ECONOMIA

Após boicotes em AL, Abrasel tenta se distanciar de falas de empresários

Empresários têm ameaçado trabalhadores e eleitores de esquerda
Divulgação
Ministério Público do Trabalho em Alagoas — Foto: Divulgação/MPT-AL
Ministério Público do Trabalho em Alagoas — Foto: Divulgação/MPT-AL

A circulação de listas que incentivam o boicote a estabelecimentos comerciais em Alagoas, por suposto apoio ao presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ganhou um novo capítulo com a divulgação de mensagens de empresários contra trabalhadores e eleitores de esquerda. Diante da repercussão, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Alagoas (Abrasel/AL) divulgou uma nota para se desvincular das declarações, mas não anunciou medidas concretas em relação aos envolvidos.

As listas começaram a circular em grupos de WhatsApp após o segundo turno das eleições, realizado no domingo, 25, e incluem empresas de Maceió, Arapiraca e outras cidades alagoanas. Os estabelecimentos são apontados como ligados à esquerda, embora não haja comprovação dos posicionamentos políticos atribuídos aos proprietários. A campanha pretende estimular consumidores a deixar de frequentar esses locais em razão de divergências eleitorais.

A situação ganhou contornos ainda mais preocupantes com mensagens divulgadas pelo portal Repórter Nordeste, atribuídas a participantes de um grupo de empresários do setor de bares e restaurantes. Em uma delas, um integrante afirma que vai "descontar tudo até comida" dos funcionários. Em outra, um participante defende que "empresário esquerdista tinha que ser banido desse grupo". As conversas também contêm críticas aos direitos trabalhistas, às férias e à redução da jornada de trabalho. Não há confirmação de que as medidas sugeridas tenham sido efetivamente adotadas.

A campanha provocou críticas inclusive entre políticos de direita. O delegado e vereador de Maceió Thiago Prado condenou a iniciativa e afirmou que divergências ideológicas não justificam prejudicar empreendedores. "Não dá para se falar em democracia e, ao mesmo tempo, querer perseguir quem não concorda com nossos ideais", declarou.

Abrasel lamenta manifestações, mas não anuncia providências

Em nota, a Abrasel/AL afirmou que as declarações não representam seu posicionamento institucional. A associação, que reúne mais de 800 integrantes, ressaltou que não se responsabiliza por manifestações individuais de associados, especialmente em grupos de discussão com centenas de participantes. Segundo a entidade, o grupo envolvido na polêmica reúne mais de 600 pessoas. Veja na íntegra:

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Alagoas (Abrasel/AL), diante das notícias que vêm circulando sobre manifestações individuais de empresários em um grupo de WhatsApp, esclarece que tais declarações não representam o pensamento, os princípios ou o posicionamento institucional da entidade.

A Abrasel/AL reúne mais de 800 associados e reforça que não se responsabiliza por opiniões e manifestações individuais de seus integrantes, especialmente em espaços de discussão que reúnem centenas de participantes, como o grupo em questão, composto por mais de 600 pessoas.

A entidade lamenta o teor das manifestações divulgadas, ocorridas em um contexto de discussões acaloradas no período pós-eleitoral, e ressalta que opiniões particulares não podem ser atribuídas à instituição, tampouco generalizadas como expressão do pensamento dos empresários do setor de alimentação fora do lar.

A Abrasel/AL possui um único posicionamento institucional, pautado pelo respeito às diferenças, pelo diálogo e pela união, independentemente de convicções políticas ou ideológicas.

Neste momento, a entidade reafirma que o caminho deve ser o da pacificação, da responsabilidade e do esforço coletivo. Mais do que alimentar divisões, é preciso unir empresários, trabalhadores e toda a sociedade em torno de um objetivo comum: o desenvolvimento econômico e social do Brasil.

Discriminação política pode ter consequências legais

A repercussão ocorre em meio ao aumento das denúncias de assédio eleitoral no país. Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), foram registrados 2.364 relatos em âmbito nacional até terça-feira, 27. O órgão anunciou a apuração de denúncias de incentivo à demissão de trabalhadores por suas escolhas políticas e alertou que retaliações relacionadas às eleições podem configurar assédio mesmo após o encerramento da votação.

O MPT ressalta que a legislação brasileira proíbe dispensas discriminatórias, inclusive por motivação política. Dependendo das circunstâncias, trabalhadores prejudicados podem ter direito à reintegração ou à remuneração em dobro pelo período de afastamento. Denúncias podem ser apresentadas pelo portal do Ministério Público do Trabalho, acompanhadas de mensagens, imagens e outros elementos que ajudem a comprovar os fatos.


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