colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

Quem influencia a eleição brasileira de 2026? O que os dados mostram


Por uma análise baseada em evidências, não em conspiração

A pergunta sobre “quem manda por trás do pano” na eleição brasileira parte de uma premissa tentadora, mas equivocada: a de que existiria um grupo oculto e coordenado controlando o processo. Os dados disponíveis não sustentam essa hipótese. O que eles revelam é algo diferente e, talvez, mais inquietante: um sistema em que múltiplos centros de poder atuam abertamente, mas cuja transparência é seletiva em cada um deles.

A mídia: concentração é dado, não opinião


As 50 principais mídias do país pertencem a 26 grupos. Cinco deles controlam mais da metade dos veículos. Um único conglomerado é o único com ativos centrais em TV aberta, TV paga, rádio, impresso, internet e agência de notícias simultaneamente. Os demais grandes grupos têm controladores familiares ou religiosos identificáveis.

Mais relevante do que a concentração é o cruzamento de interesses: 21 grupos de mídia ou seus acionistas têm negócios em outros setores — financeiro, agrícola, energia, imobiliário. Há casos documentados de grupos jornalísticos que controlam bancos digitais, de emissoras com participação em instituições financeiras e de jornais que renegociaram dívidas com grandes bancos. Isso não é ilegal. Mas significa que quem paga a conta tem interesse na pauta — e não há exigência legal de divulgar esse cruzamento.

As plataformas: lucram com o sistema e falham na execução


Uma grande plataforma faturou cerca de R$ 290 milhões com anúncios políticos no Brasil em 2026 — 85% mais que em 2022. O motivo é simples: as concorrentes proíbem propaganda política paga, e a demanda fluiu quase toda para ela.

Os dois principais candidatos gastaram, respectivamente, R$ 7,5 milhões e R$ 2,6 milhões na plataforma. No dia do primeiro turno, quando a lei proíbe propaganda paga, um laboratório da UFRJ identificou anúncios irregulares em circulação — seis deles se passando por comunicados do TSE para induzir eleitores a fornecer CPF.

A empresa atribui o problema a falhas técnicas. O TSE determinou tratamento igualitário entre candidatos, sob multa diária. O ponto não é intenção, mas resultado: as regras existem, a execução falha de forma mensurável, e os dados para auditoria são insuficientes.

O capital: doações legais com direção clara


No primeiro turno, um dos candidatos recebeu cerca de R$ 26 milhões em doações privadas; o governista, R$ 772 mil — diferença de 34 vezes. Os principais doadores do primeiro vêm do agronegócio: produtores de soja e pecuária, empresários do setor e herdeiros de indústrias tradicionais.

O dado não prova retorno político, mas revela alinhamento estrutural de interesses.

A bancada ruralista: votos rastreáveis


A frente parlamentar do agronegócio registrou 19 vitórias e 1 derrota em quatro anos de votações no Congresso. Entre elas, o Marco Temporal, a regularização fundiária na Amazônia e a inclusão de biocombustíveis no RenovaBio.

A bancada declarou apoio a um dos candidatos, e seu presidente foi explícito: se ele ganhar, dá para resolver a renegociação das dívidas rurais, a questão fundiária, a segurança jurídica. Não é bastidor — é voto registrado e declaração pública.

O ponto cego: as pesquisas


Este é o elo mais opaco e menos discutido. Quase metade das pesquisas registradas no TSE a própria empresa de pesquisa afirma que bancou. Cinco institutos declararam autofinanciamento superior à receita do ano inteiro. Um instituto registrou três levantamentos como “autofinanciados” — mas notas fiscais obtidas pela imprensa mostram que quem pagou foi o PL.

No total, 42% das 1.727 pesquisas registradas até setembro alegaram autofinanciamento: R$ 44,3 milhões em “recursos próprios”. Um professor de direito eleitoral da FGV classificou o caso como fraude. A lei exige identificar o financiador real; a execução não garante que isso aconteça.

Conclusão: não há um dono oculto — há transparência seletiva


Se a pergunta é “quem influencia a eleição”, a resposta é: proprietários de mídia, empresas de plataforma, capital financeiro e agrícola, e a bancada ruralista — todos com interesse declarado e recursos para agir.

Se a pergunta é “quem é o manipulador oculto”, a resposta é que ele não existe nos dados. O problema real é outro: cada um desses centros de poder opera dentro da lei, mas a lei não exige que o eleitor enxergue o cruzamento de interesses, a falha de execução das plataformas, o retorno das doações ou o financiador real das pesquisas.

A ameaça à democracia brasileira não está em um conspirador escondido. Está na normalização de um sistema em que todos os interesses são visíveis para quem sabe onde olhar — e invisíveis para quem depende da informação para votar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


Encontrou algum erro? Entre em contato