colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

O monopólio partidário é a morte da cidadania

10/05/2026 - 08:52
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A democracia nasceu na Grécia sob o signo da isegoria: a liberdade de qualquer cidadão tomar a palavra na pólis e moldar o destino comum. Do ímpeto da Revolução Francesa, que estilhaçou o direito divino, ao refinamento das modernas democracias da Suécia, Suíça e Alemanha, o sistema evoluiu para proteger o indivíduo frente ao Estado. Nestas nações, o partido é um acessório da inteligência coletiva; no Brasil, ele se tornou um bunker de privilégios e um sequestrador da soberania. Trilhamos um caminho solitário e obscuro para construir uma partidocracia de cartório, uma excrescência que desafia o Pacto de San José da Costa Rica ao proibir que o cidadão concorra sem o pedágio de uma legenda viciada.

O que assistimos hoje é a morte cerebral do debate político de alto nível. O parlamento não é mais o palco da retórica ou da gestão, mas um balcão de negócios operado sob o manto da fragmentação partidária. Temos dezenas de siglas que não representam ideias, mas "fatias" de orçamento. Essa pulverização gera uma instabilidade legislativa crônica: o Executivo não governa para o povo, mas para saciar a sede de cargos de cúpulas partidárias insaciáveis. No vácuo desse vazio de ideias, floresce uma polarização tóxica, um ódio orquestrado que erode a tolerância e transforma a cidadania em uma guerra de torcidas cegas, enquanto os verdadeiros donos do poder dividem o botim em silêncio.

E o botim é oceânico. Para o ciclo de 2026, a "tunga" institucionalizada entre os Fundos Eleitoral e Partidário deve sangrar cerca de R$ 6,4 bilhões do contribuinte. É o financiamento compulsório da própria opressão. O escárnio é completo ao vermos quem detém a chave desse cofre: figuras como Valdemar Costa Neto (PL), o símbolo da sobrevivência pós-Mensalão; Ciro Nogueira (PP), investigado na recente Operação Compliance Zero por supostas mesadas de R$ 500 mil ligadas ao Banco Master; e Antonio Rueda (União Brasil), sob a mira de investigações sobre conexões logísticas com o crime organizado. Sob esses generais, os partidos tornaram-se lavanderias de reputações, lançando candidatos sem qualquer qualificação técnica, mas com fieiras de processos criminais nas costas, todos blindados pelo "manto da aquiescência" das siglas.

O uso do mandato para fins espúrios tornou-se o padrão. O representante não serve ao eleitor, mas ao cacique que lhe garantiu o fundo e a legenda. Esse vácuo moral empurrou o país para um ativismo judicial perigoso: com a política paralisada por interesses mesquinhos, o Judiciário avança sobre os outros Poderes, legislando por decreto e aprofundando a insegurança jurídica. No fim dessa cadeia de horrores está a desigualdade abissal: a exclusão da participação política efetiva garante que os mesmos grupos de sempre continuem redigindo leis em benefício próprio, enquanto o cidadão honesto é barrado na porta por não ter "dono".

A ruptura exige a implosão desse monolito via candidaturas avulsas e voto distrital puro. A candidatura independente retira do cacique o poder de vida ou morte sobre uma liderança cívica; ela permite que o médico, o professor ou o gestor se apresente ao povo sem pagar o pedágio moral de uma estrutura criminosa. O voto distrital aproxima o representante do vizinho, acaba com as campanhas bilionárias e com os "puxadores de votos" que hoje carregam a escória processada para dentro do Congresso através de fórmulas matemáticas opacas.

Libertar a política deste garrote partidário é, em última análise, a única via para que o Brasil reencontre sua vocação de grandeza. Somente a oxigenação da representação poderá destravar as reformas que o desenvolvimento exige e permitir que o país volte a crescer com a força de sua criatividade e de seus recursos naturais. O futuro do Brasil não pertence a oligarquias que nos saqueiam para proteger seus criminosos de estimação, mas a uma democracia vibrante que, ao abrir as portas para o talento independente e para o compromisso direto com o eleitor, coloque o crescimento econômico e o desenvolvimento social acima dos interesses de gabinete. É hora de retomar o Brasil para os brasileiros, transformando a política no motor da nossa prosperidade, e não na âncora do nosso atraso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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