Eu testei a saúde de Maceió: os números explicam o que não encontrei
A partir deste artigo, inicio uma análise objetiva de indicadores, resultados e evidências sobre a qualidade dos serviços públicos oferecidos à população de Maceió. A proposta é simples: afastar por alguns instantes a publicidade institucional, os anúncios de obras, programas e realizações e confrontar o discurso público com aquilo que os dados efetivamente revelam.
Começo pela saúde. Nas próximas análises, o mesmo procedimento será aplicado a outras áreas. Não se trata de escolher um número desfavorável e transformá-lo em julgamento político. Trata-se de reunir indicadores de instituições diferentes, metodologias diferentes e anos diferentes e verificar se, colocados lado a lado, eles formam ou não um padrão.
Na saúde de Maceió, formam. E o primeiro dado é alarmante.
No IPS Brasil 2026, Maceió ficou em 27º e último lugar entre as 27 capitais brasileiras em Mortalidade Ajustada por Condições Sensíveis à Atenção Primária.
O nome técnico pode parecer distante do cotidiano. O significado não é. O indicador acompanha mortes relacionadas a doenças e complicações cuja ocorrência pode ser reduzida por prevenção, diagnóstico precoce, acompanhamento e tratamento adequados na atenção básica.
Isso não significa atribuir cada uma dessas mortes à Prefeitura. Significa algo suficientemente grave: entre todas as capitais brasileiras, nenhuma apresentou resultado pior que Maceió nesse indicador.
Se fosse um episódio isolado, caberia discutir suas particularidades. Não é.
Quando o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde — IEPS — analisou especificamente a Atenção Básica, considerando cobertura, vacinação contra poliomielite e pré-natal, Maceió apareceu novamente perto do fim: 24ª entre as 27 capitais brasileiras. Um resultado crítico.
Quando a pergunta muda de resultado sanitário para eficiência da administração, a posição continua extremamente ruim. No Ranking de Eficiência dos Municípios, da Folha/Datafolha, Maceió ficou na 4.792ª posição entre 5.276 municípios brasileiros no componente Saúde. Aproximadamente nove em cada dez municípios avaliados ficaram à frente da capital alagoana.
Outro levantamento independente chega novamente a resultado preocupante. Na Pesquisa Qualidade dos Serviços Públicos nas Capitais 2026, da Agenda Pública, Maceió recebeu apenas 0,321 ponto em Saúde, diante de uma referência brasileira de 0,723. A pontuação da capital corresponde a menos da metade dessa referência.
Até aqui estamos falando de rankings e indicadores. É possível discutir metodologias, pesos, diferenças sociais e características de cada cidade.
Por isso é importante avançar um passo.
Quando o próprio Ministério da Saúde entrou na rede municipal para auditá-la, encontrou problemas concretos. Em julho de 2026, o Departamento Nacional de Auditoria do SUS — Denasus — identificou 18 situações de não conformidade na Rede de Atenção Psicossocial de Maceió.
Foram apontados insuficiência de CAPS, ausência de Unidade de Acolhimento Adulto, inexistência de leitos de saúde mental em hospitais gerais, deficiência de profissionais, sobrecarga dos serviços, precariedade de estruturas, dificuldades de acesso e falhas na própria gestão da política.
Aqui já não estamos diante apenas de um ranking desfavorável.
É uma auditoria do Governo Federal.
E é exatamente nesse ponto que a realidade encontrada fora da administração municipal começa a colidir com a imagem construída pela própria gestão.
Em 2023, a Prefeitura comemorou nota 8,35 no Previne Brasil e anunciou Maceió como segunda melhor capital brasileira em Atenção Primária. A mensagem transmitida à população era de excelência nacional.
Só que um estudo científico posterior, utilizando dados oficiais do SISAB e do SCNES referentes àquele mesmo ano, encontrou Maceió muito distante do topo quando observou a produtividade dos profissionais da Atenção Primária.
A cidade registrava média de 149,8 atendimentos médicos e 82,7 atendimentos de enfermagem por equipe por mês. Ordenadas as 27 capitais pelos valores publicados no estudo, Maceió aparece apenas em 21º lugar em produtividade combinada de médicos e enfermeiros por equipe.
Previne Brasil e produtividade não medem exatamente a mesma coisa. E é justamente aí que reside a questão.
Uma excelente posição em determinado indicador administrativo não transforma automaticamente uma cidade na segunda melhor Atenção Primária do país.
Os resultados externos não confirmam essa excelência.
27ª de 27 capitais em mortalidade sensível à Atenção Primária. 24ª de 27 em Atenção Básica. 4.792ª entre 5.276 municípios em eficiência da saúde. Apenas 0,321 em um índice no qual a referência brasileira é 0,723. Dezoito não conformidades numa auditoria federal da saúde mental. E 21ª entre 27 capitais em produtividade de médicos e enfermeiros por equipe no mesmo ano em que a Prefeitura se apresentava como segunda melhor do Brasil no Previne Brasil.
Nenhum desses números, isoladamente, encerra a discussão.
A força está no conjunto.
São instituições diferentes, metodologias diferentes e objetos diferentes de análise chegando repetidamente ao mesmo lugar: Maceió aparece, em áreas fundamentais da saúde, entre as capitais brasileiras de desempenho mais preocupante.
E eu conheci pessoalmente parte dessa realidade.
EU CONHECI ESSA REALIDADE POR DENTRO
Sou usuário do SUS por opção. Não tenho plano de saúde e não quero ter. É uma convicção minha. Se existe um sistema público de saúde, financiado por todos nós e destinado a todos, quero utilizá-lo como qualquer cidadão.
No final do ano passado, precisei implantar um CDI — cardiodesfibrilador implantável, equipamento mais sofisticado que um marcapasso convencional.
Procurei o SUS e segui rigorosamente o caminho normal. Sem telefonema para político, sem pedido a autoridade, sem usar minha condição de economista e figura pública para obter qualquer tratamento diferenciado ou furar fila.
Foram seis meses de peregrinação pela estrutura sob responsabilidade municipal.
Faltava um documento. Eu providenciava. Depois faltava outro. Eu entregava. Então um exame havia vencido e precisava ser refeito. Surgia uma nova exigência. Depois outra. Informação desencontrada, devolução de documentação, falta de orientação e nenhuma lógica capaz de conduzir o paciente do início ao fim do processo.
Durante seis meses foi assim.
Até chegar a resposta final, quando aparentemente já não havia mais documento para substituir:
o equipamento não estava disponível. Quando estivesse, entrariam em contato comigo.
E acabou.
Isso já se passou há mais de quatro meses.
Até hoje ninguém me telefonou.
Resolvi então procurar outro caminho dentro do próprio SUS. Fui ao Hospital do Coração Alagoano Prof. Adib Jatene, entrei na fila normalmente e esperei minha vez.
Cerca de um mês, talvez um mês e meio depois, estava sendo operado.
A cirurgia foi realizada com absoluto sucesso.
E foi então que pude perceber, como paciente, uma diferença que considero brutal.
De um lado, encontrei durante meses um processo municipal desorganizado, fragmentado, amador e incapaz sequer de dizer ao paciente quando seu tratamento seria realizado.
Do outro, encontrei no Hospital do Coração uma estrutura de altíssimo nível: organização, tecnologia, disciplina, informação, profissionais preparados e, acima de tudo, a sensação de que existe um sistema funcionando em torno do paciente.
Faço questão de registrar aqui o nome do Dr. José Wanderley Neto.
É meu amigo, e ele sequer sabe que estou escrevendo estas linhas. Minha cirurgia não decorreu de amizade nem de qualquer interferência dele. Entrei pela porta do SUS e pela fila do SUS.
Meu reconhecimento é pelo trabalho de uma vida. José Wanderley é um dos grandes nomes da cirurgia cardiovascular brasileira, pioneiro da cirurgia cardíaca em Alagoas e responsável por uma trajetória de décadas na formação de profissionais e na consolidação da cardiologia de alta complexidade no Estado.
O padrão profissional que encontrei no Hospital do Coração ajuda a explicar a dimensão dessa contribuição.
Registro também a importância da atuação do senador Renan Calheiros na articulação de recursos destinados à expansão dessa estrutura.
E faço aqui um reconhecimento que considero necessário aos dois, sem favor e sem adulação.
Homens públicos também devem ser julgados pela qualidade das escolhas que fazem quando decidem onde aplicar o dinheiro da sociedade. Recursos públicos não pertencem a governos, senadores, secretários ou gestores. São recursos nossos, retirados da própria população, e sua aplicação precisa ser medida pelo benefício que retorna a ela.
No caso do Hospital do Coração, encontrei diante de mim um exemplo concreto de boa escolha na destinação desses recursos: dinheiro público transformado em estrutura, tecnologia, profissionais qualificados e atendimento de alta complexidade inteiramente pelo SUS.
Por isso, reconheço em José Wanderley Neto e Renan Calheiros, cada um na função que exerceu nesse processo, a capacidade de contribuir para uma decisão pública acertada: colocar recursos da sociedade onde eles efetivamente retornam à sociedade em forma de serviço, tratamento e vida.
Faço esse registro porque seria profundamente injusto denunciar aquilo que funciona mal sem reconhecer, com a mesma clareza, aquilo que funciona extraordinariamente bem.
E minha experiência talvez seja a tradução humana de tudo aquilo que os rankings mostraram antes.
O mesmo SUS que me deixou seis meses andando em círculos numa estrutura municipal conseguiu, em outra estrutura pública, receber-me pela fila normal e realizar uma cirurgia cardíaca de alta complexidade em cerca de um mês e meio, com excelência.
Sou economista e figura pública. Tenho informação, relações e capacidade de procurar alternativas. Ainda assim, submetendo-me deliberadamente ao caminho comum, encontrei durante seis meses aquela sucessão de obstáculos.
Então penso inevitavelmente naquele maceioense anônimo, pobre, sem informação, sem relações, que recebe um “volte depois”, retorna para casa e não sabe sequer onde procurar ajuda.
Quantos continuam esperando? Quantos desistem? Quantos adoecem ainda mais enquanto esperam?
E quantos, sem informação, sem influência e sem uma segunda alternativa, simplesmente se quedam na fila — à espera de um atendimento que talvez chegue tarde demais, quando aquilo que poderia ter sido evitado já não pode mais ser reparado?
Alagoas precisava de uma estrutura como o Hospital do Coração. E aquilo que encontrei funcionando ali demonstra, concretamente, que quando o recurso público é bem escolhido, bem direcionado e transformado em serviço de qualidade, o SUS pode oferecer ao cidadão um padrão de atendimento comparável ao das melhores estruturas privadas.
É justamente esse contraste que torna ainda mais difícil aceitar a distância entre a saúde anunciada e a saúde revelada pelos números.
A “verdade” apresentada pela Prefeitura parece não resistir ao confronto nem com os indicadores, nem com a experiência concreta de quem precisa do sistema. Os dados revelam uma realidade muito diferente daquela vendida à população.
Estaria ruindo, diante da realidade, o castelo de propaganda construído pelos últimos gestores de Maceió?
E há uma diferença que nenhum ranking precisa explicar:
gestão diagnostica, atende, trata e salva. Propaganda apenas anuncia.
E propaganda não cura ninguém
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



