colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

Triste sina essa nossa: Lula ou Bolsonaro


A Chantagem do Vazio: "Após mim, o Caos"

Na arena política, os dois candidatos que polarizam a disputa ressignificam a frase original transformando-a em slogan tácito: "Se eu não vencer, restará apenas o nada" (ou a destruição total do país).

  • O Monopólio da Salvação: Ambos constroem suas campanhas baseando-se na premissa de que são a única barreira física e institucional contra o abismo representado pelo adversário.
  • A Ausência de Substância: Ao focarem toda a energia na demonização mútua, os palanques se esvaziam de propostas concretas. A dicotomia irresponsável reside no fato de que o debate não gira em torno de como gerir o Estado, mas sim de quem tem o direito de salvar a nação do "fim do mundo" imaginário que o rival supostamente causará. De quem é menos corrupto.

O Retorno a Sucupira: As Propostas a lá Odorico Paraguaçu

Quando eventualmente – muito eventualmente – a mídia, a academia e os intelectuais (por que o povo não tá nem aí para o próximo ladrão de plantão) exige que esses candidatos apresentem planos de governo, o debate atinge o ápice do absurdo. Tais qual dois Odoricos, os candidatos em vez de soluções estruturais para a economia, saúde ou educação, para o futuro deste país (que nunca chega), o eleitorado é confrontado com arremedos verborrágicos que parecem saídos diretamente do gabinete do histriônico prefeito de Sucupira na novela O Bem-Amado.

  • A Mentira como Método: O ponto de maior convergência entre Lula, Bolsonaro e Odorico Paraguaçu reside na institucionalização da mentira. Paraguaçu mente com seu vocabulário empolado para justificar alianças espúrias. Na adaptação à nossa realidade, o violento Zeca Diabo — o braço armado e capanga do prefeito — ganha o rosto dos Vorcaro da vida, dos militantes radicais, dos difusores de ódio das redes sociais e dos porta-vozes mais estridentes de cada espectro, prontos para a execução sumária das reputações dos adversários.
    Os dois “líderes” mentem ao prometer o fim da "velha política" enquanto loteiam a máquina pública. Lula mascara o passado com mitos estatísticos para omitir crises fiscais profundas; Bolsonaro alimenta teorias conspiratórias e desinformação sistemática nas redes para criar cortinas de fumaça morais como a da tentativa de golpe do seu grupo anos atrás.
  • Os Cúmplices e o Sistema: Em Sucupira, Odorico não agia sozinho; operava cercado por uma corte de aliados bajuladores e corruptos. No arranjo do Brasil contemporâneo, os equivalentes a esses amigos íntimos do poder espalham-se pelas cúpulas do Estado: estão entrincheirados no Congresso Nacional, nas cortes do STF, do TSE e nos demais órgãos e agências de controle que deveriam fiscalizar, mas acabam blindando o sistema.
    A República degenerou em uma verdadeira casa de Noca, uma terra sem lei e sem ordem onde as instituições perderam a sobriedade e a população foi rebaixada à condição de mero mamulengo. O povo é manipulado como joguete nas mãos dessa súcia que tomou conta das instâncias de poder do país.
  • O Leilão Demagógico das Promessas: Assim como Odorico construiu um cemitério inútil sem ter nenhum morto na cidade, as campanhas federais entram em um vale-tudo de promessas irrealizáveis. Essas promessas aumentam e se aprofundam na exata proporção em que a disputa se torna mais acirrada. Pressionados pelas pesquisas, ambos os lados inflam o discurso e prometem mundos e fundos irrealizáveis quando se depara com a realidade econômica do país. E a mais pura expressão do Teatro do absurdo de Ionesco.
  • E o povo, ó?! Continuará endividado, e sem saídas, pois não haverá desenvolvimento e , por consequência, geração de empregos. Já somos uma país de 50 milhões de pessoas inscritas no bolsa miséria do governo: 23% da nossa população!!! E com qualquer um dos dois, ao final de 4 anos esse numero terá crescido ainda mais. Anotem aí.

A dupla dinâmica que luta para ver de quem será o direito à pilhagem do país nos próximos 4 anos permanecem incólumes em seus vocabulários vazios modelo Odorico Paraguaçu prefeito de Sucupira. Hoje teremos oportunidade de ver na TV Bandeirantes o show de horrores ao vivo. o eleitorado será confrontado com arremedos verborrágicos, mentiras em profusão, acusações das mais diversas. Só não ouvirá dos dois – nem uma palavra – de como irão resolver o grave estágio dos problemas nacionais. Um acinte!

"Depois de mim, o Nada"


É dentro desse teatro de marionetes e mentiras escancaradas que a ameaça máxima se consolida. À medida que o cerco se fecha e os argumentos lógicos desaparecem, o grito final que ecoa dos palanques polarizados — proferido de forma idêntica pelos dois lados da disputa — é o definitivo "Depois de mim, o nada".

Trata-se da última fronteira do terrorismo psicológico eleitoral: a tentativa deliberada de convencer a nação de que fora de suas próprias figuras messiânicas não existe salvação, restando ao país apenas o colapso completo, a destruição institucional e o abismo.

O povo é tratado tal qual fez o prefeito da fictícia Sucupira: serve como plateia cativa de um espetáculo grotesco reduzido a um plebiscito sobre quem é o "menos pior", quando, de verdade os dois são os “mais piores”.

Ao destruírem a possibilidade de um debate programático racional e transformarem o cenário em um eterno palanque paraguaçuano, o resultado inevitável que aguarda a administração pública — independentemente de quem vença — é, de fato, o vazio de governabilidade e a falência do debate público.

O perigo real dessa tática do "após ele, o nada" é a profecia se tornar autorrealizável, mantendo-nos uma democracia violentada e corrupta ou numa ditatura da ultra direita que – certamente – será ainda pior e mais violenta que a dos milicos de 1964.

Triste sina essa nossa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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