Entre o erro e a ilusão
Texto de Roberto Sarmento Lima – Doutor em Literatura Brasileira pela Ufal e crítico literário
Já se disse que o Brasil é um país onde tudo pode acontecer, de bom e de ruim. Recentemente, o candidato à Presidência Renan Santos, do Missão, bastante conhecido por sua ferocidade verbal, declarou, após o resultado do primeiro turno para presidente da República, que “o Brasil é um país doente”. A frase é antiga, não é original dele, mas tem força heurística cada vez maior na atualidade. Talvez por sermos permeáveis a tudo que é possível e impossível, isolada ou simultaneamente. Inclusive entre os menos favorecidos (os quais, por vezes, parecem divertir-se com a desordem e a desestruturação, num exemplo claro de que toda desgraça é pouca, outro velho axioma).
Por isso não há pecado abaixo da Linha do Equador; e, por isso também, tudo é perdoado, mesmo quando Satanás nos atinge de cheio. E chegamos até a sorrir diante do infortúnio, como a Geni da canção de Chico Buarque, ao ser usada e lambuzada pelo homem do zepelim e desprezada pelas pessoas da cidade. Somos crédulos demais e, portanto, ridículos, embora não nos percebamos desse modo. Decretamos nosso próprio mal e nosso triste fim, como o crédulo e igualmente ridículo Policarpo Quaresma.
Todavia, há, felizmente, aqueles que pensam com mais justeza e mais razoabilidade. Estes lidam com pautas fundadas na Razão (boa ou má, ou entre boa e má, já que o valor da razão não é absoluto, como pode fazer pensar a inicial maiúscula que coloquei aí), enquanto os que não gostam de pensar pelo lugar certo dão preferência, maliciosamente, ao império da Subjetividade e têm horror a que lhes digam que são produtores de ilusão — ou má consciência. Os primeiros, ditos mais realistas, gostam de falar de Segurança Social; os segundos, mais subjetivistas, preferem estimular o Ódio nas pessoas, para que possam pensar em obter a tal segurança.
Acontece, porém, que, como já sugeri, nenhuma dessas linhagens do pensamento é pura em si mesma; trocam figurinhas. O racionalista tem momentos de exaltação emocional, como o demonstra o Bentinho de “Dom Casmurro”, possivelmente vítima de uma ilusão que ele mesmo preparou e de que nunca se convenceu. Já o romântico finge sua lucidez, como deixa ver Lucien de Rubempré, que, ao final do romance “Ilusões perdidas”, de Balzac, percebe o esfacelamento de todas as ilusões criadas desde a juventude para se dar bem na vida. Bentinho errou, mas confia no seu sistema de verdade; Rubempré não considerou erro o que fez ao longo da vida e preferiu dizer que perdeu as ilusões.
Aliás, no Brasil pensa-se pouco no erro, e mergulha-se de corpo aberto na convivência ambígua e dolorosa das polarizaçoes políticas, palco e cultivo de inúmeras perversões. Em “O futuro de uma ilusão”, Freud sentencia que a ilusão resulta de um desejo que se quer satisfazer a qualquer custo, indiferente ao que informa a realidade circundante. É assim que se ajustam as pessoas a uma crença no futuro, mesmo que as condições materiais do presente não sustentem tal argumento. É, pois, o poder da ilusão, espécie de promessa do Paraíso de Deus na terra em que gostamos de nos refestelar.
A literatura universal vem testemunhando essa perigosa ondulação. Anton Tchékov, na sua peça de teatro “Tio Vânia”, deixa escapar da boca do protagonista, remanescente da aristocracia rural arruinada, o lamento de que “o que destrói o mundo não são os bandidos nem os incêndios, mas sim o ódio”. Uma explicação que não vem da Razão, senão da Subjetividade, cuja função é enganar e enganar-se. Alguém aqui já ouviu falar do “escritório do ódio” e a quem ele, no Brasil, é atribuído?
Já Dostoiévski, em “Os demônios”, também falando de incêndios criminosos espalhados na Rússia czarista pelos niilistas, aqueles que querem uma Rússia menos russa e mais moderna, afirma que o ódio veio para ficar; e um sinal disso é que “a primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e dos talentos”.
Alguma semelhança, leitor, disso tudo com os dias de hoje?
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



