colunista

Alari Romariz

Atuou por vários anos no Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa e ganhou notoriedade ao denunciar esquemas de corrupção na folha de pagamento da casa em 1986

Conteúdo Opinativo

Criaturas do bem, criaturas do mal


Vivemos na terra convivendo com todo tipo de gente. Desde a infância, no grupo escolar, passamos a perceber quais são os verdadeiros amigos e as decepções são grandes quando percebemos, mesmo cedo, quem são os traidores.

Na adolescência os casos são mais graves. Há brigas por namorados, pelas classificações na escola, pela popularidade entre os amigos e colegas.

Comecei a trabalhar com 18 anos numa casa política. Despertei logo cedo para as maldades na Assembleia. Poucos são os amigos, muitos são os bajuladores e os parlamentares adoram a assessoria dos que tentam ser agradáveis falando mal dos companheiros. Se a criatura diz a verdade, incomoda os dirigentes. Talvez seja melhor mentir e procurar chegar perto do possível chefe.

Tive um irmão que foi deputado estadual. Tentei orientá-lo, mostrar o regimento da Casa e abrir os olhos dele para as maldades dos companheiros que zombavam dele. Não gostava, não acreditava e foi traído por supostos amigos.

Numa casa política, tudo é muito difícil. O governo tenta atrair os deputados oferecendo cargos. Se ele, o governador, não tiver maioria no Legislativo, não aprova matérias do seu interesse, não governa. O regime vigente é o “toma lá, dá cá”. Poucos são os verdadeiros amigos do governador. São parceiros motivados pelo interesse.

Certa vez viajei de avião com um governador que acabara de ser eleito. Entusiasmado, disse-me: “Governarei sem maioria na Assembleia”. Achei graça e disse que esperaria para ver. Em menos de seis meses, o pobre coitado já tinha maioria no outro Poder. E, assim, governou até o fim. Hoje, vive pressionado pelos políticos que se diziam seus amigos.

Na própria família não sabemos quem é do bem, quem é do mal. Com o passar dos anos vamos vendo com quem podemos contar nos tempos difíceis. Vamos levando cacetadas de um lado, abraços de outro. Com a velhice, conseguimos contar com alguns. Tentar esquecer os outros.

Conviver com políticos é difícil. Eles lutam para conseguir um mandato. Depois de eleitos se acham poderosos e alguns perseguem os mais frágeis e bajulam os mais fortes. Trabalhei dezenas de anos numa casa política. Vi muita gente boa que não perdia a personalidade ao virar deputado. Mas tive o desprazer de ver pessoas que mal pisavam no chão e machucavam fortemente os outros.

Com meus 85 anos de vida já vi fatos que me deixavam assustada. Lembro-me de um poderoso que morreu na miséria. Outros que perderam o mandato e ficaram desempregados. Perderam os falsos amigos.

Recentemente, o Brasil está envolvido em vários escândalos. Não sei onde tudo vai parar e qual será o próximo. Esta semana, o líder do Partido dos Trabalhadores no Senado foi alvo de investigação da Polícia Federal. Já vi na TV alguns amigos acusando o senador e outros pedindo para ele deixar a liderança do governo. E fico pensando como um homem que era todo poderoso perde tantos amigos num piscar de olhos.

E a vida continua cheia de altos e baixos. Se você está bem, possui um belo cargo, as pessoas chegam perto de você. Se, por acaso, entra numa situação difícil, a maioria foge, deixando-a quase só.

O difícil é saber quem é do bem, quem é do mal. Tive bons amigos em todas as áreas de minha vida. Em compensação, levei boas cacetadas de falsos amigos.

O tempo é senhor da razão! Ele nos ensina a viver. Deus na causa!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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