colunista

Elias Fragoso

Economista, foi prof. da UFAL, Católica/BSB, Cesmac, Araguaia/GYN e Secret. de Finanças, Planej. Urbano/MCZ e Planej. do M. da. Agricultura/DF e, organizador do livro Rasgando a Cortina de Silêncios.

Conteúdo Opinativo

Slogans no lugar de propostas


“A democracia que já não representa ninguém”

Acabou o tempo das propostas. O que resta é o slogan — uma frase de efeito repetida à exaustão, vendida como se fosse verdade, enquanto o país e os estados atravessam uma crise do tamanho que poucos candidatos conhecem. Não é um problema de Alagoas, nem de uma eleição específica. É do Brasil. É o retrato de como a política se afastou do eleitor, de como deixou de discutir o real.

Basta olhar os números que ninguém debate nos palanques. O rombo fiscal do Brasil somou R$ 1,218 trilhão nos doze meses até março de 2026 — o maior da série histórica iniciada em 2002, crescendo 28,4% em apenas um ano. Só o pagamento de juros da dívida chegou a R$ 1,08 trilhão. Isso – na prática – é o país sangrando dinheiro todo mês, e a falta de comida na mesa do pobre, da escola de qualidade, do dinheiro no bolso das pessoas (59% da população no Serasa!) e nenhuma candidatura relevante colocou um plano concreto sobre a mesa para conter isso. O silêncio é generalizado — e conveniente.

Enquanto o rombo cresce, cresce também, numa velocidade ainda mais espantosa, o patrimônio de quem devia estar cuidando dele. Levantamento sobre as declarações de bens entregues à Justiça Eleitoral mostra parlamentares saindo de patrimônios de R$ 10 mil, R$ 18 mil, R$ 36 mil em 2022 para a casa das muitas dezenas de milhões de reais em quatro anos — variações de até 62.247%! Isoladamente, declaração de bens não prova irregularidade nenhuma. Mas o padrão, repetido em dezenas de casos e em todos os espectros partidários, não é acidente estatístico: é o retrato de uma classe política que enriquece em ritmo incompatível com qualquer salário de mandato, no mesmo período em que o país empobrece.

E não é só dinheiro. É quem entra na disputa. O próprio TSE já sinalizou, para 2026, que quer regras de ficha limpa mais rígidas — reconhecimento tácito de que o filtro atual deixa passar candidaturas de gente respondendo a processo criminal, muitas vezes escondida atrás do título de “empresário” sem CNPJ ativo, sem operação real, sem nada além do verniz. Representação popular pressupõe que quem representa tenha algum compromisso com quem o elegeu. O que se vê, cada vez mais, é gente representando o próprio patrimônio, a própria blindagem jurídica, o próprio projeto de poder.

Comparar isso ao resto do mundo ajuda a medir o tamanho do problema — e a evitar o erro fácil de tratar os Estados Unidos como parâmetro. A eleição americana, hoje, é provavelmente o pior exemplo possível de debate público: personalismo extremo, polarização como estratégia deliberada, fatos tratados como opinião. Não é isso que deveria servir de espelho.

O contraste que vale a pena olhar é o Uruguai, um dos menos de trinta países do mundo classificados como democracia plena pela revista The Economist. Lá, a disputa se dá dentro de um sistema partidário consolidado — os eleitores buscam mudança sem recorrer a outsiders, o perdedor reconhece o resultado no mesmo dia, e cientistas políticos comparam a solidez institucional uruguaia à da Alemanha. Não é um paraíso nem um modelo pronto para exportar, mas mostra algo que o caso brasileiro insiste em esquecer: é possível disputar poder sem incendiar as instituições que sustentam a própria disputa.

O ponto final dessa reflexão não é nostalgia por um passado que talvez nunca tenha existido de fato. É reconhecer que o desenho atual do processo eleitoral chegou a um limite estrutural. O cientista político belga David Van Reybrouck descreve esse quadro como “síndrome de fadiga democrática” — abstenção crescente, instabilidade eleitoral, partidos esvaziados, paralisia administrativa. A saída que ele propõe, resgatando a prática ateniense do sorteio para compor conselhos e assembleias de cidadãos, pode soar radical, e tem problemas reais de escala e viabilidade que merecem debate sério, é fruto dessa derrocada da democracia em todos os quadrantes. Mas o mérito da proposta é justamente esse: tratar a crise como estrutural, e não como algo que se resolve trocando um slogan por outro a cada quatro anos.

Não se trata de dizer que toda a política é igualmente podre, nem que não existam candidaturas sérias tentando furar esse cerco — existem, e é injusto varrê-las para debaixo do mesmo tapete. Mas o sistema, como está desenhado, recompensa quem vende frase de efeito e pune quem tenta discutir orçamento, dívida e reforma institucional em campanha. Enquanto isso não mudar, continuaremos escolhendo, a cada eleição, entre variações do mesmo slogan — e adiando, mais uma vez, a conversa que realmente importa: o que queremos para o futuro de nosso estado? Do Brasil? Dos nossos filhos e netos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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