colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

A Fronteira da Produtividade: dois Brasis.

26/04/2026 - 08:19
A- A+

O debate econômico brasileiro frequentemente negligencia aquela que deveria ser a "mãe" de todas as reformas: a abertura comercial. Enquanto nações como a Coreia do Sul utilizaram a globalização como uma alavanca de convergência — saltando de 15% da renda per capita americana em 1980 para mais de 50% hoje —, o Brasil optou pelo isolamento. O resultado é um país estagnado, ancorado em uma economia que parece ter medo da própria eficiência. Nossa renda per capita é hoje, similar a da Coreana de 1980 e 16,5% da americana...

A prova mais contundente desse diagnóstico reside no diferencial de produtividade revelado pelo Censo de Capital Estrangeiro do Banco Central. Vivemos em um país dividido: de um lado, o "Brasil internacionalizado", um enclave de performance global composto por cerca de 17 mil empresas estrangeiras que atuam no país. Embora esse grupo absorva apenas 3,2% da mão de obra nacional, ele é responsável por gerar impressionantes 35% do PIB brasileiro. Enquanto isso, os outros 96,8% de trabalhadores geram 65% da riqueza nacional. O dado é acachapante.

Mas a lógica matemática é implacável e expõe a nossa ferida: o trabalhador inserido nesse ambiente globalizado é 17 vezes mais produtivo do que o cidadão empregado nas empresas brasileiras. Este hiato não é um mero detalhe estatístico; é a medida exata da nossa exclusão tecnológica e da ineficiência que aceitamos como norma.

O Custo da Captura: O Nordeste como Refém

Este cenário de atraso é fruto de uma arquitetura deliberada de proteção de privilégios. É preciso colocar a mão na ferida: o Brasil permanece "fechado" porque empresários brasileiros pressionam pela manutenção de barreiras que protegem seus calhambeques industriais de rasa produtividade. Ao invés de competirem pela inovação no cenário global, esses grupos mobilizam o Estado para garantir a manutenção de barreiras que condenam o trabalhador brasileiro a processos obsoletos e à rasíssima produtividade da mão de obra nacional.

Essa dinâmica predatória é replicada na relação entre o Sudeste/Sul e o Nordeste. Nossa região é – há 150 anos - mantida como um mercado reserva, das empresas daquelas regiões. Somos para elas mero enclave subdesenvolvido que consome a os produtos de baixa eficiência produzida no Centro-Sul e que, sofre uma drenagem líquida de recursos que alcança os R$ 150 bilhões anuais.

Em uma década, o Nordeste perde um PIB! Esse montante evadido equivale a um ciclo inteiro de acumulação de capital que poderia estar circulando na região, mas, ao contrário, está destinado a sustentar o lucro de indústrias do Sul/Sudeste ineficientes que não sobreviveriam à competição real.

Essa drenagem bilionária não é apenas um fluxo financeiro passivo; é uma forma de colonialismo interno que asfixia a acumulação de capital local e impede qualquer tentativa de desenvolvimento econômico no Nordeste. Ao ser forçado a consumir a produção de setores protegidos do Centro-Sul, a região paga um "imposto de ineficiência" que sustenta parques industriais obsoletos em detrimento do seu próprio crescimento.

Esse dreno de recursos atua como uma barreira de entrada invisível: ele retira da região a liquidez necessária para investir em infraestrutura de ponta e capital humano, enquanto cristaliza uma balança comercial inter-regional deficitária que condena o Nordeste à eterna dependência de transferências federais compensatórias. Mas, como vimos, insuficientes em 150bilhões de reais a cada ano.

Romper esse ciclo exige reconhecer que a produtividade regional está sitiada por um pacto federativo que prioriza a sobrevida de oligopólios nacionais em vez da integração soberana do território à fronteira produtiva global.

A Via Externa e o Salto Quântico em 10 Anos

Diante da interdição das vias internas, capturadas por interesses que lucram com o atraso, a estratégia de sobrevivência regional exige que o Nordeste rompa o cerco pela via externa. Uma visão distinta dos “pensadores” da região que limitam-se de forma medíocre a replicar as ideias (furadas) de Furtado para a região e/ou buscar no Estado, ente que a um século e meio se associou a outras regiões para pilhar a nossa, a saída que nunca virá.

A saída para o Nordeste se desenvolver passa por operar sua própria arbitragem tecnológica diretamente com os mercados globais.

O objetivo estratégico para consolidar um salto quântico no Nordeste em apenas dez anos consiste na internacionalização radical da matriz produtiva regional. Trata-se da transição imediata da agricultura de subsistência e da manufatura de baixa complexidade para o ecossistema do Agrobusiness 5.0 e de agroindústrias de altíssimo valor agregado. E isso não é sonho. Existem experencias de sucesso nesse sentido.

Ao vincular o território nordestino diretamente aos fluxos globais de inovação e capital — onde a produtividade muitas vezes superior —, a região: 1) deixa paulatinamente de financiar a obsolescência do Centro-Sul para estabelecer sua própria autonomia soberana. 2) cria um ambiente interno multiplicador de fatores de produção de alta tecnologia que será horizontalizado pela região e; 3) Dará , afinal, o “salto quântico” no seu crescimento, tão almejado pelos nordestinos.

A meta não é apenas crescer, mas a internalização de padrões globais de eficiência que transformem a região em um hub exportador de alta performance, imune às amarras do protecionismo nacional.

É possível, sim.

Estamos finalizando estudo e proposta nesse sentido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


Encontrou algum erro? Entre em contato