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Entre os jovens, a taxa chega a 36,8 casos por 100 mil habitantes, acima da média nacional. A instituição aponta ainda que jovens do sexo masculino procuram menos os serviços de saúde mental, mas representam mais de 60% das internações relacionadas a transtornos psíquicos.
Internacionalmente, o cenário se repete. Um levantamento da Meta e do Instituto Gallup revelou que apenas 66% dos jovens brasileiros afirmam contar com uma rede de apoio social, índice inferior à média global. Já o BBC Loneliness Experiment mostrou que pessoas com até 24 anos são hoje o grupo etário que mais relata sentimentos de solidão, superando os idosos.
Acolhimento vira audiência
Mas por que os homens parecem encontrar justamente nas redes sociais esse espaço de acolhimento? Para Priscila Medeiros, professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e pesquisadora em comunicação digital, a resposta vai além da tecnologia.
"A plataforma quer que a gente permaneça ali o máximo de tempo possível. Ela não faz distinção entre um conteúdo que promove bem-estar e outro que reforça preconceitos ou ressentimentos. O objetivo é manter o engajamento", ressalta a pesquisadora. Em um ambiente competitivo, mensagens que despertam indignação e medo alcançam mais pessoas do que explicações complexas para problemas igualmente complexos.
É nesse contexto que as comunidades voltadas à masculinidade ganham tração, frequentemente atribuindo problemas como rejeição amorosa e dificuldades financeiras às transformações nas relações entre homens e mulheres.
Um relatório do final de 2024, publicado pelo NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Ministério das Mulheres, dimensiona o lucro sobre essa dor: foram identificados mais de 76 mil vídeos relacionados ao universo da misoginia online. A pesquisa encontrou 137 canais brasileiros com conteúdo misógino recorrente, responsáveis por impressionantes 3,9 bilhões de visualizações. O detalhe mais revelador: em oito de cada dez casos, os canais eram monetizados.
A narrativa da identidade compartilhada
Encontrar apoio virtual não é um problema em si. O risco aparece quando esse acolhimento passa a depender da criação de inimigos.
Um relatório do Movember Institute of Men's Health (2025) aponta que quase dois terços dos homens entre 16 e 25 anos no Reino Unido, EUA e Austrália acompanham regularmente influenciadores voltados à masculinidade. Gradualmente, parte desse conteúdo associa frustrações pessoais ao avanço da igualdade de gênero.
A socióloga Stéphanie Gomes, pesquisadora que integrou os estudos do NetLab/UFRJ, explica que o sucesso dessas comunidades é calcado na necessidade humana de pertencer.
"Não é uma solidão masculina no sentido de que só os homens se sintam sozinhos. O que acontece é que homens solitários encontraram esse caminho para pertencer", observa a socióloga. Em vez de apenas julgar o consumo, ela propõe olhar para a raiz: "Esses grupos oferecem uma identidade compartilhada".
Experiências comuns, como a rejeição amorosa, a insegurança com o corpo, o medo do futuro são empacotadas como prova de um sistema que prejudica os homens. A narrativa oferece uma explicação pronta e fácil para dores legítimas. "Ao invés de problematizar, a plataforma retroalimenta isso", avalia Stéphanie.
A circulação de discursos extremistas ocorre com pouca restrição. Um experimento da Global Witness, citado no relatório do NetLab, mostrou que apenas um vídeo recebeu restrições após denúncias formais de misoginia.
A socióloga alerta ainda que a violência nesses espaços costuma ser sutil, não se resumindo a xingamentos explícitos. "É muito mais uma violência psicológica. A ideia é ensinar que o homem precisa assumir uma postura de controle, de manipulação e de superioridade nas relações", diz ela. E muitos participantes sequer percebem a toxicidade: "Eles não têm a autopercepção de que são necessariamente machistas ou misóginos", completa.
A dor que não encontra palavras
Por que esses jovens são tão receptivos a discursos que transformam frustração em ressentimento? A resposta da saúde mental é clara: muitos homens chegam à vida adulta sem aprender a reconhecer, nomear ou compartilhar o que sentem.
O gestalt-terapeuta Bruno Freire, que atende homens em sua clínica, vê isso diariamente. "Muitos homens não conseguem expressar sentimentos e emoções porque não desenvolveram repertório interno para isso. Existe uma cultura masculina que limita essa expressão e dificulta a construção de vínculos afetivos", afirma.
Ele explica que, desde cedo, meninos aprendem que demonstrar vulnerabilidade é incompatível com a figura masculina. "Culturalmente, os homens não foram ensinados a prestar atenção no que sentem. Para muitos, entrar em contato com as próprias emoções é algo assustador, porque os coloca diante de um lugar desconhecido".
Sem preparo para o fracasso, as perdas se tornam insuportáveis. "A questão não é a rejeição em si. É aprender a lidar com as próprias frustrações e assumir responsabilidade sobre aquilo que sentimos. Vivemos em uma cultura que valoriza o ganho, mas pouco ensina sobre perdas, tentativas e limites", ressalta o terapeuta.
Quando não se consegue elaborar o sofrimento, ele é transferido. A misoginia na internet, segundo Freire, funciona como um mecanismo de defesa. "A misoginia pode funcionar como uma projeção. O sujeito rejeita no outro aquilo que não consegue reconhecer em si mesmo", explica. A vergonha e o fracasso viram alvos externos.
Para diferenciar comunidades que apoiam daquelas que adoecem, Freire propõe uma reflexão fundamental: "O lugar onde você está o aproxima das pessoas ou o afasta delas? O discurso fortalece o diálogo ou incentiva a segregação? Como podemos construir vínculos saudáveis se desconhecemos aquilo que sentimos quando estamos diante do outro?", questiona.
Caminhos além do algoritmo
Especialistas concordam: focar apenas na moderação de algoritmos não resolverá a crise.
"A infraestrutura digital é apenas a ponta do iceberg", afirma Priscila Medeiros. "A tecnologia não é neutra. Ela ajuda a reforçar e manter determinadas opressões na medida em que dá visibilidade para esses conteúdos. Mas isso acontece porque existem estruturas sociais que sustentam esses discursos".
Para ela, a reação desses grupos ocorre quando privilégios históricos são questionados, e a saída exige base educacional. "A gente precisa falar sobre essas questões nas escolas, nas famílias e na mídia, e não apenas quando acontece um caso de feminicídio".
Nesse cenário de urgência, ações práticas começam a surgir. A plataforma Papo de Homem já mapeou 129 projetos e organizações focados na transformação das masculinidades, incluindo o Núcleo GEMA (UFPE) e o Instituto NOOS. No âmbito público, o Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo passou a oferecer grupos terapêuticos exclusivos para homens, com encontros semanais para criar espaços de escuta livre de julgamentos.
Como alerta o terapeuta Bruno Freire: "Uma comunidade pode integrar a pessoa ao mundo ou afastá-la dele. Quando o discurso é baseado no diálogo, na afetividade e no reconhecimento das próprias fragilidades, ele fortalece a saúde mental. Quando depende do ódio e da segregação, tende a produzir ainda mais sofrimento".
Ignorar a dor desses jovens é perigoso. Seu sofrimento é real e não justifica a violência, mas deixá-lo à deriva significa entregar uma geração inteira de volta às mãos de influenciadores que vendem soluções fáceis para conflitos profundos. O verdadeiro desafio está em construir, no mundo real, o que milhões continuam buscando nas telas: pertencimento.



