É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cirurgião especializado em cirurgia digestiva. Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

Conteúdo Opinativo

Memória e esquecimento

17/04/2026 - 06:00
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A vida é uma dança estranha entre a memória e o esquecimento. Muitas vezes, carregamos em nossos ombros as frustrações e os fracassos como se fossem fardos indesejados que nos puxam para baixo. No entanto, é preciso enxergar que, sem o ato de esquecer, o peso do passado impediria a luz do presente. O esquecimento exige perdão, anistia — nem que seja a si próprio.

Meu primeiro abalo ocorreu durante minha jornada acadêmica. Buscava um mestrado em um serviço de cirurgia reputado e, ingenuamente, caí na cirurgia experimental. Quanto mais me esforçava, mais me via alheio ao universo em que tentava me encaixar. As portas se fechavam: um eco silencioso de minha incapacidade. Quando mudei para um serviço de cirurgia digestiva, a verdade se revelou: o sucesso não estava na luta contra o mar, mas em aprender a navegar com suas ondas.

A vida não se restringe à carreira profissional. A separação, após dez anos de casamento, foi outra frustração. Eu nunca incluí essa possibilidade. O amor que um dia floresceu entre mim e minha ex-parceira findou. Minhas filhas, com cinco e sete anos, tornavam a situação dramática, e a dor da separação, indizível. Segurei o touro pelos chifres e disse a meu ego: nenhuma mulher será maior que minhas crianças. Atravessei esse período com o estoicismo de Sêneca e do imperador filósofo Marco Aurélio.

Quanto ao amor, você “não entra e sai da amada como se entra e sai do teatro”, assinalou o drummondiano Sidney Wanderley. Cicatrizes ficam. Maior que o estresse de um divórcio, só a própria morte para superá-lo. E segue a separação: ser chamado a prestar contas à Justiça. Freud, em seu ensaio Luto e Melancolia (1917), assinala que o trabalho do luto envolve um desligamento doloroso da memória do objeto perdido. A superação, para ele, significava que a energia psíquica (libido) era liberada para novos investimentos, permitindo que o indivíduo seguisse em frente. Ou, em linguagem comum, que a ausência de dor ao revisitar uma memória trágica é o indicativo final de que o “trabalho do luto” foi concluído e a cura, alcançada.

Como um cirurgião deve aprender a lidar com o sofrimento, eu precisava, pessoalmente, aprender a renascer em meio à dor, pois o cirurgião, em sua missão, lida com as lesões no corpo físico das pessoas e com o mistério inenarrável do sofrimento humano (Papa Pio XII, ao receber cirurgiões em um congresso internacional em Roma, 1945). “Tarefa hercúlea: para sempre ser esperança ao tocar uma alma humana, sendo apenas outra alma humana” (Jung).

E, quando pensei que nada poderia ser mais devastador, a vida decidiu me testar: a perda do primeiro neto. O luto era um espaço sombrio, onde as memórias insistiam em circular. Como poderia eu lidar com tanta tristeza? Mas foi exatamente ali, no profundo desespero de minha filha, que percebi a importância do esquecimento. O ato de deixar irem as memórias dolorosas abriria espaço para algo novo. E chegou o segundo neto, da mesma mãe, cheio de curiosidade e inteligência, que me empurraram para a felicidade. Como Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas, acreditei que “se Deus existe, há sempre uma saída”.

Hoje, aos 71 anos, ao lançar meu livro de memórias Engenho Cambuí (Viva, Maceió, 2025), vejo que o esquecimento desempenhou um papel fundamental em minha trajetória. Não me avisaram. Demorei a aprender. E quem não adere, espontaneamente ou à força, ao esquecimento de suas experiências desagradáveis sucumbe e pode chegar ao suicídio.

Esse tempo de superação depende de cada pessoa. Processo semelhante ocorreu com um ortopedista americano que, pilotando seu avião, sofreu uma pane, caiu e percebeu que o atendimento no hospital foi pior do que aquele que ele próprio pôde oferecer a seus entes queridos no local do acidente, no qual morreram quase todos — apenas ele e um filho sobreviveram. Ele transformou essa dor em um dos maiores sistemas padronizados de atendimento a acidentados, reduzindo mortes e evitando sequelas: o ATLS (Advanced Trauma Life Support), do Colégio Americano de Cirurgiões, difundido no mundo inteiro.

Os sucessos que conquistei e as homenagens que recebi foram construídos sobre as bases do perdão a mim mesmo e da superação das tragédias pessoais. Viver sem lembrar é uma possibilidade, mas esquecer para viver é uma necessidade. É o esquecimento que nos oferece a libertação, que transforma a dor em aprendizado, permitindo-nos elevar a vida a um novo patamar, onde a luz do presente pode brilhar sem as sombras do passado.

Concluo com o imperador filósofo citado: “A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fizerem dela”, porque “você tem poder sobre sua mente, não sobre os acontecimentos externos” ou, no dizer do bispo de Hipona: “Os tempos somos nós que construímos”.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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