Marcela e a Imortalidade nos Netos
A imortalidade é, talvez, o anseio mais profundo da alma humana. Cada indivíduo a busca na fonte que lhe parece mais promissora. Para muitos, o caminho mais sedutor é o dinheiro, capaz de liquidar desejos imediatos e erguer pedestais de relevância social. No entanto, essa é uma imortalidade espúria e efêmera. Como bem intuiu Santa Teresa D’Ávila, "choramos mais pelas coisas conseguidas do que pelas não concretizadas", pois um desejo satisfeito pelo poder financeiro frequentemente nos lança no precipício do vazio, obrigando-nos a inventar novas carências para preencher o lugar do que já foi alcançado.
Há quem busque a eternidade na vaidade, no renome ou na honra. Mas a fama cobra seu tributo na perda da simplicidade, como o anonimato de um banho de mar na Praia do Francês ou o desejo do Papa Francisco de comer uma pizza comum em uma calçada qualquer. Existe, contudo, uma imortalidade muito mais sublime e biológica: "a repetição ao infinito de um Ser em outro que nasce dele", como descreveu Jacques Monod. Essa continuidade manifesta-se nos filhos, mas atinge seu ápice fulgurante nos netos.
Nos netos, depositamos o amor represado que a luta pela sobrevivência, por vezes, nos impediu de entregar plenamente aos filhos. É uma imortalidade explícita e deliciosa, especialmente quando percebemos neles gestos nossos — traços de temperamento ou inclinações — que surgem espontaneamente, sem nunca terem sido ensinados. Após a criação de minhas três filhas, a natureza presenteou-me com dois meninos e, recentemente, com a belíssima Marcela. A beleza é do avô, o pai da mãe; espangi. Os inimigos defenestraram-me: - não, nunca. A beleza é da avó materna, Mila.
Marcela chegou ao mundo com o porte do pai e os olhos grandes da mãe, sob a expertise obstétrica da dra. Roberta Albuquerque; exibindo uma expressão que mistura serenidade e inteligência. Ao observar sua chegada, pergunto-me como sobrevivem aqueles que não conheceram a graça de ter netos. Minha missão agora é criar memórias ancoradas na liberdade, no bom humor e no afeto. A disciplina, tarefa que já cumpri com minhas filhas, cabe agora aos pais.
A relação com o neto é uma linha fina e sublime da vida. Quando Vinícius me liga por vídeo para mostrar, deslumbrado, a figurinha do Cristiano Ronaldo, minha alma navega em uma autoestrada de alegria. Quando Caio avisa que está chegando e pergunta pelo "lanchinho", sinto que o aliciei com sucesso para o lado doce da vida. E agora, Marcela aterrisa com a altura do bisavô Eloi e o nariz da bisavó Zita, equilibrando a linhagem com sua presença feminina.
Inscrita na memória popular, a avó de Jesus, Sant’Ana, derramou para os mortais comuns essa grandeza de ser avô/avó.
Como escreveu Rachel de Queiroz, os netos são uma "herança" que recebemos sem merecer, um "ato de Deus" que compensa as perdas da maturidade. Se os filhos são o dever e a continuidade direta, os netos são o amor em estado de gratuidade absoluta — a renovação da vida que nos permite, finalmente, amar sem restrições ou culpas.
Nos últimos versos de “Vida e Morte Severina”, de João Cabral, o personagem Severino desiste de pular da ponte para a morte, quando vê a presença da vida em sua criança explodida:
“- Severino, retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga é difícil defender só com palavras, a vida, ainda mais quando é esta que se vê, Severina mas se responder não pude à pergunta que fazia, ela a vida, a respondeu com sua presença viva.
E não há melhor resposta que o espetáculo da vida, vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida:
“Mesmo quando é assim a explosão, como a ocorrida, como a de há pouco...”,
A de Marcela, minha bela menina, neta querida, com o nariz de mamãe e grandona como papai.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA



