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Como o WhatsApp atua para conter desinformação em períodos eleitorais
Plataforma combina limitações técnicas e moderação de contas e parcerias para checagem
Com a aproximação do calendário eleitoral, um protagonista já conhecido começa a retomar seu espaço, antes mesmo do início oficial das campanhas, previsto para agosto.
Se, por um lado, a medida amplia o alcance potencial das campanhas e institucionaliza uma prática que já vinha sendo observada nos bastidores, por outro, levanta preocupações sobre o enfraquecimento de mecanismos de controle e o risco de aumento de mensagens não solicitadas no ambiente digital.
Contudo, a plataforma sustenta sua atuação em três frentes: manter o caráter privado das conversas, impedir o uso indevido do serviço e empoderar os usuários no combate à desinformação.
“A eleição passada mostrou o poder da distribuição dentro de ambientes privados. Agora, o que está em jogo não é mais só alcance, mas rastreabilidade, responsabilidade e, principalmente, reputação de quem comunica”, avalia Gustavo Fragoso, CMO da HelenaCRM, plataforma white label voltada à estruturação de operações comerciais via WhatsApp.
A preocupação não é apenas teórica. Investigações jornalísticas realizadas durante as eleições de 2018 apontaram contratos que chegavam a R$ 12 milhões para disparos em massa de mensagens políticas via WhatsApp, prática que posteriormente passou a ser analisada pelo Tribunal Superior Eleitoral e alvo de maior fiscalização das plataformas digitais.
O WhatsApp informou, na mesma época, que baniu mais de 400 mil contas brasileiras durante as eleições por práticas que violavam os termos da plataforma, incluindo disparos automatizados em massa. Nas eleições municipais de 2020, o aplicativo voltou a atuar contra abusos e removeu cerca de 360 mil contas por envio massivo ou automatizado de mensagens eleitorais.
Esse endurecimento passa também por limitações técnicas. Hoje, dados da plataforma mostram que o encaminhamento de mensagens é restrito a até cinco conversas por vez, medida que reduziu esse tipo de compartilhamento em mais de 25%. Já conteúdos identificados como “encaminhados com frequência”, sinalizados por uma etiqueta específica, só podem ser reenviados para uma conversa por vez, o que diminuiu a viralização em mais de 70%. Na prática, isso obriga o usuário a refletir antes de compartilhar e dificulta a disseminação em larga escala.
Outro ponto-chave é a diferença entre os tipos de uso do WhatsApp, especialmente na API oficial da plataforma, que proíbe expressamente o envio automatizado de mensagens políticas em larga escala sem consentimento, um dos principais focos de crítica nas últimas eleições, e reforça a responsabilidade de empresas e campanhas no uso de canais digitais. Já no aplicativo convencional, esse tipo de conteúdo pode circular, desde que respeite limites como consentimento do usuário e ausência de disparos em massa.
"Com a nova proposta aprovada na Câmara, pretende-se alterar esse ponto com o envio em massa, mas isso ainda não foi decidido e encontra-se em análise no Senado. Contudo, o envio acontece para contatos previamente cadastrados, apesar de não detalhar como esse cadastro deve ser feito. Além disso, o que muda também é que haverá bloqueio dessas mensagens pelas plataformas somente mediante ordem judicial, reduzindo a capacidade de moderação em tempo real”.
Para Fragoso, qualquer flexibilização legal que aumente o volume de mensagens pode gerar um efeito colateral importante: a saturação do canal e a perda de confiança por parte dos usuários. "Bom senso é a palavra-chave nesses casos. No WhatsApp, a influência não se constrói pelo volume, mas pela proximidade. É uma mensagem que chega por alguém conhecido, um encaminhamento dentro de um grupo de confiança. Isso torna o impacto mais profundo e, ao mesmo tempo, muito mais difícil de rastrear e monitorar”, afirma.
O especialista da HelenaCRM conta que a estrutura de privacidade do app também evoluiu, permitindo, por exemplo, sair de grupos sem notificação, silenciar ligações de números desconhecidos e controlar quem pode adicionar o usuário a novos grupos, reduzindo o risco de inclusão forçada em redes de disparo. Além disso, ao receber mensagens de números desconhecidos, o usuário passa a ter mais contexto, como grupos em comum, antes de decidir interagir.
Paralelamente às restrições técnicas, cresce a importância de iniciativas voltadas à checagem de fatos.
O próprio WhatsApp mantém parcerias com organizações ligadas à International Fact-Checking Network, como Agência Lupa e Aos Fatos, oferecendo aos usuários caminhos para verificar a veracidade de conteúdos que circulam na plataforma. Em alguns casos, isso inclui números dedicados ou integrações que permitem o envio de mensagens suspeitas para análise.
Além disso, o aplicativo incorporou ferramentas simples de verificação, como a busca direta na internet a partir de mensagens frequentemente encaminhadas.
Outro pilar importante é o combate ativo ao uso abusivo. A plataforma afirma banir mais de 8 milhões de contas por mês por comportamento suspeito, sendo a maior parte identificada por sistemas automatizados antes mesmo de denúncias. Usuários também podem bloquear e reportar contas ou grupos, contribuindo diretamente para a identificação de redes de desinformação.
Na avaliação de Fragoso, esse avanço representa uma virada estrutural no ambiente informacional. “A checagem não entra mais só no fim do processo, para desmentir conteúdos. Ela passou a fazer parte da construção da mensagem, e quem prova o que diz conquista mais confiança do público”, afirma.
Esse esforço aponta para uma mudança relevante no debate. Se antes o desafio central era conter a velocidade da desinformação, agora passa também por estimular uma postura mais crítica por parte dos usuários, inclusive por meio de campanhas educativas e parcerias internacionais voltadas à alfabetização midiática.
Para o executivo, esse novo cenário exige uma abordagem mais sofisticada por parte de quem utiliza o WhatsApp como canal estratégico. “Não existe mais espaço para amadorismo. O uso de canais diretos em contexto eleitoral exige governança, compliance, adequação às políticas da META/WhatsApp e estratégia de longo prazo. Qualquer desvio pode gerar não só bloqueios, mas danos de imagem difíceis de reverter”, completa.
A antecipação do tema, ainda em junho, revela uma percepção crescente de que o jogo informacional das eleições começa muito antes da propaganda oficial. Agora, com novas regras em discussão e já parcialmente aprovadas, esse jogo tende a ser ainda mais intenso e mais desafiador do ponto de vista regulatório e tecnológico.
“E, nesse contexto, o WhatsApp segue como peça-chave, agora sob um olhar mais atento, tanto das plataformas quanto da sociedade”, conclui o executivo da HelenaCRM.



