MOBILIDADE URBANA
Tarifa zero pode injetar R$ 206 milhões na economia de Maceió, diz estudo
Especialista afirma que medida é viável, mas exige planejamento e financiamento
A implementação da tarifa zero no transporte coletivo poderia injetar cerca de R$ 206 milhões por ano na economia de Maceió e da Região Metropolitana, segundo um estudo nacional que analisa o impacto da gratuidade no transporte público como política de distribuição de renda.
O levantamento, intitulado “A Tarifa Zero no Transporte Público como Política de Distribuição de Renda”, desenvolvido no Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), analisou as 27 capitais brasileiras e seus respectivos sistemas metropolitanos de transporte para estimar quanto dinheiro deixaria de ser gasto com passagens e poderia circular em outros setores da economia.
De acordo com a pesquisa, ao deixar de pagar pelo transporte, os usuários poderiam direcionar esses recursos para despesas cotidianas, como alimentação, medicamentos e serviços locais, o que tende a estimular a economia.
No cenário nacional, os pesquisadores estimam que a adoção da tarifa zero nas capitais e regiões metropolitanas poderia gerar impacto distributivo de R$ 60,3 bilhões por ano. Descontadas as gratuidades já existentes, como para idosos, estudantes e pessoas com deficiência, a injeção adicional de recursos seria de R$ 45,6 bilhões anuais.
O estudo destaca que o gasto com transporte pesa no orçamento das famílias, especialmente entre a população de baixa renda. Segundo o Censo Demográfico de 2022, cerca de 21,4% da população ocupada no Brasil utiliza ônibus para se deslocar ao trabalho, o equivalente a 14,9 milhões de pessoas.
Viabilidade da tarifa zero em Maceió
Para o arquiteto e urbanista e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Dilson Ferreira, a implementação da tarifa zero em Maceió é economicamente possível, desde que seja tratada como uma política pública estruturada. Segundo ele, a implementação exige planejamento técnico, transparência nos custos e fontes permanentes de financiamento.
“Maceió possui orçamento municipal de aproximadamente R$ 5,6 bilhões por ano. Para iniciar a tarifa zero com oferta adequada de ônibus, o investimento poderia chegar a cerca de R$ 300 milhões anuais, o equivalente a aproximadamente 5,4% do orçamento municipal”, explica.
O especialista avalia que o impacto econômico estimado pelo estudo para Maceió é plausível. Segundo ele, quando se consideram efeitos indiretos, o retorno pode ser significativamente maior.
“Para Maceió, o retorno econômico direto estimado da implementação da tarifa zero ficaria próximo de R$ 0,90 para cada R$ 1 investido no cenário mais pessimista”, afirma. “Quando se leva em conta geração de emprego, aumento do consumo, ganhos de produtividade urbana, redução de poluição, gastos com saúde e acidentes, a referência técnica internacional aponta retorno de quatro a cinco vezes o valor investido. Estamos falando, no melhor cenário, em cerca de R$ 1 bilhão de retorno econômico".
Além do impacto econômico, o especialista afirma que a tarifa zero pode gerar efeitos sociais relevantes. “O primeiro benefício é o aumento da renda disponível das famílias. O dinheiro que seria gasto com passagem pode ser usado em alimentação, remédios, material escolar e no comércio local”, diz.
O professor também destaca que a medida pode ampliar o acesso ao trabalho e reduzir desigualdades urbanas.
“Muitas pessoas deixam de procurar emprego ou fazer cursos porque não têm dinheiro para a passagem. Com o transporte gratuito, a cidade passa a ser mais acessível para quem mora longe do centro, dos hospitais, das escolas e das universidades.”
No entanto, ele ressalta que a ampliação da oferta de transporte é fundamental para evitar superlotações. Segundo Dilson, o sistema atual já opera com frota abaixo do previsto.
“O edital de 2015 previa 679 ônibus, enquanto hoje circulam pouco mais de 500 veículos. Para implantar a tarifa zero, seria necessário corrigir essa defasagem e ampliar a oferta de transporte", disse.
Proposta de tarifa zero já foi discutida em Alagoas
O tema também já foi discutido no governo de Alagoas em uma reunião da Câmara de Estudos Políticos da Vice-Governadoria, realizada em novembro de 2025. Na ocasião, o vice-governador Ronaldo Lessa convocou gestores públicos, especialistas e representantes do setor de transporte para debater alternativas de implementação da tarifa zero em Maceió e na Região Metropolitana.
Durante o encontro, Dilson apresentou análises sobre o tema e defendeu que a medida pode representar uma mudança de paradigma ao tratar o transporte coletivo como um direito social. A reunião também discutiu possíveis fontes de financiamento para o sistema, como fundos de mobilidade, royalties do petróleo, taxações sobre combustíveis e recursos federais.
Como encaminhamento, ficou prevista a realização de novos levantamentos de dados, inclusive junto à Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Alagoas (Arsal), para subsidiar a elaboração de uma proposta a ser apresentada posteriormente ao governador Paulo Dantas. Entretanto, Entretanto, desde então, não houve novos anúncios públicos sobre avanços na discussão ou na elaboração da proposta.
“Foi um debate importante, mas depois disso o tema não avançou. Ainda assim, há total viabilidade de implementar a tarifa zero", conclui Dilson.



