Mulher brasileira: o que há para comemorar?
No calendário oficial, o 8 de março é celebrado como o Dia Internacional da Mulher. Nas vitrines, flores. Nas redes sociais, homenagens apressadas. Nos discursos oficiais, palavras bonitas sobre respeito, igualdade e reconhecimento. Mas basta olhar para a realidade brasileira para que a pergunta surja inevitável, incômoda e dolorosa: o que exatamente as mulheres brasileiras têm para comemorar?
O Brasil é hoje um dos países mais violentos do mundo para se nascer mulher. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada ano milhares de mulheres são assassinadas no país, muitas delas dentro de casa, mortas por quem dizia amá-las. Em média, uma mulher é vítima de feminicídio a cada poucas horas no Brasil. Não se trata de estatística fria. São vidas interrompidas, famílias destruídas e uma sociedade que assiste, muitas vezes, em silêncio.
Mais grave ainda: a violência cotidiana contra mulheres cresce em escala assustadora. São milhões de registros de agressões físicas, ameaças, estupros e violência psicológica. Delegacias recebem denúncias diariamente, mas muitas mulheres sequer chegam a denunciar. O medo, a dependência econômica, a vergonha e a descrença nas instituições ainda são barreiras brutais.
A realidade é ainda mais cruel quando se observa o comportamento de parte do Estado brasileiro. A negligência policial, a morosidade da Justiça e a fragilidade das leis, muitas vezes transformam a vítima em refém de um sistema que deveria protegê-la. Medidas protetivas são descumpridas. Denúncias são ignoradas. Processos se arrastam por anos. E, em muitos casos, o agressor volta para casa antes mesmo da vítima conseguir reconstruir a própria vida.
A tragédia, porém, ganha contornos ainda mais sombrios quando a violência deixa de atingir apenas a mulher e passa a atingir aquilo que ela tem de mais precioso: os filhos.
No dia 10 de julho de 2023, a delegada Amanda Souza saiu de casa para trabalhar como em qualquer outra manhã. Antes de sair, recebeu uma mensagem que parecia um presságio macabro:
“Seu futuro será de tristeza e solidão.”
Horas depois, por volta das quatro da tarde, o telefone tocou. Do outro lado da linha veio uma frase que nenhum ser humano deveria ouvir, muito menos uma mãe:
“Parabéns, você conseguiu o que queria: eu matei os seus dois filhos.”
A barbárie havia sido consumada. Dois inocentes mortos para atingir emocionalmente uma mulher. Uma vingança brutal travestida de loucura ou desespero, mas que, na essência, revela o rosto mais cruel da violência de gênero.
Infelizmente, o horror não parou ali.
Recentemente, em Itumbiara, Goiás, outra tragédia chocou o país. O então secretário de Governo do município, Thales Machado, atirou contra os próprios filhos dentro de casa antes de tirar a própria vida. Um menino de 12 anos morreu antes mesmo de receber socorro. O irmão, de 8 anos, ainda lutou por algumas horas no hospital.Não resistiu à crueldade.
São episódios que revelam uma face perturbadora da violência doméstica no Brasil: o agressor que usa os filhos como instrumento de vingança contra a mãe.
O Dia Internacional da Mulher deveria ser menos festa e mais reflexão. Menos flores e mais indignação. Menos marketing institucional e mais políticas públicas concretas. Porque a realidade é dura:
No Brasil, milhares de mulheres ainda vivem sob ameaça dentro da própria casa.
E quando a sociedade naturaliza a violência, quando o Estado falha em proteger, quando a justiça demora a agir, o que se constrói é um ambiente onde o agressor se sente autorizado e a vítima, abandonada.
O 8 de março não deveria ser apenas um dia de homenagem.
Deveria ser um dia de denúncia. Um dia para lembrar que, enquanto houver mulheres sendo assassinadas, espancadas, humilhadas e silenciadas, não há o que comemorar.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



