É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cirurgião especializado em cirurgia digestiva. Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

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Protocolo quebrado e mala perdida em encontro de alagoana com João Paulo II

10/04/2026 - 09:35
Atualização: 10/04/2026 - 11:17
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Roma é uma cidade onde o tempo costuma ser medido em séculos, mas naquela tarde de 1980, para uma distinta dama da aristocracia alagoana, ele foi contado em minutos agônicos. O cenário era digno de um filme de suspense diplomático: o marido, diretor internacional de um banco público, tinha audiência marcada com o Papa às dez da manhã seguinte. O problema? A mala que guardava o rigoroso protocolo de seda e renda negra – o traje obrigatório para quem não carrega o sangue real do privilège du blanc – havia decidido fazer um tour involuntário pelo Sudeste asiático.

O desembarque em Fiumicino, às 17 horas, foi o início de uma “operação de guerra”. Em um gesto de fidalguia e eficiência, a embaixada brasileira acionou seus contatos. Por um fio de telefone e muito prestígio, as portas das exclusivas grifes da Via Condotti, que já se preparavam para o fechamento, permaneceram abertas. Entre tecidos escuros e ajustes de última hora, a aristocrata provou que a elegância de Maceió não se abala nem diante do extravio de bagagem.

Na manhã seguinte, no coração do Vaticano, o ambiente exalava incenso e história. Quando a comitiva brasileira foi conduzida à presença de João Paulo II, a tensão do dia anterior ainda pulsava sob o véu de renda negra. O Papa polonês, conhecido por seu carisma avassalador e olhos que pareciam ler a alma, recebeu o casal com a afabilidade que o tornaria santo.

Foi então que a espontaneidade alagoana rompeu o protocolo de mármore. Com a humildade de quem reconhece que até as pequenas angústias importam a Deus, ela fez o pedido inusitado: – Santo Padre, reze pela recuperação das minhas malas!

Houve um microssegundo de silêncio, talvez o susto dos assessores. Mas João Paulo II, o “Atleta de Deus”, sorriu. Com a vivacidade de quem compreendia que a fé também habita as necessidades do cotidiano, ele não apenas prometeu orações. O Pontífice aproximou-se e, num gesto de profunda ternura, colocou as mãos sobre a cabeça daquela senhora. O toque era firme, carregado de uma energia que atravessava o linho e a pele.

– Você vai recuperá-las – sentenciou ele, com a autoridade de quem tinha linha direta com o Alto.

Dias depois, o veredito do Santo se confirmou. As malas, que por um erro logístico surreal haviam ido parar na Tailândia, atravessaram oceanos e continentes para retornar às mãos da dona. Para muitos, foi um triunfo da logística aérea; para a aristocrata alagoana, foi a prova de que, para um Papa que mudou o curso da história, nenhum detalhe – nem mesmo uma mala perdida no Extremo Oriente – é pequeno demais para a intercessão divina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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