Ler para não deixar de pensar
Angela Canuto – Médica e Profa. da Ufal/Doutora em Bioética pela Universidade do Porto(Portugal).
Será o livro um desafio para a contemporaneidade? Teriam as redes sociais e a inteligência artificial capacidade de destruir os livros e, sobretudo, a nossa capacidade de leitura? Como pessoa apaixonada por livros, em qualquer de suas formas — físico ou Kindle –, acredito que não. O livro permanecerá como espaço privilegiado de reflexão, aprofundamento, conhecimento e formulação de novas ideias. Não porque a tecnologia seja incapaz de nos oferecer conhecimento, mas porque informação e pensamento são experiências diferentes.
Vivemos uma época paradoxal. Nunca tivemos acesso a tanta informação e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos enfrentado tanta dificuldade para permanecer longamente diante de uma única ideia. As redes sociais nos oferecem conteúdos fragmentados, sucessivos e velozes. A inteligência artificial pode localizar, resumir, comparar e explicar em poucos segundos aquilo que exigiria horas de leitura. Mas obter rapidamente uma informação não significa necessariamente vivenciar a experiência de ler.
Foi nessa inquietação que encontrei Julián Fuks. Em seu texto Por que ler livros? Para adiar o fim do pensamento, o fim da vida, ele nos lembra que a leitura não deve ser reduzida à aquisição de informações. Ler exige tempo, atenção e disponibilidade para que o pensamento aconteça. Talvez aquilo que a tecnologia considera “tempo perdido” seja justamente o tempo necessário para pensar. Minha conclusão, entretanto, não se resume a uma convicção pessoal. Busquei uma base de sustentação para que ela não fosse apenas fruto de um “achismo”. E encontrei em alguns autores interlocutores que ampliaram minha própria experiência.
Em Hannah Arendt, encontrei um importante alicerce para compreender o ato de pensar. Pensar pressupõe uma interrupção do automatismo cotidiano, uma retirada momentânea do fluxo das coisas para examinar, questionar e conversar interiormente conosco mesmos. É exatamente isso que reconheço na leitura: quando um livro realmente nos alcança, ele não apenas acrescenta informações; ele nos faz parar. Alberto Manguel, em Uma história da leitura, acrescenta outra dimensão: ler é estabelecer uma espécie de conversa com quem não está presente. O livro permite dialogar com autores de outras épocas, com pessoas que jamais conheceremos e com experiências que nunca viveremos diretamente. Minha própria história de leitora confirma essa experiência. Aos quinze anos, comecei a ler Jorge Amado, sob os protestos de meu pai, que o considerava impróprio para uma adolescente. Depois vieram Sartre e Hermann Hesse. Na maturidade, debrucei-me sobre Cervantes, Joyce, Proust, Thomas Mann, Machado de Assis e Eça de Queirós, entre tantos outros. Hoje vivo uma experiência singular com as Confissões, de Rousseau. E, quando estou cansada, reencontro a leveza na biografia de Roberto Carlos, cantor da minha adolescência.
Cada livro, em diferentes momentos da vida, encontrou uma leitora diferente. Talvez seja essa uma das maiores riquezas da leitura: não somos os mesmos quando voltamos às palavras. Por isso, acredito no futuro do livro. O suporte pode mudar, mas o essencial permanece: a capacidade de permanecer diante das palavras, deixar-se provocar por elas e transformá-las em pensamento próprio. Numa sociedade marcada pela velocidade, talvez ler profundamente seja uma forma de resistência contra a dispersão. Porque, no fim, talvez não leiamos apenas para saber mais. Lemos para pensar melhor. E, enquanto pensamos, continuamos a construir quem somos.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



