Virando Crianças
Eu e meu marido chegamos aos 85 anos. A cabeça ainda está boa. As pernas estão fracas. As doenças insistem em aparecer.
No Brasil os idosos não são respeitados. Ambos estão aposentados desde os 50 anos. Por sorte, nossos filhos e netos nos respeitam, mas somos vítimas de pessoas maldosas.
Recentemente, descobri que meu salário estava congelado durante um bom tempo. Tentei falar com o Diretor de Pessoal do Poder Legislativo. Foi uma longa novela. Depois de algum tempo consegui conhecer a tal autoridade. Levei, por escrito, tudo que descobri. Pediu para ficar com o documento e corrigir meu salário.
E agora, perguntei, vocês cortaram meu salário durante dois anos e cinco meses. Vão devolver?
Ele olhou para a velhinha atrevida e disse: “Faça um processo dirigido a mim e devolveremos tudo amigavelmente”. Cumpri o prometido e o moço sumiu. Tempos depois, fomos conversar novamente. Irônico, rindo, disse: “Entreguei seu processo ao procurador, ele vai analisar sua pasta e saber o porquê de seu salário ser tão alto”. Tudo isso aconteceu desde julho de 2025. Ninguém foi punido e a idosa foi enganada por pessoas maldosas.
Outro fato interessante: fomos convidados para, no dia 2 de março, comparecermos ao Quartel do Exército, em Maceió. Seriam homenageados os integrantes do velho 20º BC.
Aprontamo-nos e fomos à solenidade. O que vimos foi inúmeras autoridades civis serem homenageadas. O velho coronel que serviu várias vezes no 20º BC não foi citado, não foi homenageado e ainda colocado no lugar errado. Entendo que o Exército precisa se dar bem com a sociedade civil, mas não deve esquecer a “prata da casa”. Lamentei pelo meu marido que foi à solenidade tão entusiasmado e voltou triste.
Lembrei-me então da maneira como o governo federal tem tratado as Forças Armadas: péssimo plano de saúde, salários congelados e verba subtraída. Espero que tudo melhore.
Vivemos, aos 85 anos, assessorados pelas filhas. Agradecemos a Deus por tanta generosidade. Uma delas praticamente vive conosco. A outra construiu em sua casa um lugar para seus velhinhos bem perto do Rio São Francisco. Cuidam dos seus pais idosos, fiscalizam remédios, levam aos médicos e hospitais. Ambas nos tratam com delicadeza e respeito. O filho, apesar de morar longe, acompanha com as irmãs a vida dos pais.
A velhice não é fácil! A única vantagem que temos são as prioridades que nem sempre são respeitadas. Muitas vezes, precisamos lembrar por onde andamos que somos “80 mais”.
Irrito-me quando uma pessoa me explica algo e no fim pergunta: Entendeu? De vez em quando, percebo que a pessoa está errada.
Convivo com meu marido desde 1963 e noto que estamos ficando cansados e com “pavio curto”. Percebo que não é fácil ir perdendo certas vantagens que conquistamos: deixar de dirigir, sair sozinho. Precisamos quase sempre de companhia.
É quando digo ao companheiro: Vamos aceitar que dói menos!
Ainda somos dois velhinhos felizes: temos onde morar, possuímos uma boa renda, bons médicos e bons filhos.
Na realidade, trabalhamos muito para construirmos um bom fim de vida.
Aos que nos enganaram não se iludam: serão castigados.
Deus na causa!
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



