O senhor do tempo
Texto de Angela Canuto – médica gastroenterologista e Doutora em Bioética pela Universidade do Porto, Portugal.
Hoje duvido de muitas coisas. Até do tempo. Ele existe por si mesmo ou é uma percepção criada para organizarmos a vida em sociedade? Os relógios dividem o dia em horas; os calendários, o ano em meses. Mas nenhum deles explica por que, às vezes, os dias parecem tão breves — nem por que a passagem dos meses pode nos trazer angústia.
Santo Agostinho, nas Confissões, formula a pergunta que ainda nos acompanha: “Que é, pois, o tempo?” Ele observa que o passado já não existe e o futuro ainda não chegou. O presente, enquanto tentamos segurá-lo, já começa a virar lembrança. O ano parece correr por cenas conhecidas: começa com o Carnaval, logo chegam os festejos de São João e, quando percebemos, estamos diante das festas de fim de ano. O ciclo se fecha e esperamos o próximo, como se a vida nos oferecesse outra página. Ainda assim, há anos que passam depressa demais e dias que demoram a terminar.
Na infância e na adolescência, o tempo me parecia lento. Tudo era novidade: lugares, pessoas, descobertas. Li que, ao envelhecer, sentimos o tempo passar mais depressa porque temos menos experiências inéditas para nos surpreender. Entendo a explicação, mas ela me parece simples demais. Será que a rapidez dos anos revela apenas a rotina? Ou também nos faz perceber que estamos envelhecendo — e que não podemos guardar tudo o que passa?
O filósofo Henri Bergson distinguia o tempo medido pelos relógios da duração vivida: aquela experiência interior em que minutos podem parecer longos ou curtos, conforme o que sentimos. Talvez por isso uma espera pareça interminável, enquanto um encontro feliz termina num instante. O calendário mede intervalos; a memória lhes dá peso. E a física, o que diz? A teoria quântica não oferece uma resposta simples para a pergunta sobre a natureza do tempo. Na busca por aproximar a física quântica da relatividade, o papel do tempo continua sendo uma questão em aberto. Einstein, numa carta de condolências à família de seu amigo Michele Besso, escreveu que a distinção entre passado, presente e futuro era uma “ilusão persistente”. A frase é provocadora, mas não significa que nossa experiência cotidiana seja falsa nem que a ciência tenha encerrado o debate.
Talvez nunca compreendamos por inteiro o que é o tempo. Talvez ele seja medida, mudança, memória — ou tudo isso junto. Sei apenas que não adianta brigar com ele. O tempo é inexorável e, de algum modo, senhor da razão: segue seu curso sem esperar que estejamos prontos. Em vez de gastar os dias angustiada com a rapidez da passagem, posso tentar preenchê-los com o que lhes dá sentido: afeto, curiosidade, descanso, trabalho e presença. Não para deter o tempo, mas para habitar melhor aquilo que nos cabe. Enquanto ele passa, vamos escrevendo a nossa história.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



