É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cirurgião especializado em cirurgia digestiva. Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

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A Máscara da Idade: do Escárnio ao Tada

22/05/2026 - 08:20
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No início da década de 1990, o médico Dirceu Falcão utilizava sua coluna, "Senectude e Morte", para mapear o preconceito geracional. Ele colecionava os ditos populares como uma sentença: "velho que só a estrada", "remédio pra velho é capim novo (mulher nova)" e a cruel sentença de que "quem gosta de velho é reumatismo". Eram tempos de um humor áspero, que escondia sob a picaresca o medo da decadência.

Falcão percebia que a velhice, no imaginário brasileiro, era vista como uma sucessão de falhas mecânicas e biológicas – os temidos "três Qs": queda, catarro e caganeira. Uma visão que reduzia o ser humano a uma lista de desconfortos: pernas inchadas, joanetes e a irreversível falência da libido.

Contudo, entre 1992 e o jornalismo digital de hoje, o tempo não apenas passou; ele se transformou. Se o Marquês de Maricá sentenciou que "os velhos sabem e querem, mas não podem", ele não previu a biotecnologia. A "maior descoberta do século XX", como se diz jocosamente, não foi o computador, mas a Tadalafila, popularmente Tada ou Cialis. O Cialis e seus derivados não apenas devolveram o vigor físico da ereção; eles implodiram a barreira do "não poder", forçando a sociedade a encarar o idoso não como um objeto de caridade ou piada, mas como um sujeito de desejo. Uma amiga jovem e geriatra estudou na residência médica a sexualidade das mulheres idosas. E na pesquisa, as velhinhas abriram a boca: que o desejo estava vivo, que praticavam onanismo etc. Em pleno vigor dos vinte anos eu achava aquilo um desperdício. Que se confinassem ao “já fui bom nisso”. Quanta estultícia de minha parte, reconheço aos 71 anos e meio.

A velhice me assustava tanto, que Otto Lara Rezende recomendava a seus filhos que lessem “A velhice”, de Simone de Beauvoir, antes dos cinquenta anos. Adquiri o meu exemplar aos quarenta anos; o tempo escorreu e lá estava eu com mais de 49 e dez meses, quando resolvi lê-lo. O ensaio é robusto, fácil de ler e otimista. Ela cita logo Michelangelo, que trabalhou até seus 89 anos (1475/1564). Os idosos de longa vida são os que têm genética sólida, adoecem pouco e não sucumbem a epidemias como a Covid. No Brasil, temos 200 mil idosos acima dos cem anos, rastreados pela pesquisa da dra. Mayara Katz, da USP.

Mas a evolução química não resolveu a questão ética. Simone de Beauvoir, em 1970, já denunciava a "conspiração do silêncio" que cercava a velhice. No Brasil, essa conspiração é mais barulhenta: ela se manifesta no sequestro de aposentadorias por filhos e netos, na invisibilidade digital e no escárnio que persiste. O preconceito mudou de face, mas não de essência.

Cecilia Minayo, socióloga ilustre e agora aos 88 anos, também resumiu o livro “A Velhice”, de Beauvoir, como uma imersão no sentido que a sociedade dá à presença dos velhos e como os trata, de um lado, e como eles próprios vivenciam essa transformação de seu corpo, de suas experiências e de seus desejos, de outro.

Na primeira parte, a autora descreve o que chama de exterioridade biológica, existencial, etnológica, ou seja, o conjunto de aspectos marcados pelas dimensões que distinguem o velho de um adulto e de uma criança.

Na segunda parte, ela o coloca como um “Ser no Mundo”, isto é, em suas vivências, o que inclui a percepção do outro sobre ele e como ele próprio se enxerga. Um pequeno capítulo sobre os centenários traz uma descrição e uma síntese comovedoras, fortalecendo a ideia de que eles se distinguem por serem pessoas simples, saudáveis, resilientes, sociáveis e de bem com a vida.

Do ponto de vista biológico, o livro assinala a inexorabilidade dos anos cronológicos, ante os quais a velhice se contrapõe à morte prematura. Gostemos ou não, a longevidade traz algumas características que a distinguem das etapas anteriores da vida, marcadas, segundo ela, pela medicina, pela economia e pelo próprio fato de existir. Na perspectiva médica, o corpo que envelhece é afetado e analisado na perda de sua capacidade física e às vezes mental. Sob o olhar econômico, “os adultos” – o grupo etário que manda em todas as sociedades – convencionam as leis que determinam o momento em que os velhos devem cessar seu protagonismo, tratando-os como um grupo dispensável e inútil. São condenados à miséria, à solidão, às deficiências e ao desespero. “A classe dominante – aqui ela se refere a quem tem poder, os adultos – adota a posição cômoda de não considerar os velhos como humanos”.

Do ponto de vista histórico, Simone de Beauvoir ressalta que o velho sempre foi escanteado. Em todos os períodos, pessoas reconhecidamente sábias, ricas e, nos tempos modernos, detentoras de poder, salvam-se do menosprezo e dos maus-tratos infligidos pelos adultos. Elas são preservadas, e muitas vezes tomadas como exemplos.

Simone de Beauvoir conclui que o modo como a sociedade trata os velhos é político. O poder de que eles próprios gozaram como adultos se anula e passa para outras mãos. De maneira geral, a sociedade tende a destiná-los a uma sobrevivência de pobreza, sofrimento e regramento. Por isso, a autora lembra que o drama da velhice não está no fato de o indivíduo ser velho, mas em o mundo não o reconhecer como sujeito e desdenhar de sua subjetividade. Na edição de 24/4/26 de O Globo, a prestigiosa Carmen Lúcia Dantas faz um protesto contundente sobre o Ser que está sob a carapaça de idoso, confinado ao desprezo pela sociedade, despojado do desejo em seu elã vital.

O idoso de hoje, que Kant encorajava a construir pilares de felicidade na solidão, enfrenta o desafio de ser "jovem o suficiente" para não ser descartado, e "velho o bastante" para ser respeitado. A máxima de Maricá precisa ser atualizada: hoje, muitos idosos sabem, querem e – graças à ciência e à consciência – podem. O que falta é uma sociedade que saiba, queira e possa enxergar além das rugas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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