A Luz e força Bruxuleantes: A Juventude nas ruas
A história não segue um fluxo linear; ela caminha em ondas de fluxo e refluxo. Desde que Karl Marx, em O 18 de Brumário, nos alertou que a humanidade tenta decifrar os enigmas dessas marés políticas. No cenário contemporâneo, uma onda global de extrema-direita se propaga pelo mundo inteiro. No Brasil, esse refluxo manifestou-se de forma dramática quando o candidato defensor da ordem democrática viu-se atrás do filho do mandatário associado às investidas antidemocráticas e à perpetração do golpe de 8 de janeiro. Diante desse cenário muitos temeram que o país sucumbisse à escuridão.
No entanto, nas três semanas que antecederam o segundo turno das eleições presidenciais, testemunhamos a mais bela manifestação de massas registrada no país desde a histórica campanha das "Diretas Já" embalada pela juventude dos millennials e da Geração Z.
Essa insurgência juvenil não se deu pela via da melancolia, mas sim pela subversão criativa. Os jovens ocuparam as vias públicas e as entupiram com uma vibrante mistura de vitalidade e alegria. Em uma manobra tática espontânea, assaltaram a estrutura tradicional e analógica conduzida pela burocracia partidária e mergulharam de cabeça nas redes virtuais, promovendo uma espécie de vigilância midiática contínua e engajada em prol da candidatura democrática.
O gigantismo e a capilaridade geográfica desse fenômeno redesenharam a geografia cívica do país. Na Avenida Paulista, em São Paulo, oito de seus nove quarteirões foram totalmente tomados por uma multidão que entrelaçava bandeiras verde-amarelas e vermelhas, alcançando o ápice quando a massa cantou uníssona o Hino Nacional e o Hino da Independência. No Rio de Janeiro, a icônica Praia de Copacabana redimensionou-se em seus oito quilômetros de extensão completamente repletos. Mais sensacional ainda foi ver que essas sementes de resistência democrática brotaram espontaneamente pelo "Brasil profundo" — das grandes capitais aos menores municípios interioranos.
Para compreender a emersão dessas forças renovadoras, vale recorrer ao pensamento de Hannah Arendt em sua obra Homens em Tempos Difíceis. A filósofa nos assegura que, mesmo nas épocas mais obscuras da humanidade, temos o direito de esperar uma iluminação. Essa luz não provém de teorias abstratas, mas de uma "força bruxuleante" que emerge inesperadamente na história por meio da ação de indivíduos que se recusam a aceitar a opressão — seja como fruto do acaso, do destino ou de conjunções singulares. No contexto brasileiro a nossa juventude encarnou com precisão cirúrgica essa força bruxuleante acendendo uma centelha de esperança onde antes havia o medo.
Essa reação enérgica das ruas ganha contornos explícitos quando traçamos um paralelo direto entre o cenário nacional e a teoria política de vanguarda. No livro badalado” Como as Democracias Morrem (2018), Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, demonstram que as democracias modernas raramente terminam com golpes militares clássicos ou tanques nas ruas. O colapso contemporâneo opera-se de forma gradual, legal e silenciosa, conduzido por líderes autocratas que chegam ao poder por vias eleitorais legítimas e, uma vez eleitos, usam o próprio arcabouço legal para enfraquecer e corroer os mecanismos institucionais de controle.
O Brasil recente reproduziu fielmente os sinais de alerta dessa autocracia dissimulada, que os autores de Harvard chamam de "Prova dos Nove": o questionamento antecipado das regras do jogo eleitoral, a negação da legitimidade dos oponentes (tratados não como adversários, mas como inimigos mortais a serem eliminados), a tolerância ou encorajamento à violência e o cerceamento das liberdades civis e da imprensa. Da mesma forma, testemunhou-se a erosão das duas normas informais essenciais para a estabilidade democrática: a tolerância mútua e a autocontenção no uso do poder legal (forbearance).
A lição fundamental é que a principal barreira contra esses autocratas não é a população agir apenas espontaneamente, mas sim os partidos políticos tradicionais exercerem o papel de isolar, barrar e formar coalizões contra candidatos antidemocráticos antes que seja tarde demais. O erro histórico — como ocorreu na Alemanha em 1933 com a ascensão de Hitler — é quando partidos moderados tentam fazer acordos com outsiders radicais achando que conseguirão "domesticá-los" para atrair votos, o que acaba por legitimar o autoritarismo.
O paralelo com a nossa realidade é inevitável e alarmante. O sinal de alerta definitivo manifestou-se explicitamente na figura do candidato filho do Presidente que, ao anunciar abertamente o plano de "reformar a Constituição se ganhar", materializa a tese sobre como líderes eleitos sufocam as instituições por dentro. Contudo, enquanto as estruturas tradicionais hesitam, a juventude brasileira provou nas ruas que a democracia é um organismo vivo. Suas manifestações foram as sementes de esperança lançadas no solo do Brasil profundo, lembrando-nos de que a barbárie não é um destino inevitável, mas uma maré que pode — e deve — ser revertida pela força da mobilização popular.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



