Medicina e a geração Z
Texto de Rozangela Wiszomirska – Médica e Profa. da Ufal
A Geração Z, formada por jovens nascidos entre o final dos anos 1990 e o início da década de 2010, é considerada a primeira geração verdadeiramente digital. Cresceu com acesso rápido à informação, forte presença das redes sociais e grande familiaridade com tecnologia. Em geral, apresenta habilidade multitarefa, preferência por conteúdos rápidos e valorização da autenticidade, diversidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Por outro lado, a busca por respostas imediatas pode reduzir a tolerância à frustração e dificultar processos que exigem tempo e aprofundamento, como a formação médica.
Atualmente, grande parte dos estudantes de medicina pertence a essa geração. Não são raras as queixas sobre excesso de conteúdos, aulas, atividades e compromissos. O curso de medicina é extenuante. E alguns jovens da Gen “Z”, inseridos em uma cultura de informação rápida, podem subestimar a necessidade de estudo contínuo e aprofundado para o desenvolvimento de sua aprendizagem. Isso contribui para frustrações frequentes ao longo da formação, marcada por alta exigência e necessidade de persistência.
Ao mesmo tempo, esses estudantes estão se tornando os novos médicos. Isso levanta uma questão central: como será a relação médico – paciente? Esse vínculo já vem passando por transformações importantes. O acesso ampliado à informação faz com que pacientes cheguem às consultas mais informados, com hipóteses próprias e maior desejo de participação nas decisões. Questionam condutas, solicitam exames e, por vezes, resistem a orientações que não correspondem às suas expectativas.
Quando médicos e pacientes pertencem à mesma geração, surgem novos desafios. A valorização da horizontalidade e da validação social pode dificultar o exercício da autoridade clínica necessária em determinadas situações. O jovem médico pode enfrentar o dilema entre manter o rigor científico e evitar conflitos ou desaprovação — inclusive no ambiente digital. O conflito entre o “médico influenciador” e o “médico da evidência” revela que sustentar um limite ético exige, hoje, uma maturidade emocional que desafia a cultura do compartilhamento e da validação constante. Sustentar um “não” fundamentado torna-se, assim, uma tarefa mais complexa, exigindo segurança profissional.
Por outro lado, a Geração Z apresenta vantagens importantes para o futuro, como alta fluência digital, facilitando o uso de tecnologias e inovação; grande capacidade de adaptação a mudanças; valorização da diversidade e do cuidado mais humanizado; e forte busca por propósito no trabalho, o que pode aumentar o engajamento profissional. Além disso, está habituada ao aprendizado contínuo e a múltiplas fontes de informação.
Ainda assim, a boa prática médica deve se basear em evidências, e não em tendências. Negar exames desnecessários ou tratamentos sem indicação é parte essencial do cuidado. A forma de comunicar essa negativa é que precisa se adaptar. Modelos mais autoritários tendem a ser menos eficazes com essa geração. Em seu lugar, ganha espaço uma abordagem baseada em diálogo, transparência e construção conjunta de decisões.
Diante desse cenário, o futuro da medicina dependerá da capacidade de adaptação. Será fundamental investir, desde a graduação, no desenvolvimento de pensamento crítico, comunicação assertiva e manejo de frustrações. As instituições de ensino precisarão ampliar o que já vêm fazendo: equilibrar o uso de tecnologias adaptadas à realidade da geração e metodologias inovadoras com o aprofundamento do raciocínio clínico.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



