colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

O ciclo que não se rompe nunca


As eleições no Brasil são o retrato em movimento de um país que troca seu próprio futuro por moedinhas. Compra-se o voto, aluga-se a facção, infiltra-se o sistema financeiro, fartam-se as emendas parlamentares: tudo isso não é o escândalo em si, é apenas a engrenagem. O escândalo de verdade é o que essa engrenagem produz, ano após ano, geração após geração.

Produz um país onde se morre esperando. Em 2024, o tempo médio de espera por uma consulta especializada no SUS chegou a 57 dias — mais do que durante o pico da pandemia — com cerca de 5,7 milhões de pessoas na fila de consultas e outras 600 mil aguardando cirurgia. Não é falta de dinheiro: é dinheiro mal alocado, desviado para currais eleitorais enquanto o paciente oncológico espera o próprio corpo decidir por ele.

E o pior: treze das vinte e sete unidades da federação nem informam corretamente esses dados ao governo federal — o país não sabe nem quantificar sua própria agonia.

Produz um país de educação de terceiro mundo. No PISA 2022, o Brasil ficou em 65º lugar em matemática entre 81 países, atrás de quase toda a América Latina, e 73% dos estudantes brasileiros não atingiram o nível mínimo de aprendizagem em matemática. Gente que nunca aprendeu a calcular vira presa fácil do curral eleitoral que a mantém pobre — e o ciclo se perpetua porque ninguém com poder de decisão tem interesse genuíno em formar cidadãos críticos demais para serem comprados por cem reais e uma cesta básica.

Produz infraestrutura que envergonha qualquer nação que se pretenda séria. Mais da metade da malha viária brasileira apresenta problemas, com 40% em estado regular e 13% em condição ruim ou péssima, gerando um prejuízo logístico anual estimado em R$ 8,8 bilhões. No saneamento, a vergonha é ainda mais íntima: quase 17% da população não tem acesso à água potável e quase metade do país não conta com coleta de esgoto, e, no ritmo atual, a universalização só seria alcançada em 2070 — quatro décadas de atraso sobre a meta. Enquanto isso, bilhões em emendas seguem fluindo para palanques, não para encanamento.

Produz, por fim, um dos países mais violentos do planeta: com 2,7% da população mundial, o Brasil concentra mais de 20% dos homicídios registrados no mundo, e voltou a figurar entre os dez países mais perigosos do globo em 2025. Hospital sem leito, escola sem professor, rua sem polícia, esgoto a céu aberto — esse é o produto final do sistema que se finge de democracia em outubro e se revela protetorado de clã o resto do ano.

Compra-se voto porque o eleitor pobre tem fome. “Alimenta-se” a fome porque ela garante o voto. Mantém-se o esgoto a céu aberto, a escola vazia de conteúdo e a fila do hospital infinita porque a miséria organizada é o combustível mais barato e mais confiável de qualquer campanha. É um círculo perfeito, projetado quase matematicamente para nunca se romper.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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