As crianças digitais e o Meio Ambiente
No feriadão do sete de setembro, a família ampliada se reuniu no sítio originário do Engenho Cambuí. Já era final do domingo quando minha filha chegou com o genro e o casal de filhos. A noite começou reunindo netos de adultos a bebês. Eu me agarrei aos meus e fui apresentar ao mais velho, de sete anos, a estrela da boca da noite (Vênus), que ele achou grande e bela. Adiante, o sapo cururu saiu da toca assustando a todos com o mito de seu “xixi venenoso”. Expliquei-lhe que era apenas a reação de uma glândula ao estresse e censurei o ímpeto de maltratá-lo. O bicho limpava o quintal devorando os besouros que nos incomodavam. A noite nublou, impedindo-nos de localizar o Cruzeiro do Sul. Contudo, as formigas faziam a festa. Convoquei-o para observar a trilha daquelas operárias carregando cargas três vezes maiores que o próprio peso. Ele quis descobrir a origem do caminho. Na manhã seguinte, ensinei-lhe que o formigueiro repousava durante o dia.
Diante do rastro de destruição nas folhas, interpelei o Ginho, cunhado e gerente, cobrando o uso de venenos. Afinal, a história daquele chão exigiu um suor antigo. Meu pai, um agricultor pobre, ergueu o sítio na década de 1940 em meio à Mata Atlântica, hoje inexistente. Para afastar os insetos que devoravam suas fruteiras – muitas ainda vivas e de pé –, ele carregava na cabeça latas de manipueira, a água tóxica da mandioca espremida no caititu, em trabalho hercúleo movido à mão.
Incontinenti, ao ouvir minha cobrança por veneno, meu neto bradou: “Não pode matar as formigas; elas são do ambiente!” Bestificado fiquei com aquela lição viva de Alexander von Humboldt. O cientista e conde revolucionou o mundo ao compreender e provar que a terra funciona como um organismo vivo e que a sobrevivência de uma espécie depende da existência de outra.
Ao ouvir aquele apelo em defesa das formigas, percebi que a semente dessa percepção ecológica já reside no imaginário das novas gerações. Nascidas e criadas sob o bombardeio de telas, algoritmos e estímulos virtuais, essas "crianças digitais" frequentemente carregam o estigma do isolamento e do distanciamento da terra. No entanto, a reação do pequeno me provou o contrário.
Mesmo imersos na tecnologia, o currículo escolar moderno, os desenhos educativos e a consciência global atual parecem ter plantado neles um respeito intrínseco pela engrenagem da vida. Onde o homem do século passado enxergava a natureza como um obstáculo a ser dominado, a criança digital de hoje enxerga um ecossistema que exige preservação.
Aquela noite no sítio não foi apenas um momento de lazer familiar, foi um testemunho de transição cultural. A tecnologia não precisa ser a antítese do meio ambiente. Quando ancorada na sensibilidade, ela permite que os jovens processem a ciência de Humboldt com uma velocidade espantosa. O desafio da nossa época não é afastar as crianças das telas, mas garantir que elas continuem pisando descalças na grama, para que o conceito abstrato de "ambiente" que defendem com tanto vigor continue tendo o cheiro de terra molhada e a presença viva das formigas trabalhando no quintal.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



