É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cirurgião especializado em cirurgia digestiva. Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

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Reflexões sobre o sentido da vida


Ângela Canuto – Médica e profa. da Ufal

A vida é um dos maiores mistérios da existência humana. Vivê-la nunca foi tarefa simples. Cada dia representa um novo embate, uma luta silenciosa ou ruidosa, em que somos chamados a enfrentar desafios físicos, emocionais e espirituais. Cuidamos do corpo porque sabemos de sua fragilidade e de sua suscetibilidade às inúmeras patologias que podem surgir ao longo da existência. Contudo, tão importante quanto preservar a saúde física é cuidar da mente e do espírito, dimensões inseparáveis do ser humano.

Os tempos atuais têm nos apresentado uma realidade inquietante. Vivemos uma preocupante epidemia de sofrimento psíquico, particularmente entre os jovens. Segundo dados do Ministério da Saúde, em consonância com o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), o Brasil registra cerca de 14 a 15 mil mortes por suicídio por ano. Entre pessoas de 15 a 29 anos, ocorrem aproximadamente de 2.500 a 3 mil suicídios anuais, tornando essa uma das principais causas de morte nessa faixa etária. Esses números não são apenas estatísticas; representam vidas interrompidas, famílias devastadas e uma sociedade que ainda precisa aprender a reconhecer, acolher e tratar o sofrimento emocional.

Há um programa da TV Cultura que sempre despertou minha atenção. Inicialmente apresentado por Antonio Abujamra e, atualmente, por Marcelo Tas, encerra cada entrevista com uma pergunta aparentemente simples: "O que é a vida?". A resposta, porém, nunca é simples. Intelectuais, artistas, cientistas e personalidades das mais diversas áreas oferecem definições distintas, mas quase todas convergem para o indeterminado, para a dificuldade de explicar aquilo que todos experimentamos, mas ninguém consegue traduzir plenamente.

Não faço aqui uma crítica, mas uma constatação. Talvez a vida seja justamente aquilo que escapa às definições. Desde a Antiguidade, filósofos tentam compreender seu significado. Sócrates ensinava que uma vida não examinada não merece ser vivida, e defendia o autoconhecimento como fundamento da existência. Platão via a vida como uma jornada da alma em busca da verdade e do bem. Aristóteles, por sua vez, afirmava que sua finalidade era a felicidade, não entendida como prazer efêmero, mas como a construção de uma vida virtuosa, equilibrada e plena.

Apesar da genialidade desses pensadores, nenhum deles conseguiu oferecer uma resposta definitiva. Talvez porque a vida não seja um conceito, mas uma experiência. Ela se transforma com o tempo, com as perdas, os reencontros, as alegrias e as dores que moldam nossa trajetória.

Quanto a mim, médica, professora e, antes de tudo, uma simples mortal, a vida é um desafio permanente. É coragem para enfrentar as adversidades, perseverança diante das dificuldades e disposição para recomeçar sempre que necessário. Mas é também fé quando a razão já não basta, esperança quando tudo parece perdido, solidariedade diante da dor do outro e um profundo desejo de aperfeiçoamento diário.

Talvez nunca descubramos, de forma definitiva, o verdadeiro sentido da vida. Ainda assim, isso não diminui sua grandeza. Ao contrário, é justamente esse mistério que a torna fascinante. A vida se revela menos nas respostas prontas e mais na maneira como escolhemos vivê-la: amando, aprendendo, servindo, superando nossas limitações e encontrando, a cada novo dia, razões para continuar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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