Entre a Paixão e a Razão: Uma Viagem pelo Mundo da Arte
Refiro-me à arte plástica, particularmente a pintura. Quando caí nessa barafunda, uma generosa e ilustre galerista da Lenach São Paulo, Rosana, prognosticou: - Primeiro, se inicia com a paixão; segue-se a obsessão, onde tudo que aparece se compra. E por fim, a fase de edição. Quem conheceu esse universo não o deixará jamais, tal o impacto inebriante no seu cognitivo. É uma cocaína, que se não o destrói em sua saúde física e mental, pode fazê-lo sucumbir financeiramente se abrir a guarda para o deslumbramento sem modulação da razão.
O embaixador Gilberto Chateaubriand, filho do monumental Assis Chateaubriand, com quem vivia às turras, foi a Salvador para compromissos profissionais e, ao descer, Odorico Tavares, também embaixador, foi recebê-lo no aeroporto e disse: “Antes de irmos ao hotel, vou lhe levar a um amigo, de quem vai gostar.” Num quarto de hotel abandonado, recebeu-o um senhor pobre e rodeado de telas. Era o ateliê do pintor Pancetti (1953), de quem se tornaria amigo. Após a conversa, este tomou um pequeno quadro, ‘Paisagem de Itapoã’, e deu-lhe de presente. A ebulição que a tela gerou em Gilberto foi tamanha que desencadeou sua paixão pelas artes plásticas, culminando como um dos maiores colecionadores do Brasil, e Pancetti, um dos pintores mais caros do país. Também quero um Pancetti. Dia desses fui até um quarto de cem mil reais, extrapolou para trinta mil uma pequena tela de marinha. Desisti. Antes dos oitenta anos chego lá.
Gilberto iniciou uma coleção de arte nacional, especialmente dos modernistas, chegando a ter milhares de telas em sua coleção. Quando a mania virou obsessão, apaixonava-se por um quadro num dia e no outro já o achava simplesmente feio e horrível. Muitos anos depois, o fogo devorou o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e Chateaubriand filho doou grande parte de sua coleção. Tal gesto não deixa de ser um entranhamento genético, pois o pai, Assis Chateaubriand, fundou o maior museu da América Latina (MASP - Museu de Arte de São Paulo), ainda hoje esplêndido sobranceiro na Avenida Paulista, apoiado por Pietro Maria Bardi e Lina Bo Bardi, a arquiteta.
A beleza não precisa dizer onde ela está. Todo mundo vê (Aristóteles). Essa frase ecoa em cada tela, em cada pincelada, como um lembrete de que a arte é uma linguagem universal. Ela fala ao coração e à mente, transcende o tempo e o espaço, e nos conecta de maneiras que muitas vezes não conseguimos explicar. Cada obra é uma janela para o mundo do artista, uma exposição de suas emoções, suas vivências, suas lutas e suas conquistas. Duas pessoas potencializaram meu olhar inato para a beleza: Gicélia Sampaio, pintora e restauradora. A voz vivenciada. Sutil, inteligente e perspicaz. Nem sempre você está pronto para receber o insight(estalo profundo de intuição); tem a melhor paleta para Pierre Chalita. A segunda pessoa, Rosana Carnielli, vive o instante já da arte as vinte e quatro horas do dia, numa erudição desmedida sem nunca ter feito a formação específica; mas é proprietária de galeria: respira, vive e transpira arte.
Assim, a magia da arte não reside apenas na beleza estética, mas na capacidade de transformar, de provocar reflexão e de nos fazer sentir. É um convite a olhar além do óbvio, a mergulhar em universos distintos, onde cada cor e forma têm seu significado. Ao final, não se trata apenas de adquirir uma pintura, mas de abraçar a história e a paixão que ela carrega. Essa é a verdadeira essência da arte: um legado de amor e expressão que perdura, eternamente vivo em cada um de nós.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



