Literatura
Quem é Anne Carson, a canadense que ganhou o Nobel de Literatura 2026
Ensaísta e tradutora é a 19ª mulher a vencer o prêmio e une poesia, prosa e teatro
A escritora canadense Anne Carson, de 76 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 2026, anunciado pela Academia Sueca na quinta-feira, 8. A Academia destacou sua obra como ousada e inventiva, que dialoga de modo lúdico com a tradição clássica e abriu novas formas para a literatura contemporânea. Carson é a 19ª mulher entre as 122 pessoas que já receberam o prêmio.
Uma vida entre os clássicos
Anne Patricia Carson nasceu em Toronto, em 21 de junho de 1950. O pai era bancário e a família passou por várias cidades pequenas do Canadá. Foi na escola que um professor de latim a apresentou ao grego antigo e passou a lhe dar aulas particulares, o início de uma relação com a língua que se tornaria o eixo de sua vida.
Na Universidade de Toronto, o caminho não foi linear. Ela deixou o curso duas vezes, ao fim do primeiro e do segundo ano, incomodada com as exigências do currículo, e passou um período curto no mundo das artes gráficas. Voltou, concluiu a graduação em 1974, o mestrado em 1975 e o doutorado em 1981. Também passou um ano na Universidade de St Andrews, na Escócia, onde estudou métrica grega e crítica textual.
Antes de ser reconhecida como poeta, Carson foi professora de Letras Clássicas. Começou a lecionar em 1979 e passou por instituições como Princeton, McGill, Michigan e Nova York, além de Berkeley, Stanford, Cornell e Bard. Ela já descreveu os anos de ensino de grego como uma alegria completa.
Discreta, Carson evita leituras autobiográficas de seus textos e costuma ter nas orelhas dos livros apenas a frase de que nasceu no Canadá e ensina grego antigo para viver. É casada com o artista Robert Currie, parceiro de vários projetos, e ambos obtiveram a cidadania islandesa em 2022. Em 2024, ela contou na London Review of Books que foi diagnosticada com a doença de Parkinson.
Uma obra que mistura gêneros
O primeiro livro de crítica foi Eros, o doce-amargo, de 1986 (Eros the Bittersweet, no original), um ensaio sobre o desejo como experiência simultânea de prazer e dor, a partir de Safo, dos romancistas gregos e de Platão. O texto nasceu da tese de doutorado e ganhou público bem maior com o passar dos anos.
O maior sucesso veio com Autobiografia do vermelho (1998), romance em versos que recria o mito de Gerião e Héracles como uma história de amor na adolescência. Seguiram-se Men in the Off Hours (2000), A beleza do marido(2001) e Nox (2010). Este último é um epitáfio para o irmão, descrito como sua obra mais explicitamente pessoal. Mais recentes são Red Doc> (2013), Norma Jeane Baker of Troy (2019) e Wrong Norma (2024).
No Brasil, oito títulos da autora foram publicados desde 2017, por editoras como Editora 34, Relicário e Bazar do Tempo. Entre eles estão Falas curtas, Sobre aquilo em que eu mais penso, Vidro, ironia e deus e Antigonick, os dois últimos lançados em 2026. Nox, Red Doc> e Wrong Norma seguem inéditos no país.
Carson também traduziu para o inglês a poesia de Safo e dez tragédias gregas, entre elas obras de Ésquilo, Sófocles e Eurípides. A versão de Antígona foi encenada pelo diretor Ivo van Hove, com Juliette Binoche, e circulou por Londres, Nova York e Paris.
Antes do Nobel, a autora já havia recebido a bolsa MacArthur, conhecida como “prêmio gênio”, e a bolsa Guggenheim, concedida a artistas e pesquisadores para financiar projetos. Venceu duas vezes o Griffin Poetry Prize e foi a primeira mulher a ganhar o T. S. Eliot Prize, em 2001, por A beleza do marido. Em 2020 recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias de Letras, e em 2021 o PEN/Nabokov.
Um dos fios que atravessam os livros de Carson é o desejo. Em Eros, o doce-amargo, ela o trata como prazer e dor ao mesmo tempo, ideia que reaparece em A beleza do marido, ligado ao fim de um casamento. O amor, na escrita dela, raramente traz conforto. Outro eixo é o luto, o declínio do pai, que tinha Alzheimer, aparece no ensaio “The Glass Essay”.
Anne Carson usa os mitos gregos como material vivo, nunca como enfeite. Em Autobiografia do vermelho, o monstro Gerião se torna um jovem apaixonado. Em Antigonick, ela reescreve a Antígona de Sófocles e inclui um personagem que não existe no original, chamado Nick. Seus livros misturam verso, prosa, diálogo e tradução, e por isso não cabem em categorias. A Academia destacou essa liberdade ao premiá-la.
Ao leitor brasileiro, o prêmio dá um motivo a mais para atravessar a porta que ela deixou aberta entre Safo e o presente, a começar por Autobiografia do vermelho.



