Entre utopias e realidade: a busca da verdade na desinformação
Texto de Rozangela Wyszomirska – médica e profa. da Ufal
A chamada “Era de Aquário” ganhou popularidade entre as décadas de 1960 e 1980 como a promessa de um despertar da humanidade para valores como paz, liberdade, igualdade e expansão da consciência. Décadas depois, o mundo parece, ao mesmo tempo, realizar e frustrar essas expectativas. A tecnologia aproximou pessoas, democratizou o acesso à informação e ampliou vozes antes silenciadas, mas também intensificou desigualdades, polarizações e a circulação de conteúdos falsos e manipulados.
Como grandes pensadores interpretariam esse contraste entre sonho e realidade?
Friedrich Nietzsche provavelmente questionaria a própria ideia de “verdade absoluta”. Em “Além do Bem e do Mal”, argumenta que toda visão de mundo é influenciada por interesses e perspectivas. Assim, as fake news seriam uma manifestação extrema da disputa por narrativas. No ambiente digital, qualquer indivíduo ou grupo pode construir versões convenientes da realidade e disseminá-las rapidamente.
Nicolau Maquiavel adotaria um olhar pragmático. Veria as fake news não como problema moral, mas como instrumento de poder e manipulação política. Em “O Príncipe”, mostrou que, na política, a aparência muitas vezes vale mais do que a essência. O mundo atual, marcado pela disputa de narrativas nas redes sociais, parece bastante alinhado à sua visão: criar inimigos, fortalecer imagens públicas e mobilizar emoções tornaram-se estratégias recorrentes.
Albert Camus, com sua filosofia do absurdo, talvez afirmasse que teorias conspiratórias oferecem uma falsa sensação de sentido em um mundo caótico. Em vez de enfrentar a complexidade da existência, muitas pessoas preferem respostas simples e ideológicas.
Karl Marx acrescentaria uma crítica estrutural. Para ele, a circulação da informação está ligada a interesses econômicos. Plataformas digitais lucram com engajamento, emoções e polarização, mesmo que isso comprometa a verdade. Nesse sentido, as fake news seriam consequência de um sistema que transforma atenção e conflito em mercadoria.
Entre os pensadores mais idealistas, Platão talvez fosse o mais atual. Em sua “Alegoria da Caverna”, os seres humanos vivem presos, observando sombras na parede e acreditando que aquilo é a realidade. Apenas ao sair da caverna alguém percebe o quanto estava enganado, mas o conhecimento verdadeiro exige esforço e provoca desconforto. Hoje, as fake news funcionariam como essas sombras: versões distorcidas da realidade que confortam e confirmam crenças sem exigir reflexão profunda.
Confúcio enfatizaria a dimensão ética do problema. Para ele, uma sociedade saudável depende da confiança, da responsabilidade e da harmonia social. A disseminação de notícias falsas representaria a perda dessa bússola moral, substituindo a verdade pelo interesse individual e contribuindo para o caos social.
Por fim, Jesus Cristo provavelmente defenderia que a transformação verdadeira começa no interior das pessoas, por meio da compaixão e do compromisso com a verdade. Seus ensinamentos alertam para os “falsos profetas” e para os perigos da mentira como instrumento de manipulação e afastamento moral.
Esse debate imaginário deixa algumas lições. A desinformação não nasce apenas da tecnologia, mas também do medo, da necessidade de pertencimento e da busca por respostas fáceis. O conhecimento verdadeiro exige esforço, pensamento crítico e disposição para questionar aquilo que nos conforta.
Talvez a grande contradição do nosso tempo seja esta: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em distinguir verdade de manipulação. A “Era de Aquário” prometia expansão da consciência. O desafio atual é decidir se usaremos a tecnologia para ampliar conhecimento e humanidade ou apenas para multiplicar sombras dentro da caverna.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



